O humano é um
ser carente por natureza. Estamos sempre andando em grupos de dois,
de três, de quatro, para nos sentirmos parte de alguma coisa.
Quando a situação agrava, começamos a andar em
hordas (para nos sentirmos parte de uma coisa maior ainda!). É
claro que é bom ter um milhão de amigos para bem mais
forte poder cantar. Mas solidão também faz bem. Solidão,
aliás, é uma das palavras mais injustiçadas da
língua portuguesa. Por que estar só, convenhamos, não
pode ser tão ruim assim. Só que um ser solitário,
segundo nosso cruel dicionário, é "abandonado de
todos, reduzido à solidão. Que não se adapta à
sociedade. Misantrópico!". Ora, porque não experimentar
um pouco de solitude? Não SER só e sim ESTAR só.
Uma simples tarde de "sozinhês", sem que isso signifique
um estado de reflexão grave sobre o verdadeiro sentido da vida,
quem somos, para onde vamos... (Principalmente porque, se formos pensar:
a vida definitivamente não faz sentido!) Apenas divirta-se!
Ir
ao cinema sozinha é o programa ideal para a sozinhês. Você
não precisa ficar fazendo acordos de horários, cinemas
ou passar horas debatendo qual filme você quer ver. É só
abrir o jornal, escolher e ir. Só tem uma coisa me incomoda quando
vou ao cinema sozinha. Durante o trailler, não tenho com quem
falar "esse eu quero ver", "esse eu não quero
ver", "oba, esse vou ver". Mas, em compensação,
quando acaba, também não preciso emitir nenhuma opinião.
Se você trabalha com comunicação, emitir uma opinião
sobre um filme qualquer pode se transformar num evento. É algo
mais complexo do que o gostei-não gostei: você tem que
comentar o ritmo, o roteiro e até a direção de
atores! Haja paciência (e opinião também.).
Ficar
em casa também pode ser jóia. Que tal pedir uma boa pizza
pelo telefone? Só pra você, sem fazer concessões
sobre metade da pizza. (Não que eu não saiba dividir.
Mas temos que aproveitar o lado bom da sozinhês!). Peça
tudo que tem direito, inclusive a sobremesa. Nada de se contentar com
um sanduíche feitos dos restos mortais da geladeira... E coma
com dignidade, na sua melhor louça! (Tá, tudo bem, neste
quesito eu abro uma exceção! Dependendo do tipo de pizza,
pode comer com um guardanapo pra não lavar a louça). E
dependendo do seu grau de sozinhês, peça algo mais ousado.
Um combinado jumbo que vem num barco.
Outro bom programa de sozinhês caseira são os trabalhos
manuais. (Eu sei que esse confissão me fará um alvo fácil
para a chacota alheia). Embora todos os meus trabalhinhos manuais fiquem
sempre horríveis, não é isso que importa. Importa
a vibe. Você pode inventar uma bolsa, uma tiarinha ou uma obra
de arte com colagem. Bote seu melhor CD e deixe a televisão ligada,
sem volume. Só para sentir os raios catódicos fazendo
bem para a sua pele. É super legal, pelo menos até o trabalhinho
manual ficar pronto. Neste momento, você se sente meio inútil,
porque ficou três horas colando e cortando e o resultado ficou
pior do que os seus trabalhos do primário. Não leve muito
a sério! Tente rir, pensando em como foi estúpida em achar
que tinha vocação para artista plástica!
Então, pra espantar o espírito de derrota, pegue a bike
(com um walkman) e vá dar um rolé. Escolha uma boa vista
e uma boa trilha. (Um som viajante: experimente trip-hop, apesar da
melancolia do gênero). Ou escolha o programa mais clássico
dos clássicos. Sair para tomar um café, com você
mesma, e só. Comprar uma revista bacana. E ser feliz.
Atenção: quando você sai sozinha, algumas vezes,
é natural que você sinta um desejo avassalador de que algo
incrível aconteça. Reencontrar alguém do passado,
presenciar uma onda gigante ou descobrir o novo grande amor da sua vida.
Algo que você possa contar aos seus netos. Tipo "eu estava
tomando um café e lendo uma revista bacana e apareceu um caçador
de talentos e aí....." Mas não se apegue a este desejo.
Muitas vezes, uma saída solitária é simplória.
E nada extraordinário acontece. Fica você, só você
e você somente, com seus pensamentos diários. E que não
precisam ser pensamentos sensacionais. E mesmo assim, é bom.
Acredite.