-- - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 02 de setembro de 1998

POLÍTICA ECONÔMICA
Mercado aguarda queda de juros hoje

BRASÍLIA - O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) deverá manter a trajetória de queda dos juros em reunião marcada para hoje, reduzindo a TBC (Taxa Básica do BC) de 19,75% para cerca de 19% anuais, segundo previsão do mercado financeiro.

A expectativa em torno da reunião do Copom desta vez é menor do que em meses passados, pois a TBC perdeu boa parte da importância que tinha para balizar os juros de toda a economia. "A importância da TBC é menor do que em abril", disse Odair Abate, economista-chefe do Lloyds Bank, lembrando que as taxas vêm sendo definidas nas operações compromissadas que o BC faz diariamente. "Mesmo assim, não deixa de ser um sinalizador sobre os juros".

O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega (Consultoria Tendências) aposta em um percentual entre 18,75% e 19,25%. Marcelo Allain (banco BMC) e Abate prevêem 19%, e Carlos Guzzo (Pontual) estima uma TBC entre 18,6% e 18,9%. Os analistas apostam em 19% justamente porque essa já é a taxa que o BC vem cobrando nos empréstimos diários de liquidez aos bancos por meio de operações compromissadas.

Nessas operações, os bancos vendem títulos públicos ao BC por um dia, com compromisso de recompra no dia seguinte. O BC retém os títulos e os bancos obtêm dinheiro para fechar o caixa. No dia seguinte, a operação é desfeita: o BC devolve o título e recebe o dinheiro de volta, acrescido dos juros. Até abril, a TBC tinha poder para influenciar os juros de toda a economia. Mas ela começou a perder força em maio, quando o Copom promoveu uma redução na taxa considerada exagerada pelo mercado.

Os analistas consideram remotas as chances de o governo promover no médio e longo prazos uma nova elevação nas taxas de juros, repetindo movimento de outubro do ano passado, no auge da crise asiática. "Isso só ocorreria em uma situação extrema, como uma fuga de US$ 10 bilhões em um ou dois dias", disse Guzzo. "Seria um tiro no pé, pois contaminaria o custo da dívida pública", disse Allain, lembrando que 58% da dívida interna tem juros pós-fixados.

A situação melhorou ontem no mercado financeiro nacional. A alta na Bolsa de Valores de Nova York, de 3,82% ontem, provocou uma forte recuperação na Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) e no mercado de títulos da dívida externa de países emergentes. Depois do tombo de 39,55% em agosto, a Bolsa de São Paulo subiu ontem 6,87%. As ordens de compra vieram de todos os lados e o volume negociado chegou a R$ 630,5 milhões, contra R$ 355,74 milhões ontem.

O primeiro dia do mês de setembro foi marcado pela saída de dólares do país no mercado de câmbio, mantendo a tendência de agosto. Somente hoje, o Brasil perdeu mais US$ 843 milhões, aproximadamente, até as 19h50. A perda de recursos estrangeiros só não foi maior hoje porque ingressaram no país cerca de US$ 250 milhões referentes à segunda parcela da empresa francesa Usinor para a compra da Acesita. O mês de agosto fechou com saídas líquidas de US$ 11,811 bilhões, segundo números do BC e dados do mercado financeiro.

Ontem, o governo adiou do próximo dia 9 para o dia 10 de novembro o leilão de privatização da Fepasa (Ferrovias Paulistas S.A.). O vice-presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), José Pio Borges, também admitiu que a crise pode afetar o ágio da Gerasul, cujo leilão está marcado para 14 deste mês.


     

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