Democracia e ParlamentoNem sempre é fácil
convencer o homem comum, pleno
às vezes de bom senso mas sem
maiores conhecimentos da
História, de que o Parlamento é
uma das maiores conquistas da
humanidade, tão essencial à
democracia quanto um Judiciário
independente. Sem essas
instituições funcionando, os
governantes podem exercer à
vontade suas tendências
absolutistas - mesmo os que não
pertencem a monarquias
hereditárias.
Aos
representantes do povo, porém,
cabe manter continuadamente uma
conduta, individual e coletiva,
que justifique sua existência
como conveniente e necessária
aos interesses da população.
Tanto a nível federal quanto
estadual e municipal. Não é por
outro motivo que os deputados
federais, mesmo sem serem anjos,
sentem-se às vezes obrigados
moralmente a cassar mandato por
"falta de decoro
parlamentar", como aconteceu
ainda recentemente, depois que um
deles apareceu na televisão
afirmando que se aproveita do
mandato para falsificar
assinaturas, importar
equipamentos proibidos e enganar
os clientes de sua construtora.
Outras medidas
moralizadoras são mais difíceis
de praticar. Foram precisos 34
anos de cerradas críticas pela
imprensa, para que pudesse ser
extinto o absurdo Instituto de
Previdência dos Congressistas,
que premiava com polpudas
aposentadorias deputados com oito
anos de serviço, enquanto o
trabalhador em geral precisa
trabalhar trinta e cinco anos
para obter um benefício dezenas
de vezes mais modesto. A nível
estadual, a regalia durou menos,
com a extinção há sete anos de
algo semelhante, que tinha a
alcunha de FEPPA. A satisfação
dada aos eleitores, nesses casos,
deveria servir de modelo aos
colegiados legislativos do Estado
e de todo o país. Mas não
sensibilizou, por exemplo, os
vereadores da cidade pernambucana
de Belo Jardim, que às
escondidas chegaram a votar em
causa própria a criação de uma
"pensão" para os
ex-edis a partir de doze anos de
mandato, independentemente de
qualquer contribuição anterior.
A Prefeitura é que deveria pagar
a conta total, segundo denunciou
na época o prefeito. Foi
necessário impetrar uma ação
popular, para que a Justiça
amainasse o desejo de vantagens
dos vereadores daquela cidade.
Agora, enquanto
quase todos os servidores do
Executivo passam um momento
inusitado de crise, sem aumentos
há quatro anos e sem abertura de
novas vagas mesmo para o lugar
dos que se vão aposentando,
descobre-se que na Câmara
Municipal de Jaboatão dos
Guararapes cada um dos vereadores
tem, em média, 63 servidores à
sua disposição, pagos com
dinheiro público para ajudá-los
na reeleição. Esse empreguismo
irresponsável resulta da
abertura, nos últimos oito anos,
de 823 cargos comissionados. E o
pior é que alguns edis do
município vizinho ainda
justificam o absurdo, dizendo que
precisam manter obras sociais
"em benefício do
povo". Estas, que são
obrigação constitucional do
prefeito, servem - em Jaboatão e
em vários outros municípios -
como escritórios eleitorais
pagos com o dinheiro arrecadado
dos cidadãos. Ironicamente,
entre os financiadores da mamata
estão aqueles que dizem não
gostar de política e, por isso,
preferem anular o voto (ou votar
em branco), em vez de escolher
candidatos respeitáveis que não
compactuem com esse tipo de
ação.
As chamadas
"obras sociais"
mantidas com dinheiro público e
manipuladas por vereadores
deveriam ser combatidas, em
Jaboatão dos Guararapes ou em
outro qualquer município, seja o
do Recife, em que cada um dos
edis dispõe de 29
"assessores", o de
Olinda (13 integrantes de cada
gabinete), ou até mesmo o de
Caruaru, com apenas quatro. Mas,
o exagero em Jaboatão dos
Guararapes chega a ser
escandaloso. Afinal, um vereador
é eleito, presumivelmente, para
votar as leis de interesse do
município, fiscalizar a ação
executiva dos prefeitos e servir
de porta-voz dos eleitores junto
ao Executivo municipal. Deveria
saber redigir, tanto os textos
legais quanto os próprios
discursos, e atender pessoalmente
aos que os procuram. É
aceitável que tenham um local
para trabalhar na própria
Câmara Municipal, e disponham de
uma secretária, de um auxiliar.
O que não lhes cabe é mandar
instalar centros de atendimento a
eleitores fora do local de
trabalho, com equipes de
auxiliares pagas pelo povo.
Nunca é demais
"combater o bom
combate". E isso acontece
todas as vezes em que falamos
contra o abuso dos cargos em
comissão, tornado um instrumento
matreiro para burlar o rigor
constitucional que proíbe a
contratação de funcionários
sem concurso. A definição do
que vem a ser "cargo de
confiança" ficando ao bel
prazer dos políticos, levou a
uma situação de descontrole
tão grande, que não se sabe
sequer quantos estão assim
enquadrados. Fala-se em mais de 8
mil comissionados, somente no
governo de Pernambuco, o que
redunda em prejuízo para outros
tantos funcionários de carreira
que poderiam ocupar a mesma
função com uma gratificação
adicional, ou dos que operam a
abertura de concurso para o setor
público. E para o conjunto dos
servidores, que aguarda
indefinidamente um aumento. Mas
aquele número não parece tão
exagerado, quando comparado com
as 1.322 pessoas oficialmente a
serviço da Câmara de Vereadores
de Jaboatão.
A cidade
vizinha, que leva em seu nome uma
referência aos Guararapes, campo
de lutas gloriosas que nos
ajudaram a ser uma pátria, não
merece aparecer nas manchetes dos
jornais como palco desse
verdadeiro saque político.