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ARTIGO
Números
do Trabalho
por JOÃO
CARLOS PAES MENDONÇA*
Olhar
relatórios de estatísticas é
uma atividade das mais
cansativas, mas que se torna
obrigatória quando se quer
conhecer com mais profundidade
algum assunto. Em geral, tais
relatórios são coletâneas de
tabelas impressas por computador,
colunas e mais colunas de
números arrumados segundo
conceitos e denominações
esotéricas. Os dados nunca
estão na ordem ou na forma como
precisamos, daí é necessário
"navegar" pelas
tabelas, procurando entre os
algarismos miúdos aqueles que
nos interessam e torcendo para
não nos perdermos no meio do
caminho.
Porém, se não
sabemos os números, podemos
estar sendo enganados, ou, pior
do que isso, podemos estar tendo
uma visão distorcida da
realidade.
Justamente por
causa disso é que, a propósito
da discussão que hoje se levanta
sobre o (des)emprego, dei-me ao
trabalho de consultar algumas
estatísticas recentes do IBGE,
mais especificamente a Pesquisa
Nacional por Amostragem de
Domicílio, PNAD, de 1996, sobre
Pernambuco.
Pude verificar
que numa população de 7.535.000
residentes, existem 3.097.790
pessoas com 10 anos e mais, 41%
da população, consideradas
"ocupadas", ou seja,
que trabalham em alguma atividade
remunerada ou em benefício
próprio. Desses, apenas 985,5
mil, 32% contribuem para a
previdência social, enquanto
2.112 mil não fazem
contribuições, incluindo-se aí
a grande maioria dos
trabalhadores rurais. Isso já
nos leva à constatação de que
existe algo de muito errado no
nosso sistema previdenciário,
portanto a reforma é
necessária.
Pode-se ver
também que a grande maioria dos
pernambucanos trabalha na
agricultura (32%) e nos setores
de comércio e serviços (33%),
enquanto a indústria de
transformação absorve apenas
8,4% das pessoas ocupadas.
Evidentemente, o setor industrial
é importantíssimo para o
desenvolvimento do Estado, como
de qualquer outra região
geográfica, inclusive porque
favorece o desenvolvimento de
outros setores que atuam como
satélites da indústria. Por
outro lado, impõe-se o fato de
que, do ponto de vista da
geração de empregos, a
indústria de transformação
exige uma altíssima relação
capital/trabalho, ou
investimento/emprego, que se
torna cada vez mais elevada dada
a evolução tecnológica.
Considerando
que o setor primário é e será
cada vez mais liberador de
mão-de-obra pouco qualificada, a
responsabilidade de abrir os
necessários novos postos de
trabalho vai para o comércio e
os serviços, como o turismo ou
atividades intensivas em
tecnologia, como as áreas
médica e de informática, além
de um vasto elenco de outras
atividades, que inclui
cabeleireiros, oficinas de todos
os tipos, serviços
administrativos e muitos outros.
Nesses setores, a relação do
emprego formal perde espaço para
o serviço autônomo ou a pequena
empresa, assim como a carteira
profissional e os encargos
sociais.
Os números
mostram que as políticas
voltadas para a redução do
desemprego terão que ir além
dos tradicionais estímulos à
indústria de transformação e
encararem de frente a mudança
que se processa no mercado de
trabalho. Em outras palavras,
não se trata só de criar
empregos formais e protegidos por
urna legislação trabalhista
velha de meio século, mas de
assegurar que o ambiente
sócio-econômico possibilite a
cada pessoa meios de descobrir
locais e formas de trabalhar para
o seu sustento.
Quando se
discute sobre horários de
trabalho, direitos trabalhistas,
benefícios sociais e coisas
assim, na verdade está se
tratando de temas que ainda
interessam ao grande número de
empregados, mas deixa-se de lado
as necessidades de muita gente
que trabalha ou quer trabalhar
por conta própria ou em
atividades não formais, e cuja
existência é desconhecida pela
CLT.
*João
Carlos Paes Mendonça é
presidente do Grupo Bompreço e
do Sistema Jornal do Commercio de
Comunicação
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