- - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 30 de agosto de 1998

COMPORTAMENTO
Adolescente e soropositivo

por FABIANA MORAES

Geralmente, os adolescentes são associados a vitalidade, beleza, alto-astral e muita superficialidade. Seus problemas, muitas vezes, são questões como o primeiro namorado, as espinhas que não dão uma trégua e as danças que serão a febre do próximo verão. O histórico de vida de cada um, no entanto, guarda questões bem mais complexas: o início da vida sexual, que é pregado como uma "experiência super-legal" por algumas publicações teens, é permeado por assuntos sérios como a Aids.

Os números da doença em relação aos adolescentes em Pernambuco são assombrosos: segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde, 53% dos casos notificados até abril de 1997 são de pessoas entre os 15 e os 34 anos, o que significa que grande parte dos soropositivos se contamina durante a adolescência. A constatação ganha ainda mais peso ao levarmos em consideração que o vírus pode passar até 10 anos incubado, sem que o contaminado apresente qualquer anormalidade. O adolescente, se não for adepto da camisinha, transmite o vírus sem ter a mínima noção do fato.

O paulista Adriano Oliveira, integrante do Grupo de Incentivo à Vida (GIV)/Rede Nacional de Apoio à Pessoas com HIV (RNP), localizado em São Paulo, descobriu aos 16 anos ser soropositivo, e, desde então, vem trabalhando para informar jovens, crianças e adultos a respeito da Aids. "É complicado conviver com o HIV; só agora eu me dei conta disso. Quando descobri que era soropositivo, aos 16 anos, não tive problemas, não me desesperei. Hoje, vejo que não é fácil", diz Adriano, que esteve no Recife para falar sobre sua experiência de soropositivo desde a adolescência no seminário Sexualidade e Reprodução na Adolescência, que terminou ontem, no auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Segundo ele, sua reação "natural" ao descobrir-se portador do vírus foi conseqüência de um estilo de vida muito independente: ele costumava conviver com pessoas mais velhas e já assumia sua homossexualidade. "Eu sempre fiz o que quis, levava uma vida diferente, não dependia da minha família. Por isso mesmo, até hoje, deixo eles meio fora disso tudo. Só contei que tinha o vírus dois anos após ter feito o teste", explica.

Outro paulista envolvido no combate ao HIV é o infectologista Wladimir Queiroz, do Hospital Emílio Ribas, onde são tratadas exclusivamente doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). O médico trabalha há 16 anos com pessoas portadoras do vírus, e hoje dedica-se principalmente às crianças HIV positivas. Um fator que chama atenção é que os antes chamados "orfãos do HIV", como ficaram conhecidas as crianças soropositivas em meados dos anos 80, são hoje os "jovens do HIV", fato confirmado pelo próprio especialista. "É uma surpresa muito grande ver as crianças que tratei terem se tornado adolescentes. Não imaginei vê-los chegar aos 14, 15 anos sem apresentar qualquer sintoma".

Ao todo, existem 50 adolescentes sendo tratados no Emílio Ribas, sendo que 30 deles foram contaminados verticalmente (o vírus foi passado pela mãe) e 20 deles, por transfusão de sangue. "Pelo que eu saiba, nenhum deles tem vida sexual ativa, mas, desde cedo, estes jovens são orientados a respeito da doença, embora alguns ainda não saibam ser portadores", comenta Wladimir Queiroz. De acordo com o infectologista, os adolescentes que se contaminam via relação sexual se infectam entre 14 e 15 anos, ainda nos primeiro contatos sexuais. "Os sintomas não aparecem tão cedo, principalmente se o contágio for através de sexo ou transfusão", esclarece. O especialista também esteve presente no seminário sobre adolescência, onde falou sobre a assistência prestada aos jovens soropositivos.


     

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