- - - -- - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 02 de maio de 1998

EMPREGO
Dieese traça perfil do trabalhador brasileiro

por LUCIANA LEÃO e ALEX GOMES

O Dieese (Departamento Intersindical de Estudos Sociais e Econômicos) no Rio de Janeiro elabora um estudo, "Formação Profissional no Brasil", que pretende responder quem são os trabalhadores brasileiros hoje e o que fazem para conseguir ou manter seus empregos.

O estudo aborda ainda quais as alternativas para sindicatos, governos e empresas combaterem o desemprego aberto - pessoas em busca de qualquer ocupação. No mês de março na Região Metropolitana do Recife, segundo o IBGE, este segmento atingiu a casa dos 8,76%. No Brasil, o índice ficou em 8,18%.

As primeiras considerações e, talvez, a principal delas, segundo a coordenadora do estudo, Sônia Gonzaga, é a convivência do "novo" e do "velho" trabalhador nos diversos setores da economia no País. Situação, esta, que pode parecer estranha, já que a internacionalização da economia requer profissionais mais qualificados e especializados.

"Temos de tudo no Brasil, diferentemente de outros países", disse Sônia. Segundo ela, existem programas na área de recursos humanos desenvolvidos pelas empresas com características modernas, tanto quanto ultrapassadas. Assim como profissionais qualificados - o que representa em torno de 20% da População Economicamente Ativa (PEA) - , porém , outros , os denominados pelo estudo de "velhos trabalhadores" , que correspondem a cerca de 80% da PEA. "Isso demonstra o quanto temos que avançar no campo da educação básica".

Os chamados "velhos" são geralmente profissionais semi- alfabetizados, migrantes (aqueles que se deslocam de suas cidades origens em busca de emprego). A maioria trabalha em setores considerados tradicionais da economia, como o da construção civil. Já os considerados "novos" se caracterizam por apresentar uma escolaridade em média até o 2º grau (educação básica). Eles devem possuir domínio de informática, incluindo computador e programas, além de conhecimento de uma língua estrangeira.

Para quem está dentro ou fora do mercado de trabalho, essas são "condicões sine qua non" para o ingresso, ou mesmo, a manutenção de seu emprego, diz o estudo do Dieese. "Hoje, a formação profissional é um condicionante para empregabilidade e a entrada no mercado de trabalho", disse Sônia.

Segundo o estudo, na última década, as empresas brasileiras passaram a ter gestões diversificadas quase que personalizadas na suas linhas de produção. Um torneiro mecânico, hoje, tem que estar preparado para trabalhar com um torno alfa-númerico (sistema informatizado). Ou seja, isso quer dizer que a produção passou de perfil de massa - relativo ao esforço físico - para ser uma produção diversificada - utilizando a tecnologia da informação.

"Mas, se qualificação e formação profissional bastasse para um desempregado ingressar no mercado de trabalho, a questão estaria, em parte, resolvida. No entanto, aponta o estudo, a política de geração de emprego no Brasil ainda está aquém da realidade. Calculam-se que no país existem mais de 6,5 milhões de brasileiros desempregados. E o que fazer com os trabalhadores sem ocupação?

A professora Tereza Nunes, vice-presidente do conseho consultivo da Associação Brasileira de Recursos Humanos concorda com a necessidade de se criar alternativas para incorporar esta massa de trabalhadores "velhos" à riqueza geral que a sociedade produz. "O grande valor de produção está no ser humano, seja de que nível for. Há que se encontrar caminhos além do avanço tecnológico e do lucro. É preciso investir em atividades básicas, como agricultura, e construção civil", diz.


     

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