- - - - -- - - - - - - -- - - - -- - - ---Jornal do Commercio - Recife, 02 de setembro de 1998

VIOLÊNCIA III
Irmãs violentadas deixam Pernambuco

O medo de viver tudo novamente e o descrédito na polícia obrigaram as irmãs P.J.B., 16 anos, e A.C.B., 25, a tomar uma decisão crucial: deixar para trás tudo que construíram até agora e embarcar, hoje mesmo, para São Paulo, onde vão tentar recomeçar a vida e se recuperar do trauma sofrido na madrugada de anteontem. Elas, juntamente com a prima, L.S.P., 18 anos, foram estupradas de todas as formas, durante mais de duas horas, por um assaltante, dentro da casa delas, no bairro de Maranguape I, em Paulista. A dona de casa E., 25 anos, também estava com elas, mas não chegou a ser violentada porque o assaltante não conseguiu ter ereção. Tudo foi presenciado pela mãe de A.C.B. e P.J.B., Edleuza Barbosa.

Ontem, as irmãs já estavam com quase todas as malas prontas para a viagem e com as passagens compradas. "Não tem mais volta. A polícia não teve aqui sequer para pegar as impressões digitais deixadas pelo homem, quanto mais para nos dar proteção. Direitos humanos só existem para bandido. Gente de bem tem que se esconder e é isso que vamos fazer", disse A.C.B.. Ela, inclusive, é a mais revoltada com tudo que passou, juntamente com a irmã, a prima e a amiga. "Ele disse que se alguém abrisse a boca voltaria aqui e matava todo mundo. A gente teve que levar P. para o hospital e os vizinhos e a imprensa terminaram sabendo de tudo. E agora, como a gente fica?", questionou.

Para A.C.B., a única saída é esperar o tempo passar e entregar tudo a Deus. "Eu já entreguei. A imprensa tem nos dado muito mais assistência do que a polícia. O jeito é ter consciência de que aconteceu e pronto", afirmou. Além de temer viver a violência de novo, as vítimas estão sendo obrigadas a conviver com a possibilidade de terem sido contaminadas por alguma doença, principalmente a aids. "É o maior problema. Eu mesmo não tenho medo nem de gravidez nem de qualquer doença venérea, mas morro de medo de estar com aids", disse A.C.B. Ela e a irmã estão esperando passar o prazo de 20 dias para fazer o exame.

INVESTIGAÇÃO - Apesar de ainda não ter se dado ao trabalho de ir à casa das vítimas, o delegado de Paulista, Paulo Nogueira, garantiu, ontem, que já iniciou as investigações do caso, mas que até agora não tem pistas do estuprador.

Jornal do Commercio - Como você está?

PJB - Estou muito machucada e magoada. Só estou conformada porque estou viva e porque ele não mexeu com meus irmãos e sobrinhos. Eu quase não agüentei, imagina essas crianças. Eles não iam suportar. Estou me refazendo, esperando o tempo passar, a dor diminuir. Só peço a Deus coragem e força para conseguir continuar a vida. Fisicamente estou péssima. Não consigo andar direito e tenho muitas dores.

JC - Como foi o seu dia depois de tudo que aconteceu?

PJB - Horrível. Ele me machucou muito. Essa noite eu não consegui dormir direito. Nós dormimos na casa de vizinhos, mas fiquei acordando assustada toda hora, lembrando de tudo. Também não consigo comer, assim como minha irmã. O que ele fez comigo e com as outras foi muito feio. Espero não ficar uma pessoa revoltada para sempre. Quero que Deus me ajude muito a superar isso tudo.

JC - Você vai recomeçar sua vida?

PJB - Eu sinto ter que ir para São Paulo por causa do meu sonho, que é cantar. Mas é o jeito. Eu vou, mas pretendo voltar, independente de tempo. Quero que essa dor que eu estou sentindo, tanto por dentro como por fora, passe. Quero recomeçar a minha vida e sei que vou conseguir, com a ajuda de Deus.

JC - O que você pensou em fazer depois que tudo terminou?

PJB - Eu quis morrer. Eu só pensava nisso. Foi quando comecei a me agarrar em Deus e mudei de idéia. Eu sofri muito. Ele fez sexo comigo de todas as formas, pela frente, por trás, na boca, de todo jeito. Eu me humilhei muito. Cheguei a me ajoelhar, pedindo que ele não fizesse aquilo. Eu era virgem, mas não teve jeito. Ele não respeitou. Parecia que queria se vingar em mim. Quando não conseguiu me penetrar com o pênis, começou a usar o dedo e depois a mão.

JC - Como foi para você perder a virgindade dessa forma?

PJB - Eu tinha o sonho de um dia encontrar uma pessoa especial, única, um amor. Alguém que eu pudesse me entregar para sempre. Por vontade própria. Sempre tive cuidado para que ninguém tocasse meu corpo, querendo me guardar. Pior do que ter perdido o sonho, foi ser forçada a fazer tudo.

JC - Você pensa em vingança?

PJB - Até agora não. Quero apenas que a polícia prenda ele para que sofra muito. Quero que ele sofra tanto quanto eu e minha família estamos sofrendo.


     

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