- - - -- - - - - - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 30 de abril de 1998

CAPRI II
Local foi base política do império romano

Ninguém imaginava que uma porção "revoltada" de 11 quilômetros quadrados de rocha que se separou da península sorrentina, há milhões de anos, e deslocou-se 5 quilômetros mar adentro, iria se tornar um lugar tão charmoso. Nem os fenícios, que usaram a ilha para suas escalas comerciais, nem os gregos, que a transformaram numa colônia, no auge da cultura helênica.

Talvez os romanos - que a "redescobriram" e foram responsáveis pelo primeiro surto de desenvolvimento, entre 29 a.C. e 37 d.C. - já desconfiassem que aquela não era uma ilha à-toa. Capri chegou a ser o centro político do império romano, quando Tibério adotou o local para passar os seus últimos anos como imperador. Seu meio de comunicação mais rápido com o continente era a Torre de Faro, que emitia sinais de fumaça ou de fogo. Um terremoto derrubou o monumento alguns anos depois de sua morte. No século 17, ele foi reconstruído para servir de sinalização aos barcos. Provavelmente, o seu guia improvisado vai lhe mostrar as ruínas, que ainda estão lá, embora esteja desativado.

Foi no século passado que Capri finalmente transformou-se em destino turístico internacional. O médico e escritor sueco Axel Munthe foi seduzido pelo que chamou de "clima onírico" do lugar e lá mesmo ficou, tratando de difundir a ilha como balneário perfeito em seu país. Sua casa, chamada de Vila de San Miguel, é, hoje, mantida pelo governo sueco para servir de local de intercâmbio entre a elite cultural de seu país e a italiana. Ela é, também, ponto de visitação turística de Capri.

Alguns milionários americanos seguiram os passos de Munthe e têm suas mansões charmosamente instaladas na beira de penhascos, dezenas de metros acima do quebrar das ondas. Eles foram atraídos, sobretudo, por artistas famosos dos anos 50 e 60, que elegeram os 17 quilômetros de praia de Capri para bronzear seus corpos.

MOVIMENTO - Esse intenso movimento, até então estranho para o seu guia-ilhéu e para a maioria dos outros 11.999 capriotas, acabou dando ao acanhado comércio local um nível invejável, comparado a outros centros comerciais italianos. Lojinhas apertadas em ruas mais apertadas ainda vendem grifes famosas. Vocês provavelmente vão almoçar num dos inúmeros restaurantes, bares e fast foods da região e ouvirá falar de boates que atendem todos os gostos e transbordam de turistas, principalmente no verão.

A essa altura, você já vai estar entendendo porque os turistas são tão bem tratados pelos habitantes. São eles os principais responsáveis pelo nível de desenvolvimento que a ilha apresenta. Esse progresso, por exemplo, facilitou a ida de Anacapri (cidade mais residencial e montanhosa e menos movimentada) de Capri (a capital, mais litorânea e central). Para os turistas em geral, pouco interessa esse detalhe. Assim como Olinda e Recife, ambas são como duas lindas irmãs siamesas dispostas a seduzir o turista.

Antes, o único acesso por terra até Anacapri era feito através de uma escadaria de 800 degraus, construída pelos fenícios, e dos quais só restam 159. Hoje, os visitantes chegam até lá por uma vertiginosa estrada que é a diversão dos motoristas de táxis e dos microônibus (a licença para circulação de veículos só é dada aos moradores). É que eles adoram olhar pelo retrovisor interno e ver o medo estampado na cara dos turistas com as manobras arriscadas beirando as encostas ou com as ultrapassagens de veículos em sentidos contrários nos trechos mais estreitos que parecem ter sido milimetricamente ensaiadas. (S.R.L.)


     

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