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Barulhos
por Lakshmi Lobato

Um dia acordei, logo após ter tido caxumba e a minha vida mudou por completo. Até hoje me pergunto como seria a minha vida, se aquela manhã tivesse sido apenas mais uma das muitas e muitas manhãs da minha infância. Nessas horas, em que a tristeza fala baixinho, vem-me o otimismo (porque só pessimismo não agüento) e digo a mim mesma: "Aí, provavelmente você nem se lembraria dessa manhã, teria ficado perdida no tempo.". Mas, explicando, para quem ainda não me conhece, naquela manhã, acordei e meu mundo se tornara um silêncio. Ficar surda, aos nove anos de idade, pode não ser o desejo de ninguém, mas até prefiro assim. Estou no exato limite entre os dois mundos.












O mundo dos ouvintes, porque sei como é o som e, portanto, falo "oralmente" como qualquer pessoa (ou um pouco mais enrolado, mas me dêem uma colher de chá. Isso foi há 14 anos.) e o mundo dos surdos. Sempre gostei de aventuras e acho que essa é a maior delas: você ser capaz de entender tantas pessoas. Apesar da surdez precoce, nunca me abati. Nunca deixei de fazer nada. Aos 23 anos, curso o último ano de publicidade e fotografia, namoro o Beto há mais de um ano e ele é ouvinte (nessa diferença ele sofre mais que eu, porque tem que ficar me explicando tudo sobre sons e músicas e ligando pra minha mãe por mim. Ai ai, o que o amor não faz....), já fiz estágio numa agencia de comunicação, dirijo e tenho muito amigos, ouvintes e surdos. Não tenho porque me considerar uma pessoa inferior, inválida ou mesmo um peso para ninguém. Para assistir aula, eu me viro. Se precisar, sento lá na frente, peço para me repetirem o que não entendi (um amigo meu, surdo, reclama que tem dificuldade de ler os lábios dos professores, então, estuda mais pelos livros, mas não é o meu caso, tenho boa habilidade de ler os lábios), estudo em casa também e minhas médias até que são bem razoáveis. Se, para trabalhar enfrento muito preconceito, de pessoas que me barraram antes mesmo da entrevista, quando consegui ter uma, fui contratada de primeira.

Acho que não tenho muito do reclamar, né? Nem de me sentir diferente de qualquer uma de vocês, mulheres superiores da vida. Mas, não é o caso de todas nós, que portamos deficiências. Uma vez, estava sentada, em frente à faculdade, conversando com uma amiga portadora de deficiência física. Ela é uma dessas pessoas incríveis, super esforçadas, impossível de não se admirar. Contava-me que tinha consulta marcada na ginecologista, coisa que nenhuma mulher acha agradável de fazer e até falar no assunto. Disse que tinha um pouco de trauma, pois uma vez foi numa outra médica, que lhe disse que achava um absurdo essa "mania dos deficientes de achar que podem fazer tudo o que as pessoas normais fazem". Os olhos dela encheram de água, ao falar isso. Meu coração sentiu uma pontada e respondi: "Se ela tem preconceito, linda, o problema é dela. Honestamente, acho que quem tem preconceito, sofre muito mais do quem é vítima. Afinal, a vítima vai embora e o preconceito fica lá com ela.". Minha amiga deu um sorriso grande e foi mais tranqüila pra consulta, no dia seguinte. Aliás, nem deve ter sido tão traumático assim, de novo, porque ela não comentou nada depois.

Claro que também quase morri de tanto orgulho, quando, nas Olimpíadas Especiais, no ano passado, os atletas deficientes trouxeram mais medalhas que os atletas normais. Isso mostra que a força de espirito está dentro de nós, não no físico. E, antes de terminar esse texto, vou lhes pedir uma coisa: Olhe um pouco a sua volta, enquanto lê esse meu relato e depois feche os olhos. 'Desligue' os pensamentos e deixe só os sons entrarem na sua cabeça, como se fossem uma orquestra desordenada.

Ouça um pouco o barulho dos carros, das buzinas, do liqüidificador, do teclado, do mouse rolando a tela, da campainha, do telefone, da sua própria respiração.... É um milagre, não é?! Não? Você acha a coisa mais banal que existe? Pensa que é só rotina, que você ouve isso todos os dias, então alguns barulhos até te irritam? Sabe aquele barulho de água quando você dá a descarga... Ah, vai me dizer que presta atenção nisso? Uma vez, fui ao banheiro usando meus potentes aparelhos que devolvi uma semana depois e levei um susto tão grande. Esse barulho foi uma tremenda novidade para mim.... Perder um sentido não apenas perder uma capacidade, mas também desenvolver outras. Minha visão é mais perceptiva, meu tato também, meu olfato e minha memória, nem se fala. Mesmo assim, a audição também tem suas vezes, lembro direitinho da voz da minha mãe quando ela está feliz ou quando está zangada. Lembro de ouvir o barulho do mar, das gotas caindo na chuva, do papel da bala abrindo, da mordida naqueles biscoitos recheados... Que agora são pequenos milagres que eu almejo no dia à dia.... E que se não fosse esse dom da surdez, seriam apenas simples barulhos do meu cotidiano.

 



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