-- - - -- - - -- - - -- - - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 02 de novembro de 1998


ARTIGO

Um homem feliz

por FÁTIMA QUINTAS*

Converso ao telefone com um amigo e ele me desafia a apontar alguém feliz. Detenho-me no questionamento e me deixo invadir por uma certa perplexidade. Após alguns segundos concluo que não poderia responder afirmativamente. E então, esborram-me interrogações. Permaneço indagativa e procuro, em vão, o homem feliz. Será que não existe? Que bobagem a minha! Em algum lugar desconhecido haverá um esbanjador de felicidade. Ah! Agora me recordo. Como poderia ter esquecido. Tenho em mente a figura mais simbólica de tudo que eu possa deduzir por felicidade: "Seu" José. Era tão simples, que a gente o imaginava etéreo, uma expressão diáfana, um quase olhar angelical. Permanecia o dia todo a aviar especiarias no balcão da pequena venda que ficava à esquina da rua onde morei na minha infância. Nunca se aborrecia. Estava sempre bem disposto e pronto para servir. Tinha cinco filhos e vivia humildemente.

Oferecia bombons de graça para a gurizada inquieta. Narrava o feito dos filhos com galhardia. Isso enchia-lhe de orgulho. Brincava com a vida, permitindo que tudo acontecesse sem a angústia de modificar o destino. Achava-se um homem de sorte, e com certeza o era, diante da sua placidez com o advir. Escrevia mal e quantas vezes se enrascou na anotação das encomendas! Mas não se arreliava. Solicitava que trouxessem por escrito os pedidos em letra de forma; assim conseguiria decifrar com mais rapidez os mandados. Magro, de suspensórios, usava com freqüência camisa de mangas compridas e calça cáqui. O cabelo caía-lhe à testa; tinha o hábito de passar a mão para levantar a mecha indisciplinada. Pouco se incomodava com a aparência. Dela apenas fazia questão de jorrar um riso largo que estrondava a sua visão de mundo.

Era feliz sim, "Seu" José. Nunca o vi carrancudo. Sempre tinha uma história com final alegre para contar. Adorava a garotada e todas as crianças lhe traziam prazer, mesmo as mais trelosas. Dava a impressão de domar o mundo com a sua generosidade; um manso coberto de paz.

Não falei ao meu amigo sobre "Seu" José. Achei que ele jamais entenderia aquela concepção de felicidade. Guardei para mim a alma do homem da venda que representava um feixe de candura. A simplicidade, a bondade, a ingênua silhueta cobriam-lhe de harmonia e não se poderia almejar mais além dessas virtudes. Desliguei o telefone com a sensação de vazio. Preferi ocultar o que eu entendia por felicidade. Afinal é tão singular a definição... Ademais, qualquer definição é restrita e não vale a pena discutir conceitos. Não gosto de conceitos. Prefiro a vida como ela é, sem teorias que venham a comandar o espetáculo.

"Seu" José simbolizava o emblema que eu pude construir. Sem ele o meu mundo seria menor, com poucas chances de reabilitar-se. Tenho com o passado uma relação muito íntima que me aconchega nas horas difíceis. Não poderia saber-me longe das lembranças que dizem de tempos por mim vividos. Sou fragmentada em mil pedaços, não pretendo juntá-los para unificar-me. Percebo-me assim, tal qual um jogo de xadrez desarrumado. As peças vão lentamente formando parcerias, porém jamais delineiam um desenho concreto. Não quero compreender-me tão fácil. Sou alguém incompleta. Tenho por essa incompletude uma admiração enorme que me leva a acreditar no que faço. Como poderia eu ultrapassar a minha incompletude? Não posso, nem quero. Apraz-me conviver com as incertezas que se geram a partir do que é finito e contingente. Estou certa de que a fotografia que traço não é fiel sequer ao que me imagino. Quem poderia descrever-me?

Em meio a tantas inquietações, "Seu" José me conforta. É o passado que me enche de glória; é o passado que ameniza a minha dor; é o passado que preserva a minha crença. "Seu" José consubstancia o caminho da felicidade que há muito venho perseguindo.

* Fátima Quintas é antropóloga da Fundaj

 
 

 

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