- - -- -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 02 de setembro de 1998


NA GRANDE ÁREA
Armando Nogueira

A doidice da Fifa

Se eu tivesse mania de grandeza, já teria dito, aos quatro ventos, que a Fifa não tem outro prazer na vida a não ser encher a minha paciência. Vejam só o "ranking" do século que a tal entidade mundial acaba de publicar: o Brasil, em primeiro lugar, no futebol do século XX. Perfeito. O Brasil contemplou gerações com quatro seleções admiráveis: a de 50, a de 58, a de 70 e a de 82. Em segundo lugar, vem a Alemanha, que ganhou três títulos, mas que, pra mim, só um merece realce, que foi o de 74. Assim mesmo, a seleção rival, a Holanda, de Cruyff, lhe era superior, em talento, em brilho, em tudo, enfim.

Da Itália, que vem em terceiro lugar, tenho a dizer apenas uma coisa: o título de 82, na Espanha, foi conquistado numa das finais mais tediosas a que já assisti. Três a um contra a Alemanha. Em 34, eu era um menino de Xapuri, mal sabia que a Itália jogava futebol. Do que leio, porém, dá pra sentir que, na campanha italiana, aparecem, nítidas, as impressões digitais de Mussolini. O mínimo que dizem os espanhóis é que, em 34, eles foram garfados pelo "Duce", lá do alto da tribuna de honra. Dizem os historiadores que, na de 38, não foi muito diferente. As autoridades do futebol da França, anfitriã da Copa, teriam dado uma mãozinha à Azzurra...

Na lista, aparece também a Inglaterra. Aqui, desponta mais ainda a desfaçatez dos eleitores da Fifa. A Copa de 66 devia ter sido da Alemanha ou de Portugal. A seleção da Inglaterra jogou um futebol que, nem inglês merecia ver...

A lista da Fifa comete o desplante de ignorar a Hungria. A Hungria da década de 50, que deslumbrou o mundo com Puskas, Kocsis, Hidekguti, Boszic. Um assombro de seleção que passou quatro anos sem perder uma única vez. Só foi derrotada na final de 54, contra a Alemanha. Eu estava lá, ninguém me contou. Não conheço injustiça maior. A de 50, no Maracanã, é pinto. Afinal, a Seleção Brasileira era excepcional, mas a uruguaia também jogava pra burro. Já Alemanha de 54 não tinha bola sequer pra encostar na Hungria.

Quem quiser saber como foi que a Alemanha derrotou a Hungria, 3 a 2, em Berna-54, é só perguntar aos jornalistas europeus da época. Todos dirão que o time alemão jogou dopado. Seis meses depois, a metade do time baixava à enfermaria, todos com icterícia.

A Fifa dirá que tomou como padrão de seu ranking a Copa do Mundo. Portanto, azar da Hungria que não conquistou nenhuma Copa. Pois bem: que dizer, então, do Uruguai que venceu os mundiais de 30 e de 50? Antes, tinha vencido dois torneios olímpicos, nos Jogos de 24 e de 28. São quatro medalhas de ouro no peito da Celeste, solenemente ignoradas pela Fifa. Não é uma pândega?

Falar de futebol no século XX sem citar Uruguai e Hungria, realmente, só pode ser coisa de gente caduca. A Fifa é o que se pode chamar uma patusca e desmiolada coroa.

A NOVA COMISSÃO - A CBF dá à luz a nova comissão técnica. Tudo cara conhecida do futebol profissional. Gente que está com a mão na massa, diariamente. A novidade é a participação de uma psicóloga no estado-maior da Seleção. Luxemburgo sempre deu importância à assistência psicológica. E tem razão. É fundamental que haja alguém pra ajudar o atleta a driblar as pressões do esporte desumanizado de nossos dias.

Não adianta ter o corpo saudável se a cabeça não estiver fresca. Uma coisa implica a outra: quando a cuca entra em parafuso, o corpo não resiste, estrebucha, o cara baba, faz careta. O resto, um dia, Ronaldinho conta pra gente.

É MULHER, NADA... - Famoso clube inglês de críquete, depois de um século, resolveu admitir mulher como sócia e com direito a dar suas tacadas.

Comentário de uma senhora inglesa, conversando com um amigo brasileiro:

- "Na Inglaterra, nada é feito pras mulheres, nem mesmo os homens..."

RÁPIDAS E RASTEIRAS - De passagem por Belo Horizonte, outro dia, repórteres me perguntaram sobre a pálida trajetória do Cruzeiro e do Atlético, no atual Campeonato Brasileiro. Fiz uma rápida consideração, dizendo que os dois hão de superar o período de vacas magras. Pra quê? Chove, agora, e-mail de torcedores me esfinafrando. Acham que, ao usar a expressão vacas magras, desdenhei do futebol mineiro e das glórias atleticanas e cruzeirenses. Francamente, torcedor de futebol tem uma face intolerante que, às vezes, me assusta. O rapaz que me escreve não me conhece. Devia perguntar sobre mim ao Tostão, ao Toninho Drummond, ao Teodomiro Braga, ao Piazza, ao Gil César, ao Roberto Drummond, à deputada Sandra Starling. Eles sabem quanto o futebol mineiro me tem feito feliz, ao longo do tempo. ***** Ricardo Teixeira resolveu hastear a bandeira da paz. Invariavelmente trombudo, o presidente da CBF está percebendo que, de maus bofes, não dará pra saída a batalha pro Brasil ser a sede do mundial de 2006. ***** A Federação Internacional de Tênis está pensando em acabar com o "let" de rede (serviço). Ano que vem, pode começar a funcionar o novo critério: se a bola do saque tocar na rede e cair na quadra de serviço do rival é ponto do sacador. Hoje, como se sabe, nesse caso, o sacador serve de novo. ***** Os clubes brasileiros estão querendo dar uma ordem na zorra dos salários do futebol. Estudam a fixação de um piso e de um teto pro salário dos jogadores. O São Paulo Futebol Clube já se adiantou e fixou um teto salarial de 47 mil reais por mês. Mais que isso não paga a nenhum jogador. ****** O técnico canta o jogo/ o goleiro canta a rede/ o artilheiro canta a bola/ bem no canto da rede.

www.armandonogueira.com.br- E-MAIL: xapuri@armandonogueira.com.br

 
 

 

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