- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 02 de setembro de 1998

Ordem e violência

A notícia de que novecentos policiais civis e militares foram mobilizados para reforçar a segurança pública em Pernambuco (700 na região metropolitana e 200 no sertão) comporta duas conclusões. A primeira, óbvia, é de que havia uma deficiência alarmante nos efetivos existentes em favor do cidadão que vive nessas áreas, ou que nelas se locomove. E a segunda, a de que muitas vezes a vontade política pode suprir de forma conveniente as deficiências dos meios materiais e humanos à disposição dos governantes.

O novo plano de segurança pública anunciado no dia 25 de agosto, e já posto em prática - pelo menos na Região Metropolitana do Recife - é de uma simplicidade tão grande que se poderia perguntar por que demorou tanto a ser adotado: os policiais já existentes passam a trabalhar em dias de folga, recebendo por isso diárias extras, como forma de complementação salarial. Não importa nem um pouco à comunidade se a idéia foi copiada das propostas de um candidato de oposição, ou se estava elaborada há muito tempo nos gabinetes governamentais, como uma das alternativas possíveis para frear a escalada de violência que nos cerca.

Em meio ao abundante noticiário de todos os dias sobre crimes e violências no Estado, foi noticiado em nosso caderno "Cidades" que uma escola da rede estadual de ensino, no distrito de Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes, teve que suspender o seu turno noturno, prejudicando cerca de quinhentos estudantes, por não poder evitar as investidas de assaltantes e traficantes de drogas. É apenas um dos muitos exemplos das conseqüências da falta de policiamento até então existente. O grau de ousadia dos marginais não encontra paralelo em nossa história, parecendo às vezes cenas tiradas de certos filmes.

No caso aqui citado, uma "galera" composta por cerca de 15 jovens chegou a exigir "a posse da escola durante o turno da noite", o que talvez venha a ser facilitado pelo fechamento do turno a partir das 18 horas. Esses marginais disseram expressamente que pretendiam utilizar o bem público para vender e consumir maconha. E, de acordo com as notícias colhidas pela reportagem, junto à própria diretora, já invadiram as dependências do estabelecimento, situado no Alto dos Guararapes, para manter relações sexuais com alunas. Exagero? A população tem razões para acreditar nessa denúncia, depois de saber que até em ônibus e kombis alguns desajustados estupraram mulheres, muitos deles impunemente.

A diretora do estabelecimento disse ter enviado ofícios pedindo segurança e policiamento à Secretaria Estadual de Educação, à Polícia Militar e ao 6º BMP, em Prazeres. Vale lembrar que, meses atrás, o governo estadual anunciou a contratação de policiais inativos para atuarem como guardas de segurança das escolas estaduais. Mas, sem dúvida, o número de ex-policiais contratados foi muito pequeno para o tamanho da violência reinante. E o fato é que foram mal distribuídos, a julgar pelo número de escolas que vêm ainda sendo atacadas pelos marginais organizados em galeras e pelo aumento da depredação e do roubo de bens dos educandários. Vivem com medo os dirigentes, professores, pais e estudantes.

Não é principalmente nas escolas que agem os marginais. Seria o caso de dizer: agem até nas escolas. O centro da cidade vem sendo vítima diária de assaltos e furtos, muitas vezes (mas, não exclusivamente) por menores, os chamados "cheira-cola" financiados por marginais que são, algumas vezes, seus próprios parentes. Nas praças da periferia, bandos são vistos por todos e raramente molestados. No sertão, já se transformaram em rotina diária os assaltos a ônibus e automóveis particulares, para não falar dos saques de mercadorias transportadas em caminhões.

Mas, apesar de serem as duas sub-regiões do Estado as mais citadas no noticiário jornalístico, é preciso não esquecer que o crime se expandiu em todos os quadrantes de Pernambuco. Agora, com a aproximação da época do veraneio, é de esperar dos setores ligados à segurança pública que já tenham uma estratégia especial de atuação em toda a orla marítima, de Olinda às praias de Goiana, ao norte do Recife, e de Boa Viagem a São José da Coroa Grande, na direção sul. Em verões passados (entre nós, a partir de setembro) medraram os "arrastões", copiados do modelo existente no Rio de Janeiro e divulgados à exaustão pela TV como se fossem uma coisa pitoresca. Seus componentes "limpam" os banhistas, apoderando-se de dinheiro, cartões de crédito, talões de cheques, jóias.

É lamentável reconhecer que nosso Estado alcançou o terceiro lugar em estatísticas de violência, em todo o país. Será muito bom se o Governo, mesmo que estimulado pela proximidade das eleições, dê uma reposta à altura da provocação dos criminosos.

 
 

 

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