COMPORTAMENTO
Adolescente
e soropositivopor FABIANA MORAES
Geralmente, os
adolescentes são associados a
vitalidade, beleza, alto-astral e
muita superficialidade. Seus
problemas, muitas vezes, são
questões como o primeiro
namorado, as espinhas que não
dão uma trégua e as danças que
serão a febre do próximo
verão. O histórico de vida de
cada um, no entanto, guarda
questões bem mais complexas: o
início da vida sexual, que é
pregado como uma
"experiência
super-legal" por algumas
publicações teens, é permeado
por assuntos sérios como a Aids.
Os números da
doença em relação aos
adolescentes em Pernambuco são
assombrosos: segundo dados da
Secretaria Estadual de Saúde,
53% dos casos notificados até
abril de 1997 são de pessoas
entre os 15 e os 34 anos, o que
significa que grande parte dos
soropositivos se contamina
durante a adolescência. A
constatação ganha ainda mais
peso ao levarmos em
consideração que o vírus pode
passar até 10 anos incubado, sem
que o contaminado apresente
qualquer anormalidade. O
adolescente, se não for adepto
da camisinha, transmite o vírus
sem ter a mínima noção do
fato.
O paulista
Adriano Oliveira, integrante do
Grupo de Incentivo à Vida
(GIV)/Rede Nacional de Apoio à
Pessoas com HIV (RNP), localizado
em São Paulo, descobriu aos 16
anos ser soropositivo, e, desde
então, vem trabalhando para
informar jovens, crianças e
adultos a respeito da Aids.
"É complicado conviver com
o HIV; só agora eu me dei conta
disso. Quando descobri que era
soropositivo, aos 16 anos, não
tive problemas, não me
desesperei. Hoje, vejo que não
é fácil", diz Adriano, que
esteve no Recife para falar sobre
sua experiência de soropositivo
desde a adolescência no
seminário Sexualidade e
Reprodução na Adolescência,
que terminou ontem, no auditório
do Centro de Filosofia e
Ciências Humanas (CFCH) da
Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE).
Segundo ele,
sua reação "natural"
ao descobrir-se portador do
vírus foi conseqüência de um
estilo de vida muito
independente: ele costumava
conviver com pessoas mais velhas
e já assumia sua
homossexualidade. "Eu sempre
fiz o que quis, levava uma vida
diferente, não dependia da minha
família. Por isso mesmo, até
hoje, deixo eles meio fora disso
tudo. Só contei que tinha o
vírus dois anos após ter feito
o teste", explica.
Outro paulista
envolvido no combate ao HIV é o
infectologista Wladimir Queiroz,
do Hospital Emílio Ribas, onde
são tratadas exclusivamente
doenças sexualmente
transmissíveis (DSTs). O médico
trabalha há 16 anos com pessoas
portadoras do vírus, e hoje
dedica-se principalmente às
crianças HIV positivas. Um fator
que chama atenção é que os
antes chamados "orfãos do
HIV", como ficaram
conhecidas as crianças
soropositivas em meados dos anos
80, são hoje os "jovens do
HIV", fato confirmado pelo
próprio especialista. "É
uma surpresa muito grande ver as
crianças que tratei terem se
tornado adolescentes. Não
imaginei vê-los chegar aos 14,
15 anos sem apresentar qualquer
sintoma".
Ao todo,
existem 50 adolescentes sendo
tratados no Emílio Ribas, sendo
que 30 deles foram contaminados
verticalmente (o vírus foi
passado pela mãe) e 20 deles,
por transfusão de sangue.
"Pelo que eu saiba, nenhum
deles tem vida sexual ativa, mas,
desde cedo, estes jovens são
orientados a respeito da doença,
embora alguns ainda não saibam
ser portadores", comenta
Wladimir Queiroz. De acordo com o
infectologista, os adolescentes
que se contaminam via relação
sexual se infectam entre 14 e 15
anos, ainda nos primeiro contatos
sexuais. "Os sintomas não
aparecem tão cedo,
principalmente se o contágio for
através de sexo ou
transfusão", esclarece. O
especialista também esteve
presente no seminário sobre
adolescência, onde falou sobre a
assistência prestada aos jovens
soropositivos.