SAÚDE
A
polêmica da vitamina Cpor ANTÔNIO MARINHO
E
CÁSSIA MARIA RODRIGUES
Agência Globo
A vitamina C
(também chamada de ácido
ascórbico) faz mal a saúde?
Até então a maioria dos
médicos recomendava a vitamina C
como a melhor arma contra os
efeitos nocivos do envelhecimento
precoce e do estresse. Na semana
passada, porém, o pesquisador
Joseph Lunec, da Universidade de
Leicester, na Inglaterra,
publicou um estudo na respeitada
revista britânica Nature,
alertando que o hábito de
consumir mais de 60 miligramas
diárias poderia ser prejudicial
à saúde. O organismo absorveria
apenas 60 miligramas e o excesso
causaria mutações genéticas,
algumas associadas ao
desenvolvimento de doenças como
câncer e artrite reumatóide.
O artigo deixou
um rastro de polêmicas nos meios
científicos. Médicos que, antes
da pesquisa, recomendavam altas
doses diárias de vitamina C
reagiram, classificando o estudo
como insuficiente. Foi o caso dos
americanos William Castelli e
Ronald Klatz. Mas, a maioria
apóia a decisão da
Organização Mundial de Saúde:
doses diárias até 60 miligramas
diárias não fazem mal à
saúde. E houve também quem
apoiasse Lunec, como Frank Kelly,
chefe da equipe de pesquisadores
do Rayne Institute, do St Thomas
Hospital, de Londres.
"Joseph Lunec foi mal
interpretado", diz Kelly.
"Ele nunca disse que
vitamina C causa câncer. Não
há provas científicas disso. O
que se discute é só a dose mais
eficiente contra o
estresse", afirma o
pesquisador.
Por conta da
polêmica, outros pesquisadores
resolveram apressar a
publicação de seus trabalhos
sobre vitamina C. No próximo
mês, Andrew Genner, do Grupo de
Farmacologia do Kings College
(Universidade de Londres),
divulga resultados de nova
pesquisa. "Estamos
trabalhando com as mesmas
técnicas usadas pelo grupo de
Lunec, mas isso não significa
que chegaremos às mesmas
conclusões", avisa Genner.
HISTÓRIA
- O grande defensor da
vitamina C foi o cientista Linus
Pauling, vencedor do prêmio
Nobel. Ele receitava doses
diárias de 3,2a 12 gramas (o que
corresponde a consumir de 45 a
170 laranjas) e sempre afirmou
que esta vitamina protegia contra
resfriados e câncer. O cientista
também garantia que esta dosagem
aumentaria a expectativa de vida
em mais de 12 anos. Pauling,
porém, apesar de seguir sua
própria receita, morreu de
câncer. É verdade que aos 93
anos...
De acordo com
as pesquisas de Linus Pauling, o
ácido ascórbico, encontrado
principalmente em frutas
cítricas e vegetais verdes, age
como um antioxidante. Isto
significa dizer que a vitamina C
fortalece o sistema imunológico,
protegendo as células do ataque
dos radicais livres (moléculas
nocivas à saúde, provenientes
de reações no interior das
próprias células). Além disto,
a vitamina C é essencial para a
formação de colágeno (fibras
de proteínas que mantêm as
células unidas e formam tecidos
conjuntivos).
O estudo de
Lunec, porém, questiona a ação
antioxidante da vitamina C, se
consumida em doses diárias
superiores a 60 miligramas, e
demonstra que as doses corretas
de vitaminas estão longe de ser
consenso. Para retardar o
envelhecimento celular, o
bioquímico Bruce Ames, da
Universidade da Califórnia
(EUA), receita 250 miligramas
diárias de vitamina C, somadas a
400 UI de vitamina E e a 15
miligramas de betacaroteno.
Ames, como
William Castelli, responsável
pelo famoso Framingham Heart
Study, condena o estudo de Lunec.
"O estudo de Lunec não me
convence. Continuo a recomendar
doses diárias de 500 miligramas
de vitamina C, somadas a 400 UI
de vitamina E e um miligrama de
ácido fólico", diz
Castelli. Ronald Klatz, da
American Academy of Anti-Aging
Medicine, concorda. "Minha
receita antiestresse continua a
mesma: doses diárias entre 2 a
12 gramas de vitamina C, 800 UI
de vitamina E, 15 miligramas de
betacaroteno e 200 microgramas de
selênio".
