- -- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 02 de setembro de 1998


ARTIGO

Números do Trabalho

por JOÃO CARLOS PAES MENDONÇA*

Olhar relatórios de estatísticas é uma atividade das mais cansativas, mas que se torna obrigatória quando se quer conhecer com mais profundidade algum assunto. Em geral, tais relatórios são coletâneas de tabelas impressas por computador, colunas e mais colunas de números arrumados segundo conceitos e denominações esotéricas. Os dados nunca estão na ordem ou na forma como precisamos, daí é necessário "navegar" pelas tabelas, procurando entre os algarismos miúdos aqueles que nos interessam e torcendo para não nos perdermos no meio do caminho.

Porém, se não sabemos os números, podemos estar sendo enganados, ou, pior do que isso, podemos estar tendo uma visão distorcida da realidade.

Justamente por causa disso é que, a propósito da discussão que hoje se levanta sobre o (des)emprego, dei-me ao trabalho de consultar algumas estatísticas recentes do IBGE, mais especificamente a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio, PNAD, de 1996, sobre Pernambuco.

Pude verificar que numa população de 7.535.000 residentes, existem 3.097.790 pessoas com 10 anos e mais, 41% da população, consideradas "ocupadas", ou seja, que trabalham em alguma atividade remunerada ou em benefício próprio. Desses, apenas 985,5 mil, 32% contribuem para a previdência social, enquanto 2.112 mil não fazem contribuições, incluindo-se aí a grande maioria dos trabalhadores rurais. Isso já nos leva à constatação de que existe algo de muito errado no nosso sistema previdenciário, portanto a reforma é necessária.

Pode-se ver também que a grande maioria dos pernambucanos trabalha na agricultura (32%) e nos setores de comércio e serviços (33%), enquanto a indústria de transformação absorve apenas 8,4% das pessoas ocupadas. Evidentemente, o setor industrial é importantíssimo para o desenvolvimento do Estado, como de qualquer outra região geográfica, inclusive porque favorece o desenvolvimento de outros setores que atuam como satélites da indústria. Por outro lado, impõe-se o fato de que, do ponto de vista da geração de empregos, a indústria de transformação exige uma altíssima relação capital/trabalho, ou investimento/emprego, que se torna cada vez mais elevada dada a evolução tecnológica.

Considerando que o setor primário é e será cada vez mais liberador de mão-de-obra pouco qualificada, a responsabilidade de abrir os necessários novos postos de trabalho vai para o comércio e os serviços, como o turismo ou atividades intensivas em tecnologia, como as áreas médica e de informática, além de um vasto elenco de outras atividades, que inclui cabeleireiros, oficinas de todos os tipos, serviços administrativos e muitos outros. Nesses setores, a relação do emprego formal perde espaço para o serviço autônomo ou a pequena empresa, assim como a carteira profissional e os encargos sociais.

Os números mostram que as políticas voltadas para a redução do desemprego terão que ir além dos tradicionais estímulos à indústria de transformação e encararem de frente a mudança que se processa no mercado de trabalho. Em outras palavras, não se trata só de criar empregos formais e protegidos por urna legislação trabalhista velha de meio século, mas de assegurar que o ambiente sócio-econômico possibilite a cada pessoa meios de descobrir locais e formas de trabalhar para o seu sustento.

Quando se discute sobre horários de trabalho, direitos trabalhistas, benefícios sociais e coisas assim, na verdade está se tratando de temas que ainda interessam ao grande número de empregados, mas deixa-se de lado as necessidades de muita gente que trabalha ou quer trabalhar por conta própria ou em atividades não formais, e cuja existência é desconhecida pela CLT.

*João Carlos Paes Mendonça é presidente do Grupo Bompreço e do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação

 
 

 

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