DIA DO TRABALHO II
Dom
Paulo Evaristo faz críticas ao
Governo e pede solução dignaSÃO PAULO - O
cardeal arcebispo de São Paulo,
d. Paulo Evaristo Arns, fez ontem
um sermão de forte conotação
política, em que criticou
indiretamente o Governo Fernando
Henrique Cardoso e exaltou a
união dos trabalhadores. Na
catedral da Sé, ele celebrou sua
última missa em homenagem ao Dia
do Trabalho na condição de
arcebispo de São Paulo. Falou
para uma platéia de cerca de
1.500 pessoas, segundo cálculos
da Polícia Militar.
"Precisamos
de uma solução digna para todo
o Brasil, e não apenas para
parte dele. Vamos lutar contra
esse liberalismo que concentra
riquezas nas mãos de poucos,
enquanto o pobre fica cada vez
mais pobre", disse d. Paulo,
completando: "É hora de o
povo ter voz e vez, é hora de o
Brasil acordar, no campo e na
cidade".
A missa do Dia
dos Trabalhadores durou uma hora
e quarenta minutos e contou com a
presença de operários, meninos
de rua e desempregados. Um grupo
de meninos de rua cantou um rap,
logo no início da cerimônia, em
protesto contra o desemprego. Na
hora das oferendas, trabalhadores
levaram para o altar uma panela
vazia, algumas frutas e faixas
com a frase: "Somos os
desempregados, excluídos da
sociedade".
Durante seu
sermão, que durou cerca de meia
hora, d. Paulo falava e pedia aos
fiéis que repetissem em coro
suas palavras. "Este é um
ano de eleições. Vamos votar
nos políticos que saibam
respeitar a classe operária.
São eles que fazem as leis, mas
nós é que sofremos as
consequências , discursou. Em
vários momentos, d. Paulo falou
sobre a importância da união
dos trabalhadores. "O
próprio Deus quer organização
operária. Nós precisamos de
liberdade para nos organizar ,
disse ele, acrescentando:
"Existem muitos postos de
comando na política, mas os
trabalhadores nunca chegam lá .
No final da missa, o cardeal foi
aplaudido demoradamente pelos
fiéis e recebeu uma bandeira
vermelha da Pastoral Operária,
grupo da igreja católica que
atua junto aos trabalhadores.
"Ele fez um sermão forte,
uma grande condenação à atual
situação em que se encontra o
Brasil. O que ele falou precisa
ser ouvido no Congresso e no
Palácio do Planalto , avaliou o
senador Eduardo Suplicy (PT-SP),
um dos poucos petistas que foram
à Catedral da Sé hoje. Ele
assistiu à celebração ao lado
da mulher, a deputada Marta
Suplicy (PT-SP), e do presidente
nacional do PT, José Dirceu.
Depois da missa, em entrevista
aos jornalistas, d. Paulo
continuou batendo tem sido de uns
poucos , criticou. O arcebispo
disse que o presidente Fernando
Henrique Cardoso precisa ouvir o
que os bispos brasileiros têm a
dizer e defendeu os saques a
depósitos de alimentos no
Nordeste. "Os nordestinos
não fariam os saques se não
fosse por desespero. Não acuso
ninguém porque quem está
morrendo de fome tem de buscar o
alimento. A Bíblia prevê isso ,
afirmou. No dia 23 deste mês, d.
Paulo deixa de ser arcebispo de
São Paulo e assume em seu lugar
o bispo d. Cláudio Hummes. No
final da cerimônia, d. Paulo foi
aclamado como o "cardeal dos
trabalhadores e disse que essa
última celebração foi tão
emocionante quanto as missas que
ele conduzia na época do regime
militar.