-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 02 de maio de 1998


LANCE LIVRE
Fernando Menezes

Por baixo da derrota

A derrota para a Argentina me incomoda muito pouco. Perder ou ganhar, e sobretudo o empate, conforme demonstra o rigoroso equilíbrio na história das duas seleções (30 vitórias argentinas contra 29 nossas e 25 empates), são resultados normais. Portanto, o espanto da imprensa francesa, é pura jogada de marketing da Copa ou completa ignorância. Comparar a derrota do Brasil, quarta-feira, com a catástrofe de 1950, quando perdemos a final da Copa para o Uruguai, é demais. O que incomoda, e mais do que isso, assusta, é a falta de preparo técnico. Não temos uma seleção como time, mas um amontoado de bons, e um alguns casos, excelentes jogadores. Sem esquema de jogo, sem o menor treinamento. Estamos habituados a ganhar graças ao brilho individual, e o que é mais grave, isolado, de um jogador. Não temos jogadas, exceto o excesso de Roberto Carlos, pelo lado esquerdo ou, quando uma chama o ilumina, já que é limitadíssimo, Cafu, pelo lado direito. O time de Passarela não é nem de longe, a imagem do talento do futebol argentino, mas tem esquema de jogo. Para agravar nossa situação, faz tempo que não vejo tanta invenção em futebol, ou quem sabe, tanta alienação, ou mais ainda, tanta má vontade e também, medo de afrontar os fatos. O que vimos foi Zagalo substituir Raí que, se não brilhou, ao menos no segundo tempo, procurou se aproximar dos dois atacantes, por um canhoto, fora de forma e sem inspirações, Leonardo. Depois, sem coragem de sacar Romário, que mal andava em campo, escondido e sem participação, tirou Denílson, este sim, prejudicado na Seleção. Ele não sabe fazer o que Zagalo quer, ele arrebenta no São Paulo, quase como um ponteiro, voltando pouco, só para buscar espaço, não para marcar, que é contrário à natureza dele. Nossos dois atacantes não marcam e o que é pior, pelo menos quarta-feira, não se mexeram, deixaram-se marcar pacificamente. A lentidão da saída de bola, isso sim, é nossa maior desgraça. Quando Rivaldo voltar, infelizmente, será o equívoco de sempre, jogando pelo lado direito. Enfim, temos um só jogador, que depende de Roberto Carlos e raramente de Cafu. É muito pouco. Restam vinte dias de treinos, que eu usaria basicamente em coletivos. Para encerrar, o que me assusta não é ter perdido da Argentina, mas como perdemos!

E-mail: fmenezes@jc.com.br

 
 

 

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