- - - -- - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 02 de maio de 1998

ARTIGO
Negociar é preciso

por FRANCISCO ANTONIO FEIJÓ*

O assunto do momento é a negociação. Necessária para muitos, interessante para alguns, modismo para poucos, todos falam em negociar, em procurar reduzir custos, em gerenciar receitas e despesas, cortar supérfluos.

Alguns fatos contradizem essa expectativa. Veja-se os finais de semana, com estradas lotadas, os aeroportos, apinhados de passageiros, hotéis de turismo com ocupação ao redor de 100%. O que está acontecendo, então, de concreto que nos leva a negociar? O simples desejo de fazer essa negociação, ou necessidade de reduzir gastos.

Comecemos por tentar examinar o que acontece com as empresas de maior porte.

O fenômeno não é novo.

O alto custo dos impostos, os encargos sociais que atingem o custo total do homem/hora, o avanço tecnológico, a retração no mercado interno - pela estabilidade da moeda e a própria redução de consumo - obrigam empresários a reexaminar jornadas, contratos de trabalho, bancos de horas. Enfim, reduzir alguns milhões de reais, aqui ou acolá, para tentar evitar o pior, o corte de funcionário, com o alto custo de rescisões e o trauma social, nem sempre com a solução do problema maior, o equilíbrio entre as receitas e as despesas.

Nas empresas médias, em sua grande maioria ainda formadas por grupos familiares, em que grande parte do capital foi transferido para as pessoas físicas, que encalham patrimônios - em alguns casos, fabulosos - e teimam na crise em não os desmobilizar, ou não conseguem simplesmente quem os compre, onde a tecnologoia não consegue avançar (pela falta de capital) e a mão humana ainda é o braço forte para a produção, a queda de pedidos, os custos fiscais elevados, a falta de uma política tributária definida, a incerteza, fazem com que surjam inicialmente atrasos supostamente rotineiros de pagamentos de compromissos, seguidos de protestos e pedidos de falência, elididos e, alguns meses após, pedido de concordata, para trancamento de juros altos, oriundos de empréstimos mal geridos, que ao invés de extinguir o mal o alastraram.

As pequenas empresas, quase sempre constituídas por funcionários dissidentes de empresas de maior porte, podendo trabalhar com custos menores, em alguns casos, deixando de registrar funcionários, correndo o risco de fiscalizações, atrasando impostos e encargos, levadas na maré da negociação do produto de melhor época, se definidas e estabilizadas em determinado setor, com as conseqüências inevitáveis de sua queda, por força da entrada no País de produtos de origem duvidosa, importados ou fabricados ali mesmo na esquina, concorrendo deslealmente e aviltando preços, inviabilizando em geral, a prazo curto, expectativas, esperanças mal-sucedidas de quem tentou ser patrão, depois de muito tempo empregado.

Falar das micro, não obstante as vantagens fiscais, daquelas que estão no Simples, enfim, dos milhares de empresas que se abrem e permanecem abertas, muitas sem vida, simplesmente bastaria dizer, nada a acrescentar.

E o que dizer dos que prestam serviços, principalmente os profissionais liberais ?

Não importa a categoria, todos estão envolvidos no mesmo problema, na necessidade da negociação, trabalhem como celetistas ou como autônomos. Quem não negocia não consegue manter os espaços necessários, para a própria sobrevivência.

Para negociar entretanto, é preciso ter alguma reserva, para o equilíbrio da queda eventual do ganho, a face ao montante dos compromissos já assumidos, ou simplesmente, a redução drástica desses mesmos gastos, o que nem sempre é possível.

O que dizer das estradas lotadas, dos aeroportos, dos hotéis com 100% de ocupação, uma bolha de consumo, ou compromissos assumidos, para pagamento a longo prazo, ou o gasto dos últimos reais do 13º salário ou que enfim?

O que é tudo isto, enfim, um novo fenômeno brasileiro?

Os negócios em queda, empregos em falta, dinheiro sumido, como continuar gastando ?

São poucos dirão alguns. É um hábito brasileiro, dirão outros.

Entretanto, as coisas ai estão colocadas e as negociações continuam. Todos procuram pagar menos pelos serviços que precisam e, as empresas buscam redução de gastos, para equilibrar seus orçamentos, com os cortes, as reduções de jornada, as compensações, o banco de horas.

É a negociação em marcha, nos exatos termos do que eu possa negociar. No momento em que a negociação representar um corte na carne, não somente a apara das gorduras acumuladas, teremos um ferimento, um risco, isso deve ser evitado.

Quem sabe aí as estradas esvaziem e os aeroportos e os hotéis idem.

Seria o pior.

Por essa razão, negociar é válido, desde que necessário, mas façamos essas negociações com os devidos cuidados, sob pena de destruirmos toda uma estrutura de trabalho, montada ao longo de anos.

Negociemos todos, empresários, trabalhadores, profissionais liberais, porém que o Governo entre também na negociação, procurando, cortar suas gorduras, para que possa reduzir o número de impostos, e a carga tributária.

* Francisco Antonio Feijó é contabilista e secretário-geral da CNPL-Confederação Nacional das Profissões Liberais


     

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