Ordem e violênciaA notícia de que
novecentos policiais civis e
militares foram mobilizados para
reforçar a segurança pública
em Pernambuco (700 na região
metropolitana e 200 no sertão)
comporta duas conclusões. A
primeira, óbvia, é de que havia
uma deficiência alarmante nos
efetivos existentes em favor do
cidadão que vive nessas áreas,
ou que nelas se locomove. E a
segunda, a de que muitas vezes a
vontade política pode suprir de
forma conveniente as
deficiências dos meios materiais
e humanos à disposição dos
governantes.
O novo plano de
segurança pública anunciado no
dia 25 de agosto, e já posto em
prática - pelo menos na Região
Metropolitana do Recife - é de
uma simplicidade tão grande que
se poderia perguntar por que
demorou tanto a ser adotado: os
policiais já existentes passam a
trabalhar em dias de folga,
recebendo por isso diárias
extras, como forma de
complementação salarial. Não
importa nem um pouco à
comunidade se a idéia foi
copiada das propostas de um
candidato de oposição, ou se
estava elaborada há muito tempo
nos gabinetes governamentais,
como uma das alternativas
possíveis para frear a escalada
de violência que nos cerca.
Em meio ao
abundante noticiário de todos os
dias sobre crimes e violências
no Estado, foi noticiado em nosso
caderno "Cidades" que
uma escola da rede estadual de
ensino, no distrito de Prazeres,
em Jaboatão dos Guararapes, teve
que suspender o seu turno
noturno, prejudicando cerca de
quinhentos estudantes, por não
poder evitar as investidas de
assaltantes e traficantes de
drogas. É apenas um dos muitos
exemplos das conseqüências da
falta de policiamento até então
existente. O grau de ousadia dos
marginais não encontra paralelo
em nossa história, parecendo às
vezes cenas tiradas de certos
filmes.
No caso aqui
citado, uma "galera"
composta por cerca de 15 jovens
chegou a exigir "a posse da
escola durante o turno da
noite", o que talvez venha a
ser facilitado pelo fechamento do
turno a partir das 18 horas.
Esses marginais disseram
expressamente que pretendiam
utilizar o bem público para
vender e consumir maconha. E, de
acordo com as notícias colhidas
pela reportagem, junto à
própria diretora, já invadiram
as dependências do
estabelecimento, situado no Alto
dos Guararapes, para manter
relações sexuais com alunas.
Exagero? A população tem
razões para acreditar nessa
denúncia, depois de saber que
até em ônibus e kombis alguns
desajustados estupraram mulheres,
muitos deles impunemente.
A diretora do
estabelecimento disse ter enviado
ofícios pedindo segurança e
policiamento à Secretaria
Estadual de Educação, à
Polícia Militar e ao 6º BMP, em
Prazeres. Vale lembrar que, meses
atrás, o governo estadual
anunciou a contratação de
policiais inativos para atuarem
como guardas de segurança das
escolas estaduais. Mas, sem
dúvida, o número de
ex-policiais contratados foi
muito pequeno para o tamanho da
violência reinante. E o fato é
que foram mal distribuídos, a
julgar pelo número de escolas
que vêm ainda sendo atacadas
pelos marginais organizados em
galeras e pelo aumento da
depredação e do roubo de bens
dos educandários. Vivem com medo
os dirigentes, professores, pais
e estudantes.
Não é
principalmente nas escolas que
agem os marginais. Seria o caso
de dizer: agem até nas escolas.
O centro da cidade vem sendo
vítima diária de assaltos e
furtos, muitas vezes (mas, não
exclusivamente) por menores, os
chamados "cheira-cola"
financiados por marginais que
são, algumas vezes, seus
próprios parentes. Nas praças
da periferia, bandos são vistos
por todos e raramente molestados.
No sertão, já se transformaram
em rotina diária os assaltos a
ônibus e automóveis
particulares, para não falar dos
saques de mercadorias
transportadas em caminhões.
Mas, apesar de
serem as duas sub-regiões do
Estado as mais citadas no
noticiário jornalístico, é
preciso não esquecer que o crime
se expandiu em todos os
quadrantes de Pernambuco. Agora,
com a aproximação da época do
veraneio, é de esperar dos
setores ligados à segurança
pública que já tenham uma
estratégia especial de atuação
em toda a orla marítima, de
Olinda às praias de Goiana, ao
norte do Recife, e de Boa Viagem
a São José da Coroa Grande, na
direção sul. Em verões
passados (entre nós, a partir de
setembro) medraram os
"arrastões", copiados
do modelo existente no Rio de
Janeiro e divulgados à exaustão
pela TV como se fossem uma coisa
pitoresca. Seus componentes
"limpam" os banhistas,
apoderando-se de dinheiro,
cartões de crédito, talões de
cheques, jóias.
É lamentável
reconhecer que nosso Estado
alcançou o terceiro lugar em
estatísticas de violência, em
todo o país. Será muito bom se
o Governo, mesmo que estimulado
pela proximidade das eleições,
dê uma reposta à altura da
provocação dos criminosos.