COMPORTAMENTO
III
Grupo
orienta contra a discriminaçãoPrecisamos procurar
entender a linguagem dos
jovens". A frase da
primeira-dama Ruth Cardoso sobre
as campanhas contra o HIV
voltadas para o adolescente
ilustra a dificuldade em se
chegar com precisão a esse
público. Com esta base, a
coordenação da organização
não-governamental Gestos,
voltada para a resolução de
problemas como as doenças
sexualmente transmissíveis e a
Aids, resolveu montar um grupo
onde 22 jovens falam diretamente
para uma mesma faixa etária
sobre o HIV. O resultado é
surpreendente: os monitores vêm
conseguindo mudar o comportamento
de outros adolescentes, que
passaram a questionar com mais
seriedade o simples uso de uma
camisinha.
"As
pessoas acham que apenas os
jovens são irresponsáveis, que
não sabem usar uma camisinha.
Já ouvi adultos falarem que
preservativo não resolve
nada", diz Fabiana Brito, 18
anos, integrante do grupo, que é
formado por pessoas de bairros
como Ilha de Santa Cruz, Alto
Santa Terezinha e Alto da
Conquista. Segundo Daniele Silva,
20 anos, muitas pessoas ainda
acreditam que o HIV é um vírus
pego exclusivamente por
homossexuais. "Outro fato
comum é ver mulheres com medo de
pedir para o parceiro usar
camisinha. Muitas vezes eles
acham que a mulher pode estar
traindo, ou pode estar
desconfiada dele", continua
Daniele. Para Fabiana, o
preconceito é ainda muito forte,
tanto que, ao anunciar que estava
fazendo parte da equipe da
Gestos, foi tachada de
soropositiva."As pessoas
não correm da doença, correm
das informações", diz
Fabiana.
Atualmente, o
grupo vem montando um trabalho
denominado Fazendo Arte Contra o
HIV, onde serão encenadas peças
e promovidas palestras para
alunos adolescentes das escolas
públicas e privadas. "Temos
que entender que todos nós somos
soro-interrogativos até fazermos
o teste", diz Ana Luíza
Funghetti, coordenadora do grupo.
Antes de formar a equipe, os
integrantes não haviam se
submetido a nenhum teste de HIV,
não costumavam se prevenir e
eram assumidamente
preconceituosos. "Quando
cheguei aqui, ficava pensando
'nossa, estou usando o mesmo
banheiro que eles, sentando na
mesma cadeira'. Tinha um
preconceito, que agora foi
embora. Um soropositivo é igual
a mim", diz Cristiane Maia,
19 anos.
Para a médica
Isabel Guimarães, do Hospital
Correia Picanço, o preconceito
ainda é grande, mas as
informações já provocaram uma
aceitação maior dos
soropositivos, principalmente por
parte da família. "Antes,
as famílias abandonavam os
jovens, mas hoje eles vêm aqui
buscar a medicação acompanhados
das mães", comenta a
médica, que já tratou de jovens
portadores de apenas 13 anos.
"No início, é tudo mais
difícil, eles ainda não
entraram na faculdade, dependem
da família... é muito
complicado, só depois de um
tempo as coisas se
rearrumam".