- - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 30 de agosto de 1998

COMPORTAMENTO III
Grupo orienta contra a discriminação

Precisamos procurar entender a linguagem dos jovens". A frase da primeira-dama Ruth Cardoso sobre as campanhas contra o HIV voltadas para o adolescente ilustra a dificuldade em se chegar com precisão a esse público. Com esta base, a coordenação da organização não-governamental Gestos, voltada para a resolução de problemas como as doenças sexualmente transmissíveis e a Aids, resolveu montar um grupo onde 22 jovens falam diretamente para uma mesma faixa etária sobre o HIV. O resultado é surpreendente: os monitores vêm conseguindo mudar o comportamento de outros adolescentes, que passaram a questionar com mais seriedade o simples uso de uma camisinha.

"As pessoas acham que apenas os jovens são irresponsáveis, que não sabem usar uma camisinha. Já ouvi adultos falarem que preservativo não resolve nada", diz Fabiana Brito, 18 anos, integrante do grupo, que é formado por pessoas de bairros como Ilha de Santa Cruz, Alto Santa Terezinha e Alto da Conquista. Segundo Daniele Silva, 20 anos, muitas pessoas ainda acreditam que o HIV é um vírus pego exclusivamente por homossexuais. "Outro fato comum é ver mulheres com medo de pedir para o parceiro usar camisinha. Muitas vezes eles acham que a mulher pode estar traindo, ou pode estar desconfiada dele", continua Daniele. Para Fabiana, o preconceito é ainda muito forte, tanto que, ao anunciar que estava fazendo parte da equipe da Gestos, foi tachada de soropositiva."As pessoas não correm da doença, correm das informações", diz Fabiana.

Atualmente, o grupo vem montando um trabalho denominado Fazendo Arte Contra o HIV, onde serão encenadas peças e promovidas palestras para alunos adolescentes das escolas públicas e privadas. "Temos que entender que todos nós somos soro-interrogativos até fazermos o teste", diz Ana Luíza Funghetti, coordenadora do grupo. Antes de formar a equipe, os integrantes não haviam se submetido a nenhum teste de HIV, não costumavam se prevenir e eram assumidamente preconceituosos. "Quando cheguei aqui, ficava pensando 'nossa, estou usando o mesmo banheiro que eles, sentando na mesma cadeira'. Tinha um preconceito, que agora foi embora. Um soropositivo é igual a mim", diz Cristiane Maia, 19 anos.

Para a médica Isabel Guimarães, do Hospital Correia Picanço, o preconceito ainda é grande, mas as informações já provocaram uma aceitação maior dos soropositivos, principalmente por parte da família. "Antes, as famílias abandonavam os jovens, mas hoje eles vêm aqui buscar a medicação acompanhados das mães", comenta a médica, que já tratou de jovens portadores de apenas 13 anos. "No início, é tudo mais difícil, eles ainda não entraram na faculdade, dependem da família... é muito complicado, só depois de um tempo as coisas se rearrumam".


     

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