- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 02 de setembro de 1998

ARGENTINA
Armas brasileiras são apreendidas

por ARIEL PALÁCIOS
Agência Estado

BUENOS AIRES - Dez toneladas de armas provenientes do Brasil foram apreendidas pela Justiça argentina no aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires. O destino das armas, de acordo com os documentos apreendidos, seria a Venezuela. Mas a Justiça argentina - desconfiada pelos recentes escândalos de envios ilegais de armas para Equador e Croácia, que tiveram Buenos Aires como ponto de passagem - suspeita que possa tratar-se de uma manobra de triangulação.

A suspeita principal baseia-se na falta de sentido de que uma carga indo de São Paulo para Caracas, situada ao norte do Equador, passe por Buenos Aires, 2 mil quilômetros ao sul da capital paulista.

Além disso, segundo o jornal argentino Clarín, as suspeitas aumentaram porque a documentação do carregamento o discrimina como "peças para máquinas", e não como armamento.

Segundo a imprensa argentina, o destinatário das 45 caixas que compõem o carregamento de armas é o Departamento de Fabricações Militares da Venezuela. A carga chegou a Buenos Aires num vôo regular da companhia Aerolíneas Argentinas.

O juiz federal de Lomas de Zamora, Alberto Santamarina, responsável pela retenção das armas, negou-se a fornecer informações sobre o caso, alegando que suas declarações poderiam prejudicar as investigações.

Na mesma cidade - que possui jurisdição sobre a área do aeroporto -, há dois meses, outro juiz, Carlos Ferreira Pella, apreendeu um carregamento de armas da África do Sul destinado ao Peru.

Na ocasião, a retenção das armas por quase três semanas provocou irritadas reclamações do governo peruano. Para evitar maiores tensões entre os dois países, a Argentina decidiu liberar o carregamento - composto de 365 lançadores de granadas de fabricação sul-africana.

EXTREMO RIGOR - A Embaixada do Brasil em Buenos Aires informou no final da tarde de ontem à Agência Estado que o Itamaraty será constantemente informado sobre a divulgação das notícias sobre as armas brasileiras na Argentina.

"O tema preocupa", afirmaram fontes diplomáticas, que explicaram que todo processo de exportação de armamentos é dirigido pelo Departamento de Promoção Comercial, sob o extremo rigor por parte do governo federal brasileiro.

Ontem de manhã, o Ministério de Relações Exteriores da Argentina entrou em contato com a embaixada brasileira para informar que estava pedindo mais informações sobre o carregamento ao juiz federal Santamarina.

Fontes diplomáticas declararam que a exportação das armas foi realizada pela Indústria de Material Bélico (Imbel), vinculada ao Ministério do Exército. O comunicado da chancelaria à embaixada brasileira esclareceu que "ainda não está configurada nenhuma forma de delito".

Ainda ontem, o juiz federal Jorge Urso decidiu intimar a depor o ministro do Trabalho, Antonio Erman González, na causa que investiga a venda ilegal de armas à Croácia. González era ministro da Defesa em 1991 quando ocorreu a venda das armas. Segundo se informou, assinou decreto da venda destinada inicialmente ao Panamá mas que terminou na Croácia.


 
 

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