- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 29 de abril de 1998

MERCADO DE TRABALHO VI

"Vai faltar gente para preencher vagas"

por ROBERTA RÊGO
roberta@jc.com.br

Uma evolução rápida como a que ocorre com a tecnologia não poderia ser levada adiante por um quadro imutável de profissionais. Nesse mercado, algumas funções surgiram, outras morreram. Outras não chegaram a tanto, mas seu valor de mercado ficou instável como uma ação na bolsa de valores. É o caso dos antes bem cotadíssimos digitadores, que hoje sofrem séria ameaça de extinção. "A automação, a leitura ótica e o código de barras acabaram com a necessidade de existir esse profissional", explica José Antônio Monteiro de Queiroz, professor do Departamento de Informática (DI) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Ele vai mais longe. Diz que ainda há espaço para analistas de sistemas e programadores, mas elas não devem ser encaradas como atividades-fim. "Eu recomendaria a uma pessoa que buscasse uma formação assim, mas como um passo para alcançar outro objetivo", reflete. Mas nem tudo é pessimismo. Dentro de alguns anos, faltará gente para preencher todas as vagas que o mercado de informática vai exigir. A previsão é de Cláudio Marinho, diretor do Centro de Tecnologia de Software para Exportação do Recife (Softex Recife). "Não digo isso apenas sob a ótica do otimismo. Me baseio em informações concretas", decreta.

Para Marinho, a Internet é a área que representa o maior número de mudanças no futuro. De acordo com ele, desde que a rede mundial de computadores surgiu, começaram a aparecer novas empresas e profissões. "Fazendo uma conta rápida, identificamos no Estado 40 provedores públicos, ligados ao Instituto de Tecnologia de Pernambuco (Itep), e 23 comerciais", relata. Marinho acrescenta que cada provedor desses envolve, pelo menos, cinco pessoas em sua manutenção. "São 600 novos empregos gerados nos últimos anos", conclui.

Boa parte dessas vagas estão sendo ocupadas pelos webdesigners, profissionais responsáveis pelo visual e execução de um site. A função deles nasceu em meados de 1993 e, apesar de ainda não ser registrada pelo Ministério do Trabalho, deve permanecer bem cotada durante os próximos anos. Para se tornar um designer especializado em WWW, o único caminho oficial disponível é o curso de Desenho Industrial/Programação Visual da UFPE, considerado um dos melhores do País. "Na Internet, tudo é sedução. Sem um bom designer, a página não tem futuro", apregoa Fred Siqueira, webdesigner do Centro de Sistemas Avançados do Recife (Cesar) e do Projeto Gênesis, ambos ligados à UFPE. Calcular a quantidade desses profissionais atuando no mercado é quase impossível, já que não há sindicatos ou organizações do gênero. Eles não revelam o valor do trabalho, mas não cobram menos de mil reais por uma home page simples.

Marinho acredita que o processo de mudanças está apenas começando. "Ainda vão surgir muito mais profissões. A Internet de hoje é completamente diferente da que teremos daqui a dez anos", ressalta. Para ele, entre as atividades que não conseguirão formar pessoal a contento estão, além do webdesigner, o desenvolvedor de software e o administrador de bancos de dados.

Mas o mercado já está indo muito bem, obrigado. No ano passado, o Softex detectou que, das 300 empresas da área de software e prestação de serviços de informática, 222 tiveram algum faturamento. "Considerando uma média de dez pessoas por empresa, temos 3.000 pessoas diretamente vinculadas com informática no Estado", calcula. E o melhor é que boa parte dessas pessoas já superou as dificuldades iniciais de implementação de uma empresa e já consegue até registrar algum lucro.

No reino da tecnologia, as voltas que o mundo dá geram situações extremanente irônicas. É como o que está acontecendo agora com os programadores que dominavam linguagens antigas, como o Cobol. Se algum deles estava pensando em pendurar as chuteiras, foi como ganhar um prêmio milionário.

A proximidade do ano 2000 trouxe consigo um gigantesco bug: os computadores - salvo os Macintoshes e os modelos mais recentes de PC - não vão conseguir entender que o ano 00 significa 2000, e não 1000. Conclusão: pane geral em bancos, lares, empresas e qualquer tipo de instituição que use micros. Ou não. É exatamente aí que entram em cena os especialistas em Cobol. Só eles serão capazes de alterar a programação e reverter o terrível quadro. Ou seja: estão bem cotadíssimos no mercado outra vez!


 

 

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