Sim,
queridas, antes do passado ser passado, o veludo molhado jß cheirava
a mofo. E a gente achava normal ouvir trilha sonora de novela. E ir
em bailinhos em que o auge era dan‡ar uma lenta com um garoto que era
a cara do David Cassidy. Ainda hoje fico arrepiada quando descubro algum
nerd com aquele corte de cabelo. Uma coisa assim, repicada na frente
e de franjinha. A essas alturas, vocŠs devem estar vomitando... Ôtimo!
Sinal de que pegaram o clima!
Os anos setenta foram um cadßver se decompondo. E eu era a florzinha
que nasce do lixo. Desabrochando para a vida e o amor. Ao som de uma
baba qualquer do Jackson Five.
E tudo teria continuado nessa pasmaceira se eu nƒo tivesse me apaixonado
pelo trisavŸ do Beavis & Butthead.
Fora ter corpo de homem û afinal era repetente e quatro anos mais velho
do que ns naquela maldita oitava s‰rie û ele era tƒo podre quanto.
Mas sua risada ganhava em imbecilidade. E, quando os garotos se jogavam
uns em cima dos outros no jogo de rugby û infelizmente nƒo podiam se
jogar em cima de ns, as meninas û, ele sempre ganhava a parada. E ficava
ganindo uma esp‰cie de risada de hiena enquanto subjulgava uns seis
ou sete.
Ð claro que essa exibi‡ƒo cotidiana de masculinidade acabou me ganhando.
E fiquei doente de paixƒo. Aos 14 anos, eu era uma adolescente normal.
Pßlida, com pouca vitalidade. Tmida de morrer, com a testa û que eu
escondia atrßs da franja û lotada de espinhas. Nƒo conseguia nem pensar
no homem da minha vida sem ficar vermelha. Imaginem meu estado quando
ele falou comigo e convidou pro seu aniversßrio! Agosto de 1976.
A festa seria no sßbado. Na ter‡a, sa pra comprar a roupinha. Escolhi
uma saia longuete de veludo bege. E botas marrons para combinar. Usei
com uma jaqueta de crochŠ que a minha av tinha feito e uma cacharrel
verde. No dia, caprichei no blush e tomei um banho de patchouli. Comecei
a tremer ßs cinco da tarde, e castiguei no BallantineÆs lß de casa.
Quando minha melhor amiga chegou, eu estava deliciosamente amortecida.
Ainda bem, porque at‰ hoje nƒo sei dizer se suportaria as emo‡es daquela
noite de cara limpa. Decididas, fomos pra festa. De longe dava pra ouvir
a zoeira. Entramos. E tivemos a visƒo.
As garotas usavam cal‡a baixa e tŠnis All Star. Dan‡avam batendo os
punhos nos quadris e contorcendo o corpo. Os garotos nƒo faziam nada
muito diferente do jogo de rugby, continuavam se jogando uns em cima
dos outros.
Alguns casais se engoliam nos sofßs, de um jeito que eu nƒo imaginava
ser permitido entre quatro paredes. Mas o impressionante mesmo era a
m”sica. Mais tarde soube que era Surfin Bird, com os Ramones.
Mas
naquela noite, meio bŠbada, bombardeada pelo som e pela luz estrobo,
entrei em estado de choque. Quando despertei, ELE ESTAVA ME BEIJANDO!!!
A lngua era quente, grande e ßspera e eu quase engasguei com aquela
coisa for‡ando passagem at‰ a minha garganta!
No final, olhou nos meu olhos e disse ôVocŠ ‰ estranha, menina! VocŠ
‰ a Carrie, Carrie, a Estranhaö. E me largou enquanto eu tinha orgasmos
pensando como era chique ser chamada de Carrie. Meu mundo caiu quando
assisti ao filme, semanas depois.
Chorei, fiquei com vontade de repetir a cena, especialmente a parte
em que a mocinha destri o bonitƒo da escola apenas com a for‡a do pensamento.
Mas era tarde demais. Meu cora‡ƒo tinha estourado. E depois daquela
sessƒo de cinema, me tornei um po‡o de cinismo. Mais um pouco, estaramos
nos anos 80.