SERVIÇO DE BORDO
O
sabor uniforme da era globalizadapor FABIANA MORAES
É quase
unânime: você adora viajar,
conhecer lugares diferentes, até
enfrenta o humor pré-moldado da
aeromoça... mas não agüenta a
comida do avião. Apesar da boa
apresentação e do cheiro
agradável, o sabor da refeição
parece ter sido esquecido numa
escala qualquer em Jacarta.
"O problema é que não
podemos acentuar o gosto da
comida, ficamos presos a certos
critérios. Não dá pra carregar
no alho e na cebola numa comida
que vai ser servida a
bordo", diz o gerente geral
da LSG Sky Chef (ex-Palheta),
Demétrio Oliveira, lembrando
que, antes de tudo, a comida
precisa agradar a gregos e
troianos, como manda a boa
educação da era globalizada.
Apesar do
resultado não ser exatamente um
manjar dos deuses, o preparo da
comida servida nos aviões requer
uma super estrutura para fazer
com que ela chegue ao colo do
passageiro. No Recife, existem
duas empresas voltadas para este
tipo de serviço: a GateGourmet
(multinacional sediada na
Suíça, que serve empresas como
Vasp, Varig, Nordeste e Linhas
Aéreas Total, além de vôos
presidenciais) e a Sky Chef
(também uma multinacional, que
comprou há poucos meses a
Palheta da Bahia e do Recife, e
serve a companhias como TAM,
Transbrasil, RioSul e TAP).
"A
conservação e a higienização
das comidas é uma tarefa muito
delicada. Os alimentos quentes,
como carnes, por exemplo, são
cozidos numa temperatura alta
para depois serem totalmente
resfriados. Eles só vão ser
esquentados novamente nos fornos
que ficam no avião",
explica o gerente da unidade
regional da GateGourmet, Samuel
Scheneeberger. A conservação
dos alimentos dentro dos aviões
é outra saia justa para as
empresas, que só há pouco
começaram a adquirir aeronaves
com cozinhas refrigeradas,
utilizando ainda o gelo seco.
"É por isso que o pão
servido é geralmente duro: ele
não agüenta o processo de
resfriamento", continua
Scheneeberger.
Na luta por
mais passageiros, as empresas
adotam diversas práticas para
segurar o cliente, e um dos
caminhos mais fáceis para a
façanha é, claro, o estômago.
"Um de nossos cardápios
inclui carne-de-sol, purê de
macaxeira e frango com
queijo", diz o gerente da
Gate Gourmet, enfatizando a linha
regional seguida pela empresa
Nordeste. De acordo com ele, a
alimentação servida a bordo
varia de acordo com a filosofia
da linha aérea, além de
depender dos horários dos vôos
e até mesmo dos destinos.
"O cuidado principal é
manter a comida livre de qualquer
impureza ou bactéria, para que
nenhum passageiro tenha qualquer
indisposição a bordo. Imagine
se alguém no avião passasse mal
num vôo de 12 horas, e a
aeronave fosse forçada a pousar?
Teríamos um prejuízo muito
grande", diz Scheneeberger.
COCA-COLA E
AMENDOIM - Há quem diga,
porém, que o hábito de comer a
bordo pode ser extinto nos vôos
de percursos menores, prática
já adotada nos Estados Unidos,
onde, nas viagens com menos de
três horas de duração, são
servidos apenas amendoim e
Coca-Cola. Bebidas quentes como
whisky e vodka são pagas por
fora, num custo de US$ 1,00 por
bebida. "Acho que não
chegaremos a este extremo. Comer
a bordo faz parte da cultura do
brasileiro", diz Samuel
Scheneeberger.
Para o
representante regional da TAM,
Rui Barbosa de Araújo, deixar ou
não de servir alimentação,
independentemente do tempo de
vôo, vai ser uma tendência
seguida apenas por algumas
companhias. "Nós não vamos
deixar de oferecer o serviço de
bordo completo, é a linha da
empresa", diz. De fato, a
comida é um dos serviços mais
"presentes" na TAM, que
oferece alimentação a cada
escala realizada pela aeronave:
caso você vá para São Paulo e
o vôo parar em Salvador e no Rio
de Janeiro, será servido três
vezes.