- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 02 de maio de 1998

DIA DO TRABALHO II
Dom Paulo Evaristo faz críticas ao Governo e pede solução digna

SÃO PAULO - O cardeal arcebispo de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns, fez ontem um sermão de forte conotação política, em que criticou indiretamente o Governo Fernando Henrique Cardoso e exaltou a união dos trabalhadores. Na catedral da Sé, ele celebrou sua última missa em homenagem ao Dia do Trabalho na condição de arcebispo de São Paulo. Falou para uma platéia de cerca de 1.500 pessoas, segundo cálculos da Polícia Militar.

"Precisamos de uma solução digna para todo o Brasil, e não apenas para parte dele. Vamos lutar contra esse liberalismo que concentra riquezas nas mãos de poucos, enquanto o pobre fica cada vez mais pobre", disse d. Paulo, completando: "É hora de o povo ter voz e vez, é hora de o Brasil acordar, no campo e na cidade".

A missa do Dia dos Trabalhadores durou uma hora e quarenta minutos e contou com a presença de operários, meninos de rua e desempregados. Um grupo de meninos de rua cantou um rap, logo no início da cerimônia, em protesto contra o desemprego. Na hora das oferendas, trabalhadores levaram para o altar uma panela vazia, algumas frutas e faixas com a frase: "Somos os desempregados, excluídos da sociedade".

Durante seu sermão, que durou cerca de meia hora, d. Paulo falava e pedia aos fiéis que repetissem em coro suas palavras. "Este é um ano de eleições. Vamos votar nos políticos que saibam respeitar a classe operária. São eles que fazem as leis, mas nós é que sofremos as consequências , discursou. Em vários momentos, d. Paulo falou sobre a importância da união dos trabalhadores. "O próprio Deus quer organização operária. Nós precisamos de liberdade para nos organizar , disse ele, acrescentando: "Existem muitos postos de comando na política, mas os trabalhadores nunca chegam lá . No final da missa, o cardeal foi aplaudido demoradamente pelos fiéis e recebeu uma bandeira vermelha da Pastoral Operária, grupo da igreja católica que atua junto aos trabalhadores. "Ele fez um sermão forte, uma grande condenação à atual situação em que se encontra o Brasil. O que ele falou precisa ser ouvido no Congresso e no Palácio do Planalto , avaliou o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), um dos poucos petistas que foram à Catedral da Sé hoje. Ele assistiu à celebração ao lado da mulher, a deputada Marta Suplicy (PT-SP), e do presidente nacional do PT, José Dirceu. Depois da missa, em entrevista aos jornalistas, d. Paulo continuou batendo tem sido de uns poucos , criticou. O arcebispo disse que o presidente Fernando Henrique Cardoso precisa ouvir o que os bispos brasileiros têm a dizer e defendeu os saques a depósitos de alimentos no Nordeste. "Os nordestinos não fariam os saques se não fosse por desespero. Não acuso ninguém porque quem está morrendo de fome tem de buscar o alimento. A Bíblia prevê isso , afirmou. No dia 23 deste mês, d. Paulo deixa de ser arcebispo de São Paulo e assume em seu lugar o bispo d. Cláudio Hummes. No final da cerimônia, d. Paulo foi aclamado como o "cardeal dos trabalhadores e disse que essa última celebração foi tão emocionante quanto as missas que ele conduzia na época do regime militar.




   

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