ARTIGO
A
economia da maconhapor JOSÉ CARLOS
CAVALCANTI*
Uma
característica interessante do
guia eleitoral local é a
predominância daquela visão de
que Pernambuco tem uma coisa a
mais, e daquela visão de que o
Estado não vem tendo coisa
alguma. Ao observar estas duas
visões, lembrei-me de algo que
me ocorreu ao dar uma aula de
Introdução à Economia, e
procurarei associar tudo isto ao
que de fato Pernambuco tem. Um
estudante questionou o
significado da estrutura do
mercado da maconha.
Entendendo que
o ato de ensinar é também
aprender, prontamente respondi o
que sabia: por estrutura de
mercado se entende a dimensão da
distribuição das empresas que
nele atuam, o grau de
concentração destas empresas,
as suas barreiras à entrada e à
saída. O que não sabia era o
que representava de fato o
mercado do produto maconha, e, em
particular, o mercado da maconha
em Pernambuco, objeto mais
específico da questão do
estudante. O leitor pode indagar
se isto é coisa para se discutir
em aula. Minha resposta concreta
é um absoluto sim.
A questão
ficou em minha mente por algum
tempo, uma vez que não pude
respondê-la com precisão, mas
me comprometi a aprender sobre o
assunto para não ser pego de
surpresa no futuro. Neste último
fim-de-semana o Jornal do Brasil
(30/08/98) publicou uma matéria
(de página inteira)
interessante: "Chefões da
maconha dominam sertão".
Nela, o JB faz uma breve
descrição de como está
organizado o cultivo da erva no
interior de Pernambuco. A
matéria trouxe um mapa de
Pernambuco apontando o polígono
da maconha e detalhes de uma
entrevista com um dos chefes
regionais.
Grosso modo, a
matéria é instigante. Os
números apresentados são, dadas
as características da pesquisa
jornalística, incompletos mas
revelam a existência de uma
verdadeira economia da maconha,
para ir mais além do depoimento
do superintendente regional da
Polícia Federal (que afirmou na
matéria que "o cultivo da
maconha está dando lugar à
cultura da maconha").
As razões
apontadas pelo JB para
existência desta economia foram:
a) redução dos créditos
oficiais em Pernambuco ao
produtor rural para os produtos
tradicionais; b) baixa densidade
populacional no sertão, tornando
a região atraente ao plantio
ilegal; c) a abertura dos
mercados à importação de
produtos agrícolas inviabilizou
a produção local tradicional;
d) guerras entre famílias,
levando a um ambiente propício
à disseminação da violência
das quadrilhas de drogas.
Enfim, o que
gostaria de ter dito ao meu
estudante era que o mercado de
maconha existe quando, além de
existirem demandantes e
ofertantes, existem condições
gerais que favorecem a sua
emergência. E elas foram de
alguma forma descritas pela
matéria do JB. Em resumo, além
do modelo de economia popular,
apregoado como dinâmico, aqui em
Pernambuco tem mais: um mercado
de maconha que
"satisfaz" (pelo menos
aos titulares e leitores do JB).
* José
Carlos Cavalcanti é professor do
do Depto. de Economia da UFPE.
E-mail: jcc@decon.ufpe.br