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A dificuldade de fazer simptias
na vida moderna
por Nina Lemos

 

A cena era a seguinte. Duas amigas folheavam um livro de simpatias. Elas estavam em um daqueles momentos de superego descontrol grau mil. Totalmente foras de si. Nessas horas, claro, somos capazes de acreditar em qualquer coisa. At‰ naquela simpatia para arrumar pretendente que foi passada com exclusividade por aquela nossa tia virgem.













O livro das minhas amigas tinha simpatias bem simples, nada especializadas. Uma delas falava que era preciso acender uma vela ao entardecer em uma sexta-feira. Quer coisa mais simplesāAs duas ficaram muito animadas, com a certeza de que conseguiriam o que queriam (nƒo vou dizer o que era, mas claro que tinha a ver com homem) depois de acender uma velinha de nada.

æEu trabalho, puxa, como vou acender uma vela no trabalho?" A minha amiga deu esse grito de alerta. E a, o que era uma simples noite dominical ao som de No Limite virou uma coisa complexa, como se fossemos de fato participantes do programa.

Lembrei do caso de uma outra amiga que acendeu uma vela no trabalho e quase queimou documentos secretos e importantes. Contei isso para elas, que arregalaram os olhos de pavor.Uma delas trabalha em um lugar super careta e teve o genial plano de acender a vela no banheiro da diretoria. A outra pensou em ir para um parque perto do trabalhoā. Mas todas ficamos traumatizadas com o Manaco do Parqueā por isso, se meter em parque ao entardecer parece mais assustador do que incendiar um escritrio de multinacional.

Elas desistiram dessa simpatia.

A outra mandava enterrar um papel com o nome do pretendente em uma roseira. Agora, como encontrar uma roseira em SP? Conseguimos achar uma em uma casa. Mas como chegar para os moradores e falar, boa tarde, eu posso enterrar uma macumba na sua roseira?

Se elas pulassem o muro poderiam ser confundidas com ladras. Por issoā Elas desistiram dessa simpatia.

Depois acharam mais uma bem simplinha mas, para essa, era preciso ter conchas!!!!!!!! Arrumar uma concha ‰ uma coisa muito simples para quem mora em uma cidade que tem praia. Mas, se a infeliz mora em SP, isso pode ser mais compicado do que arrumar um homem que telefone no dia seguinteā

Mas as minhas amigas sƒo muito espertas!!!! Por isso, tiveram a brilhante idˆia de roubar conhas no Carrefour. Uma daquelas que decoram peixes mortosā.

Eu nƒo acompanhei o resto, mas sei que elas passaram o dia seguinte no ICQ tentando resolver o drama. E eu cheguei a uma conclusƒo muito triste. Quem mora na cidade grande perdeu o direito de fazer simpatias!!!!!!

Todas aquelas da nossa inf„ncia, que mandam colocar uma bacia no orvalho etc. Como vamos conseguir orvalho em ßreas fechadas? E como equilibrar uma bacia em uma janela?

Tudo isso ‰ muito triste! Sim, precisamos das simpatias ridculas em momentos de desespero! Por isso, proponho que sejam inventadas simpatias que tenham mais a ver com a realidade em que vivemos no s‰culo 21! Nada de roseiras e velas e orvalhos!!!!

A simpatia da vela poderia ser substituda por uma em que a pessoa acendesse uma luz no fim da tardeā A roseira poderia ser mudada para uma daquelas plantas semimortas que ficam dentro de empresasā E as conchasā Bem, acho que elas poderiam ser substitudas por contas em nen ou por pedacinhos de gltter.

Se vocŠ escreve simpatiasā saiba que estamos ansiosas para ler um livro onde essas mudancinhas sejam implementadasā








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