DOSE
RECOMENDADA - De acordo
com o Conselho Nacional de
Pesquisas nos Estados Unidos, a
dose diária de vitamina C deve
ser de 60 miligramas. Mas, o
conselho recomenda aos fumantes
aumentar a ingestão diária para
100 miligramas. O pesquisador
americano Sheldon Saul Hendler,
doutor em bioquímica na
Universidade de Columbia e
professor da Universidade de San
Diego (EUA) credita que aumenta a
polêmica dizendo que a dose
ideal muda de um indivíduo para
outro.
"A
necessidade de ácido ascórbico
varia de pessoa para pessoa. A
exposição do organismo ao
cigarro, aos poluentes urbanos, a
medicamentos e ao estresse exigem
maior quantidade diária de
vitamina C", diz Hendler,
autor de A enciclopédia de
vitaminas e minerais (Editora
Campus). Segundo Hendler, outro
dado fundamental é o período de
tempo em que os suplementos de
vitamina C são consumidos.
"Apesar de
muitas pessoas suportarem altas
doses de ácido ascórbico por
longos períodos, não se pode
afirmar que tais doses sejam
seguras se consumidas diariamente
por mais de dois meses seguidos.
Depois deste período de tempo, o
organismo se torna vulnerável.
Há casos de pessoas idosas que,
depois deste tempo, apresentaram
sintomas de gota e cálculo
renal", alerta Hendler.
De acordo com o
bioquímico americano, há,
também, estudos que indicam
necessidades diferentes de acordo
com a idade. Adultos e crianças
acima de dez anos podem se
beneficiar com doses diárias de
vitamina C de 250 miligramas a um
grama. Crianças abaixo de dez
anos devem usar diariamente 50 a
100 miligramas. O ácido
ascórbico será mais bem
aproveitado pelo organismo se for
ingerido em várias doses, de
preferência durante as
refeições ou num intervalo
mínimo de três horas entre uma
dose e outra.
Já a americana
Judith Hallfrisch, do National
Institute of Health (NIH), em
Washington (EUA), garante que o
ácido ascórbico atua como um
protetor do HDL (fração boa do
colesterol), desde que associado
a outras vitaminas, sobretudo a
vitamina E. "A associação
de vitaminas C e E impede a
formação de LDL (fração do
colesterol que destrói artérias
e causa infarto). Pessoas que
tomam 180 miligramas de vitamina
C por dia apresentam 11% a mais
de HDL (o bom colesterol) no
sangue", diz Judith.
FERTILIDADE
- Além de proteger de
doenças cardiovasculares, doses
certas de vitamina C têm efeitos
benéficos no aumento da
fertilidade masculina. Pesquisas
indicam que o uso diário desta
vitamina renova o esperma,
aumentando sua agilidade. Homens
com níveis de aglutinação de
esperma acima de 25% não podem
ter filhos. Para testar a
eficácia da vitamina C, o
médico William Harris, professor
da Universidade do Texas (EUA),
receitou 1 grama por dia de
vitamina C, durante 60 dias, para
homens com problema de
fertilidade. No final da
experiência, verificou que a
contagem de espermatozóides
subiu 69% e o esperma ficou 30%
mais ágil.
Outro estudo da
Universidade da Califórnia
também confirma que a vitamina C
renova o esperma. Mas não são
apenas os homens que se
beneficiam dos efeitos da
vitamina C. Um estudo do
Instituto Nacional do Câncer do
Canadá, revela que o ácido
ascórbico é um excelente aliado
contra o câncer de mama. Para o
médico Francisco Silveira,
presidente da Sociedade de
Medicina Biomolecular do Estado
do Rio de Janeiro, a vitamina C
protege contra os efeitos do
estresse. "O excesso de
vitamina C é nocivo à saúde,
mas só quando usada
isoladamente. Se for associada à
vitamina E, o ácido ascórbico
é benéfico. A dose diária de
500 mg deve ser usada por
estressados. Mas é preciso saber
a história clínica e examinar
as deficiências nutricionais do
paciente. A dose varia
individualmente", diz.