VIOLÊNCIA III
Irmãs
violentadas deixam PernambucoO medo de viver tudo
novamente e o descrédito na
polícia obrigaram as irmãs
P.J.B., 16 anos, e A.C.B., 25, a
tomar uma decisão crucial:
deixar para trás tudo que
construíram até agora e
embarcar, hoje mesmo, para São
Paulo, onde vão tentar
recomeçar a vida e se recuperar
do trauma sofrido na madrugada de
anteontem. Elas, juntamente com a
prima, L.S.P., 18 anos, foram
estupradas de todas as formas,
durante mais de duas horas, por
um assaltante, dentro da casa
delas, no bairro de Maranguape I,
em Paulista. A dona de casa E.,
25 anos, também estava com elas,
mas não chegou a ser violentada
porque o assaltante não
conseguiu ter ereção. Tudo foi
presenciado pela mãe de A.C.B. e
P.J.B., Edleuza Barbosa.
Ontem, as
irmãs já estavam com quase
todas as malas prontas para a
viagem e com as passagens
compradas. "Não tem mais
volta. A polícia não teve aqui
sequer para pegar as impressões
digitais deixadas pelo homem,
quanto mais para nos dar
proteção. Direitos humanos só
existem para bandido. Gente de
bem tem que se esconder e é isso
que vamos fazer", disse
A.C.B.. Ela, inclusive, é a mais
revoltada com tudo que passou,
juntamente com a irmã, a prima e
a amiga. "Ele disse que se
alguém abrisse a boca voltaria
aqui e matava todo mundo. A gente
teve que levar P. para o hospital
e os vizinhos e a imprensa
terminaram sabendo de tudo. E
agora, como a gente fica?",
questionou.
Para A.C.B., a
única saída é esperar o tempo
passar e entregar tudo a Deus.
"Eu já entreguei. A
imprensa tem nos dado muito mais
assistência do que a polícia. O
jeito é ter consciência de que
aconteceu e pronto",
afirmou. Além de temer viver a
violência de novo, as vítimas
estão sendo obrigadas a conviver
com a possibilidade de terem sido
contaminadas por alguma doença,
principalmente a aids. "É o
maior problema. Eu mesmo não
tenho medo nem de gravidez nem de
qualquer doença venérea, mas
morro de medo de estar com
aids", disse A.C.B. Ela e a
irmã estão esperando passar o
prazo de 20 dias para fazer o
exame.
INVESTIGAÇÃO
- Apesar de ainda não ter se
dado ao trabalho de ir à casa
das vítimas, o delegado de
Paulista, Paulo Nogueira,
garantiu, ontem, que já iniciou
as investigações do caso, mas
que até agora não tem pistas do
estuprador.
Jornal do
Commercio - Como você está?
PJB -
Estou muito machucada e magoada.
Só estou conformada porque estou
viva e porque ele não mexeu com
meus irmãos e sobrinhos. Eu
quase não agüentei, imagina
essas crianças. Eles não iam
suportar. Estou me refazendo,
esperando o tempo passar, a dor
diminuir. Só peço a Deus
coragem e força para conseguir
continuar a vida. Fisicamente
estou péssima. Não consigo
andar direito e tenho muitas
dores.
JC - Como
foi o seu dia depois de tudo que
aconteceu?
PJB -
Horrível. Ele me machucou muito.
Essa noite eu não consegui
dormir direito. Nós dormimos na
casa de vizinhos, mas fiquei
acordando assustada toda hora,
lembrando de tudo. Também não
consigo comer, assim como minha
irmã. O que ele fez comigo e com
as outras foi muito feio. Espero
não ficar uma pessoa revoltada
para sempre. Quero que Deus me
ajude muito a superar isso tudo.
JC - Você
vai recomeçar sua vida?
PJB - Eu
sinto ter que ir para São Paulo
por causa do meu sonho, que é
cantar. Mas é o jeito. Eu vou,
mas pretendo voltar, independente
de tempo. Quero que essa dor que
eu estou sentindo, tanto por
dentro como por fora, passe.
Quero recomeçar a minha vida e
sei que vou conseguir, com a
ajuda de Deus.
JC - O que
você pensou em fazer depois que
tudo terminou?
PJB - Eu
quis morrer. Eu só pensava
nisso. Foi quando comecei a me
agarrar em Deus e mudei de
idéia. Eu sofri muito. Ele fez
sexo comigo de todas as formas,
pela frente, por trás, na boca,
de todo jeito. Eu me humilhei
muito. Cheguei a me ajoelhar,
pedindo que ele não fizesse
aquilo. Eu era virgem, mas não
teve jeito. Ele não respeitou.
Parecia que queria se vingar em
mim. Quando não conseguiu me
penetrar com o pênis, começou a
usar o dedo e depois a mão.
JC - Como
foi para você perder a
virgindade dessa forma?
PJB - Eu
tinha o sonho de um dia encontrar
uma pessoa especial, única, um
amor. Alguém que eu pudesse me
entregar para sempre. Por vontade
própria. Sempre tive cuidado
para que ninguém tocasse meu
corpo, querendo me guardar. Pior
do que ter perdido o sonho, foi
ser forçada a fazer tudo.
JC - Você
pensa em vingança?
PJB -
Até agora não. Quero apenas que
a polícia prenda ele para que
sofra muito. Quero que ele sofra
tanto quanto eu e minha família
estamos sofrendo.