- - - -- - - - - - - - - - - -- - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 27 de agosto de 1998

SERVIÇO DE BORDO
O sabor uniforme da era globalizada

por FABIANA MORAES

É quase unânime: você adora viajar, conhecer lugares diferentes, até enfrenta o humor pré-moldado da aeromoça... mas não agüenta a comida do avião. Apesar da boa apresentação e do cheiro agradável, o sabor da refeição parece ter sido esquecido numa escala qualquer em Jacarta. "O problema é que não podemos acentuar o gosto da comida, ficamos presos a certos critérios. Não dá pra carregar no alho e na cebola numa comida que vai ser servida a bordo", diz o gerente geral da LSG Sky Chef (ex-Palheta), Demétrio Oliveira, lembrando que, antes de tudo, a comida precisa agradar a gregos e troianos, como manda a boa educação da era globalizada.

Apesar do resultado não ser exatamente um manjar dos deuses, o preparo da comida servida nos aviões requer uma super estrutura para fazer com que ela chegue ao colo do passageiro. No Recife, existem duas empresas voltadas para este tipo de serviço: a GateGourmet (multinacional sediada na Suíça, que serve empresas como Vasp, Varig, Nordeste e Linhas Aéreas Total, além de vôos presidenciais) e a Sky Chef (também uma multinacional, que comprou há poucos meses a Palheta da Bahia e do Recife, e serve a companhias como TAM, Transbrasil, RioSul e TAP).

"A conservação e a higienização das comidas é uma tarefa muito delicada. Os alimentos quentes, como carnes, por exemplo, são cozidos numa temperatura alta para depois serem totalmente resfriados. Eles só vão ser esquentados novamente nos fornos que ficam no avião", explica o gerente da unidade regional da GateGourmet, Samuel Scheneeberger. A conservação dos alimentos dentro dos aviões é outra saia justa para as empresas, que só há pouco começaram a adquirir aeronaves com cozinhas refrigeradas, utilizando ainda o gelo seco. "É por isso que o pão servido é geralmente duro: ele não agüenta o processo de resfriamento", continua Scheneeberger.

Na luta por mais passageiros, as empresas adotam diversas práticas para segurar o cliente, e um dos caminhos mais fáceis para a façanha é, claro, o estômago. "Um de nossos cardápios inclui carne-de-sol, purê de macaxeira e frango com queijo", diz o gerente da Gate Gourmet, enfatizando a linha regional seguida pela empresa Nordeste. De acordo com ele, a alimentação servida a bordo varia de acordo com a filosofia da linha aérea, além de depender dos horários dos vôos e até mesmo dos destinos. "O cuidado principal é manter a comida livre de qualquer impureza ou bactéria, para que nenhum passageiro tenha qualquer indisposição a bordo. Imagine se alguém no avião passasse mal num vôo de 12 horas, e a aeronave fosse forçada a pousar? Teríamos um prejuízo muito grande", diz Scheneeberger.

COCA-COLA E AMENDOIM - Há quem diga, porém, que o hábito de comer a bordo pode ser extinto nos vôos de percursos menores, prática já adotada nos Estados Unidos, onde, nas viagens com menos de três horas de duração, são servidos apenas amendoim e Coca-Cola. Bebidas quentes como whisky e vodka são pagas por fora, num custo de US$ 1,00 por bebida. "Acho que não chegaremos a este extremo. Comer a bordo faz parte da cultura do brasileiro", diz Samuel Scheneeberger.

Para o representante regional da TAM, Rui Barbosa de Araújo, deixar ou não de servir alimentação, independentemente do tempo de vôo, vai ser uma tendência seguida apenas por algumas companhias. "Nós não vamos deixar de oferecer o serviço de bordo completo, é a linha da empresa", diz. De fato, a comida é um dos serviços mais "presentes" na TAM, que oferece alimentação a cada escala realizada pela aeronave: caso você vá para São Paulo e o vôo parar em Salvador e no Rio de Janeiro, será servido três vezes.


     

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