-- - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 02 de setembro de 1998

ARTIGO
A economia da maconha

por JOSÉ CARLOS CAVALCANTI*

Uma característica interessante do guia eleitoral local é a predominância daquela visão de que Pernambuco tem uma coisa a mais, e daquela visão de que o Estado não vem tendo coisa alguma. Ao observar estas duas visões, lembrei-me de algo que me ocorreu ao dar uma aula de Introdução à Economia, e procurarei associar tudo isto ao que de fato Pernambuco tem. Um estudante questionou o significado da estrutura do mercado da maconha.

Entendendo que o ato de ensinar é também aprender, prontamente respondi o que sabia: por estrutura de mercado se entende a dimensão da distribuição das empresas que nele atuam, o grau de concentração destas empresas, as suas barreiras à entrada e à saída. O que não sabia era o que representava de fato o mercado do produto maconha, e, em particular, o mercado da maconha em Pernambuco, objeto mais específico da questão do estudante. O leitor pode indagar se isto é coisa para se discutir em aula. Minha resposta concreta é um absoluto sim.

A questão ficou em minha mente por algum tempo, uma vez que não pude respondê-la com precisão, mas me comprometi a aprender sobre o assunto para não ser pego de surpresa no futuro. Neste último fim-de-semana o Jornal do Brasil (30/08/98) publicou uma matéria (de página inteira) interessante: "Chefões da maconha dominam sertão". Nela, o JB faz uma breve descrição de como está organizado o cultivo da erva no interior de Pernambuco. A matéria trouxe um mapa de Pernambuco apontando o polígono da maconha e detalhes de uma entrevista com um dos chefes regionais.

Grosso modo, a matéria é instigante. Os números apresentados são, dadas as características da pesquisa jornalística, incompletos mas revelam a existência de uma verdadeira economia da maconha, para ir mais além do depoimento do superintendente regional da Polícia Federal (que afirmou na matéria que "o cultivo da maconha está dando lugar à cultura da maconha").

As razões apontadas pelo JB para existência desta economia foram: a) redução dos créditos oficiais em Pernambuco ao produtor rural para os produtos tradicionais; b) baixa densidade populacional no sertão, tornando a região atraente ao plantio ilegal; c) a abertura dos mercados à importação de produtos agrícolas inviabilizou a produção local tradicional; d) guerras entre famílias, levando a um ambiente propício à disseminação da violência das quadrilhas de drogas.

Enfim, o que gostaria de ter dito ao meu estudante era que o mercado de maconha existe quando, além de existirem demandantes e ofertantes, existem condições gerais que favorecem a sua emergência. E elas foram de alguma forma descritas pela matéria do JB. Em resumo, além do modelo de economia popular, apregoado como dinâmico, aqui em Pernambuco tem mais: um mercado de maconha que "satisfaz" (pelo menos aos titulares e leitores do JB).

* José Carlos Cavalcanti é professor do do Depto. de Economia da UFPE.

E-mail: jcc@decon.ufpe.br


     

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