
Recentemente, descobri em Ipanema uma loja de esportes dos anos
70 € beira da falŠncia. Comecei a frequentar essa loja obcecadamente
jß que ela estava fechando e vendia tudo a pre‡o de banana.. A
cada semana, novas mercadorias surgiam do al‰m. Mesmo que eu revirasse
a loja inteira e a vendedora jurasse que nƒo haviam mais produtos,
sempre encontrava novidades e, o melhor, elas custavam de R$ 3
a R$ 1. Viciada, roubei at‰ uma televisƒo da minha tia para poder
trocar por roupas esportivas como o uniforme de inverno da sele‡ƒo
brasileira nos anos 70 e um maiŸ vermelho da equipe de nado sincronizado.
At‰ que um dia, em mais uma romaria a Rio Sport, eu me deparei
com ele. Sim, o casaco de papel. Mas nƒo era um casaco qualquer.....
Neste momento, como num filme, uma luz atravessou as nuvens e....
Deus provou sua existŠncia. O casaco de papel tinha a estampa
mais gloriosa do mundo. Era uma foto do Nick Lauda, com o seu
autgrafo reproduzido. Sei que uma declara‡ƒo como esta atrai
uma carga de energia invejosa absurda. Mas ‰ a verdade. Eu tenho
um casaco de papel do Nick Lauda. E custou R$ 2. Morram de inveja.
S que esse casaco do Nick teve um efeito psicolgico devastador
sobre mim. Algo como "quem espera sempre alcan‡a". Mesmo que seja
uma espera de vinte anos. Em bom portuguŠs.... ele me encheu de
esperan‡a. Retomei minha f‰ absurda no mundo, na humanidade e
at‰ neles, os adorßveis homens. Voltei a jogar na Raspadinha,
vcio que tinha abandonado. Voltei a escrever projetos para conseguir
dinheiro atrav‰s da Lei Rounet. Voltei a pensar naquele pretŠ
que nƒo me deu bola mŠs passado... E o pior de tudo: comecei a
me lembrar de outros fantasmas da inf‚ncia, como aquele aparelho
que faz etiquetas com nomes variados. Meu maior sonho.
Certa vez, vi um trailler que me impressionou. No filme anunciado,
o Tim Robbins era um cara condenado € prisƒo perp‰tua. E ele era
inocente. Na tela, aparecia correndo na chuva desesperado e entrava
a voz do (maravilhoso) Morgan Freeman, dramßtico: "a esperan‡a
pode matar um homem..." E surgia, em letra garrafais aquele "breve,
nos cinemas". Aquilo me marcou, principalmente porque na ‰poca,
assim como Tim, eu estava na lama. E cheia de f‰.
Depois vi o filme e, gra‡as a deus e ao cinema americano, tinha
um final feliz. Mas a lembran‡a deste trailler, somada ao meu
casaco fez com que eu come‡asse a refletir sobre o otimismo. Outro
dia mesmo vi o escritor Allain de Bouton numa entrevista e ele
dizia que, se fŸssemos mais espertos, seramos mais pessimistas
(depois ele consertou: "realistas"). Assim, nos decepcionaramos
muito menos. Dizia ele: "se uma pessoa jß estß convencida que
vai pegar um engarrafamento para chegar a um determinado lugar,
quando ela pegar o engarrafamento nƒo vai ficar irritada. E se
nƒo pegar o engarrafamento, vai ficar mais feliz". Faz sentido.
E, pensando bem, vinte anos ‰ tempo demais. Olho para aquela lenda
ao lado do seu potente carro. Pego meu Super Trunfo "Mßquinas
Fantßsticas", visto meu casaco e resolvo parar com essa baboseira
existencialista. Sorte de quem tem esperan‡a afinal, ela ‰ a ”ltima
que morre. Nas minhas costas, Nick sorri.