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A Moça e seus Problemas
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Ai, perdi a terapia
Por Nina Lemos





 



Faltei a terapia e cheguei atrasada na análise. Essas são duas das frases mais usadas no nosso universo urbano/burguês/moderno. Essa é uma terrível crise que nos persegue. Outro dia, uma amiga me disse que desistiu de fazer análise de tanto que chegava atrasada. Outro, bastante freudiano, chegou a se referir à analista como "aquela vaca". E olha que ele adora fazer análise.
Eu sou a pessoa do mundo mais a favor da análise. Para ser sincera, eu ando simplesmente deletando todos os ignorantes psiquícos da minha vida. Se um menino falar que faz análise, esse já é um bom motivo para que eu gaste meu tempo conversando com ele. E depois de muita conversa, claro, ele ganha chances de virar amigo ou pretê ou alguma variação entre os dois termos.

Escrevi esse parágrafo só para que vocês (e os psicanalistas que leêm esse site) saibam que o meu amor a Freud é claro e declarado. Sim, como boa culpada, estou me justificando.
E estou me justificando enquanto escrevo um texto sobre a culpa. Sim! Porque fazer análise hoje em dia implica em um grande grau de culpa! Faltamos e nos culpamos. Chegamos atrasados e nos culpamos. Trocamos a hora e nos culpamos. E isso pode virar uma tortura.

Gostaria, mesmo, de fazer um apelo aos analistas! A nossa vida é complicada demais (e por isso fazemos análise). Mas o que podemos fazer se a gente gosta de ir a um inferninho em São Paulo chamado Stéreo na quarta e a nossa análise é na Quinta de manhã? Deixar de dançar para sempre? Deixar de encontrar os amigos e de saber 'quem tava'? Não é tão simples assim! Precisamos de análise, mas também precisamos de diversão!!!! Queremos nos conhecer plenamente, mas também gostamos de dar risadas quando a noite cai. Outro dia uma amiga minha trocou a análise da semana pelo pedicuro e um almoço com a irmã. Não a culpo. Será que a moça não pode, um dia na vida, preferir cuidar do pé do que da cabeça?
E tem um outro detalhe muito importante nisso tudo.

Trabalhamos muito. E trabalhamos também para poder pagar a análise, que custa muito dinheiro. Eu sei que um dos sinais de sanidade mental é ter um trabalho bacana. Mas os trabalhos bacanas costumam ocupar muito (ou todo) o nosso tempo. E aí? Como é que fica? Estamos todas loucas porque faltamos a análise por causa do trabalho? Ou será que somos sãs e por isso precisamos trabalhar?

Será que sempre que acontece uma festa legal na véspera da terapia isso significa que a gente armou um complô com os promoters para fugir dos nossos problemas? Será que quando um menino realmente resolve chamar a gente para sair logo no dia que temos análise de noite é porque ligamos para ele e dissemos: "pelo amor de deus, me chame para sair porque eu quero faltar a análise?"Será que sempre que trabalhamos até de madrugada é porque pedimos para os nossos chefes para fazer hora-extra para ter uma desculpa de fugir dos nossos fantasmas na manhã seguinte?

A resposta é não. A gente foge às vezes, claro! Mas não armamos uma grande conspiração no universo. E quando chegamos atrasadas, muitas vezes é por causa de uma coisa simples, como engarrafamentos! E nós, definitivamente, não provocamos o trânsito de São Paulo só para nos distanciar da verdade.

E agora eu vou dormir porque, é sério, amanhã eu tenho terapia...



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