ARTIGO
Negociar
é precisopor FRANCISCO ANTONIO
FEIJÓ*
O assunto do
momento é a negociação.
Necessária para muitos,
interessante para alguns, modismo
para poucos, todos falam em
negociar, em procurar reduzir
custos, em gerenciar receitas e
despesas, cortar supérfluos.
Alguns fatos
contradizem essa expectativa.
Veja-se os finais de semana, com
estradas lotadas, os aeroportos,
apinhados de passageiros, hotéis
de turismo com ocupação ao
redor de 100%. O que está
acontecendo, então, de concreto
que nos leva a negociar? O
simples desejo de fazer essa
negociação, ou necessidade de
reduzir gastos.
Comecemos por
tentar examinar o que acontece
com as empresas de maior porte.
O fenômeno
não é novo.
O alto custo
dos impostos, os encargos sociais
que atingem o custo total do
homem/hora, o avanço
tecnológico, a retração no
mercado interno - pela
estabilidade da moeda e a
própria redução de consumo -
obrigam empresários a reexaminar
jornadas, contratos de trabalho,
bancos de horas. Enfim, reduzir
alguns milhões de reais, aqui ou
acolá, para tentar evitar o
pior, o corte de funcionário,
com o alto custo de rescisões e
o trauma social, nem sempre com a
solução do problema maior, o
equilíbrio entre as receitas e
as despesas.
Nas empresas
médias, em sua grande maioria
ainda formadas por grupos
familiares, em que grande parte
do capital foi transferido para
as pessoas físicas, que encalham
patrimônios - em alguns casos,
fabulosos - e teimam na crise em
não os desmobilizar, ou não
conseguem simplesmente quem os
compre, onde a tecnologoia não
consegue avançar (pela falta de
capital) e a mão humana ainda é
o braço forte para a produção,
a queda de pedidos, os custos
fiscais elevados, a falta de uma
política tributária definida, a
incerteza, fazem com que surjam
inicialmente atrasos supostamente
rotineiros de pagamentos de
compromissos, seguidos de
protestos e pedidos de falência,
elididos e, alguns meses após,
pedido de concordata, para
trancamento de juros altos,
oriundos de empréstimos mal
geridos, que ao invés de
extinguir o mal o alastraram.
As pequenas
empresas, quase sempre
constituídas por funcionários
dissidentes de empresas de maior
porte, podendo trabalhar com
custos menores, em alguns casos,
deixando de registrar
funcionários, correndo o risco
de fiscalizações, atrasando
impostos e encargos, levadas na
maré da negociação do produto
de melhor época, se definidas e
estabilizadas em determinado
setor, com as conseqüências
inevitáveis de sua queda, por
força da entrada no País de
produtos de origem duvidosa,
importados ou fabricados ali
mesmo na esquina, concorrendo
deslealmente e aviltando preços,
inviabilizando em geral, a prazo
curto, expectativas, esperanças
mal-sucedidas de quem tentou ser
patrão, depois de muito tempo
empregado.
Falar das
micro, não obstante as vantagens
fiscais, daquelas que estão no
Simples, enfim, dos milhares de
empresas que se abrem e
permanecem abertas, muitas sem
vida, simplesmente bastaria
dizer, nada a acrescentar.
E o que dizer
dos que prestam serviços,
principalmente os profissionais
liberais ?
Não importa a
categoria, todos estão
envolvidos no mesmo problema, na
necessidade da negociação,
trabalhem como celetistas ou como
autônomos. Quem não negocia
não consegue manter os espaços
necessários, para a própria
sobrevivência.
Para negociar
entretanto, é preciso ter alguma
reserva, para o equilíbrio da
queda eventual do ganho, a face
ao montante dos compromissos já
assumidos, ou simplesmente, a
redução drástica desses mesmos
gastos, o que nem sempre é
possível.
O que dizer das
estradas lotadas, dos aeroportos,
dos hotéis com 100% de
ocupação, uma bolha de consumo,
ou compromissos assumidos, para
pagamento a longo prazo, ou o
gasto dos últimos reais do 13º
salário ou que enfim?
O que é tudo
isto, enfim, um novo fenômeno
brasileiro?
Os negócios em
queda, empregos em falta,
dinheiro sumido, como continuar
gastando ?
São poucos
dirão alguns. É um hábito
brasileiro, dirão outros.
Entretanto, as
coisas ai estão colocadas e as
negociações continuam. Todos
procuram pagar menos pelos
serviços que precisam e, as
empresas buscam redução de
gastos, para equilibrar seus
orçamentos, com os cortes, as
reduções de jornada, as
compensações, o banco de horas.
É a
negociação em marcha, nos
exatos termos do que eu possa
negociar. No momento em que a
negociação representar um corte
na carne, não somente a apara
das gorduras acumuladas, teremos
um ferimento, um risco, isso deve
ser evitado.
Quem sabe aí
as estradas esvaziem e os
aeroportos e os hotéis idem.
Seria o pior.
Por essa
razão, negociar é válido,
desde que necessário, mas
façamos essas negociações com
os devidos cuidados, sob pena de
destruirmos toda uma estrutura de
trabalho, montada ao longo de
anos.
Negociemos
todos, empresários,
trabalhadores, profissionais
liberais, porém que o Governo
entre também na negociação,
procurando, cortar suas gorduras,
para que possa reduzir o número
de impostos, e a carga
tributária.
* Francisco
Antonio Feijó é contabilista e
secretário-geral da
CNPL-Confederação Nacional das
Profissões Liberais