ARTIGO
Um homem
feliz
por FÁTIMA
QUINTAS*
Converso ao
telefone com um amigo e ele me
desafia a apontar alguém feliz.
Detenho-me no questionamento e me
deixo invadir por uma certa
perplexidade. Após alguns
segundos concluo que não poderia
responder afirmativamente. E
então, esborram-me
interrogações. Permaneço
indagativa e procuro, em vão, o
homem feliz. Será que não
existe? Que bobagem a minha! Em
algum lugar desconhecido haverá
um esbanjador de felicidade. Ah!
Agora me recordo. Como poderia
ter esquecido. Tenho em mente a
figura mais simbólica de tudo
que eu possa deduzir por
felicidade: "Seu"
José. Era tão simples, que a
gente o imaginava etéreo, uma
expressão diáfana, um quase
olhar angelical. Permanecia o dia
todo a aviar especiarias no
balcão da pequena venda que
ficava à esquina da rua onde
morei na minha infância. Nunca
se aborrecia. Estava sempre bem
disposto e pronto para servir.
Tinha cinco filhos e vivia
humildemente.
Oferecia
bombons de graça para a gurizada
inquieta. Narrava o feito dos
filhos com galhardia. Isso
enchia-lhe de orgulho. Brincava
com a vida, permitindo que tudo
acontecesse sem a angústia de
modificar o destino. Achava-se um
homem de sorte, e com certeza o
era, diante da sua placidez com o
advir. Escrevia mal e quantas
vezes se enrascou na anotação
das encomendas! Mas não se
arreliava. Solicitava que
trouxessem por escrito os pedidos
em letra de forma; assim
conseguiria decifrar com mais
rapidez os mandados. Magro, de
suspensórios, usava com
freqüência camisa de mangas
compridas e calça cáqui. O
cabelo caía-lhe à testa; tinha
o hábito de passar a mão para
levantar a mecha indisciplinada.
Pouco se incomodava com a
aparência. Dela apenas fazia
questão de jorrar um riso largo
que estrondava a sua visão de
mundo.
Era feliz sim,
"Seu" José. Nunca o vi
carrancudo. Sempre tinha uma
história com final alegre para
contar. Adorava a garotada e
todas as crianças lhe traziam
prazer, mesmo as mais trelosas.
Dava a impressão de domar o
mundo com a sua generosidade; um
manso coberto de paz.
Não falei ao
meu amigo sobre "Seu"
José. Achei que ele jamais
entenderia aquela concepção de
felicidade. Guardei para mim a
alma do homem da venda que
representava um feixe de candura.
A simplicidade, a bondade, a
ingênua silhueta cobriam-lhe de
harmonia e não se poderia
almejar mais além dessas
virtudes. Desliguei o telefone
com a sensação de vazio.
Preferi ocultar o que eu entendia
por felicidade. Afinal é tão
singular a definição...
Ademais, qualquer definição é
restrita e não vale a pena
discutir conceitos. Não gosto de
conceitos. Prefiro a vida como
ela é, sem teorias que venham a
comandar o espetáculo.
"Seu"
José simbolizava o emblema que
eu pude construir. Sem ele o meu
mundo seria menor, com poucas
chances de reabilitar-se. Tenho
com o passado uma relação muito
íntima que me aconchega nas
horas difíceis. Não poderia
saber-me longe das lembranças
que dizem de tempos por mim
vividos. Sou fragmentada em mil
pedaços, não pretendo
juntá-los para unificar-me.
Percebo-me assim, tal qual um
jogo de xadrez desarrumado. As
peças vão lentamente formando
parcerias, porém jamais
delineiam um desenho concreto.
Não quero compreender-me tão
fácil. Sou alguém incompleta.
Tenho por essa incompletude uma
admiração enorme que me leva a
acreditar no que faço. Como
poderia eu ultrapassar a minha
incompletude? Não posso, nem
quero. Apraz-me conviver com as
incertezas que se geram a partir
do que é finito e contingente.
Estou certa de que a fotografia
que traço não é fiel sequer ao
que me imagino. Quem poderia
descrever-me?
Em meio a
tantas inquietações,
"Seu" José me
conforta. É o passado que me
enche de glória; é o passado
que ameniza a minha dor; é o
passado que preserva a minha
crença. "Seu" José
consubstancia o caminho da
felicidade que há muito venho
perseguindo.
* Fátima
Quintas é antropóloga da Fundaj
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