-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 02 de maio de 1998

PROVA DE FOGO
Unidade européia ganha consistência com o Euro

por GILLES LAPOUGE
Agência Estado

PARIS - A moeda comum européia - o euro - foi oficialmente lançada em Bruxelas ontem e neste sábado, 2 de maio. Este fim de semana marcará portanto o lançamento do míssil que deverá colocar em órbita a Europa unida.

Este momento representa o coroamento de meio século de esforços. Primeiro esboço: a Comunidade Européia do Carvão e do Aço (ECSC - que compreendia a Alemanha, França e Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo). Daí por diante, o edifício se ergueu e foi se ampliando com o tempo. Não vamos citar todas as etapas. A última, em 1992, foi a do "mercado único", apresentado então como um "Big Bang" ensurdecedor.

Mas esse Big Bang foi na realidade um petardo molhado, porque em 1992 a Europa estava em plena crise e o "mercado único" não podia concretizar-se por não possuir uma moeda única. O verdadeiro Big Bang portanto tem lugar neste início de maio, que verá o nascimento do mercado único numa Europa finalmente liberta da crise.

Em Bruxelas será estabelecida a lista dos onze paises admitidos ao euro: Áustria, Bélgica, Alemanha, Espanha, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda e Portugal. Um país foi rebaixado porque seus desempenhos econômicos são fracos. Três países não quiseram embarcar no trem: Inglaterra, Dinamarca e Suécia.

A mesma reunião de Bruxelas deverá designar os diretores do futuro Banco Central Europeu (BCE) que irá dirigir o euro. Neste ponto, trava-se uma batalha - de triste augúrio - entre o candidato da França, Jean Claude Trichet, e o holandês Wim Duisenberg, apoiado pela Alemanha.

As próximas etapas institucionais são estas: em 1º de janeiro de 1999, o atual Instituto Monetário Europeu desaparecerá para dar lugar ao BCE que regerá a política monetária do euro. No dia 1º de janeiro de 2002, o euro começará a substituir as unidades monetárias nacionais. No dia 1º julho de 2002, as moedas nacionais serão definitivamente extintas.

Concretamente, em termos de vida cotidiana, o que irá acontecer? As pessoas comuns terão ainda um pouco de tempo para treinar a ginástica do euro. A mudança das operações interbancárias e dos ativos dos Estados na Europa, no dia 1 de janeiro de 1999, não transtornará a vida dos particulares. Em compensação, a partir de 4 de janeiro de 1999, com a reabertura da Bolsa, aparecerão as primeiras mudanças, mas as cotações serão expressas na moeda comum (o euro) e não mais nas moedas nacionais.

A partir de então, a máquina será acionada: de 1999 em diante, será possível calcular seus impostos quer em francos, quer em euros. Para os assalariados, a folha de pagamentos continuará redigida em moedas nacionais, mas as empresas inscreverão pouco a pouco o valor equivalente em euros. Valerá o mesmo processo para os extratos bancários. A partir de 1999, se poderá exigir talões de cheques expressos em euros.

E será preciso esperar o fim do período de transição, ou seja 2002, para pagar sua refeição ou seu maço de cigarros com moedas de euro. A começar de agora, algumas redes de grandes lojas praticam a dupla fixação de preços, embora seja ainda teórica, a fim de habituar os clientes a estas conversões.

Além destes efeitos cotidianos, a verdadeira questão é a de avaliar as vantagens que as economias podem esperar disso. A ambição é clara: constituir a Europa como um terceiro bloco, capaz de fazer frente aos dois outros grandes blocos, o Japão e os Estados Unidos. No papel, a prova é viável. A população dos Estados Unidos é de 271 milhões de habitantes e o PIB é de 165.880 de francos. A Europa conta com 291 milhões de habitantes, cujo PIB é de 141.841 francos. O Japão tem 125 milhões de habitantes e um PIB per capita de 220,080 francos. O crescimento da Europa será de 3% em 1998. O dos Estados Unidos de 2,7% e o do Japão deverá ser negativo, - 0,3%. Outro elemento significativo: Os Estados Unidos detêm 19,6% do intercâmbio comercial mundial. A Europa, 20,9%.

Mas, somar as rendas, o intercâmbio comercial, os produtos, não quer dizer muita coisa: o essencial é saber se o euro irá fazer da Europa uma verdadeira unidade econômica, tão coerente, tão sólida e integrada como seus dois rivais. Esta é uma das incertezas: a Europa será um imenso mercado de "livre intercâmbio" ou, ao contrário, um "mercado único". A União Européia não tem absolutamente a ambição de ser uma espécie de NAFTA (zona de livre comércio que une Estados Unidos, Canadá e México). A União Européia toma antes por modelo o mercado norte-americano.

 
 
 

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