CINEMA
Duas
visões corajosas sobre a morte
Holocaustopor KLEBER MENDONÇA
FILHO
É estranho
que, só no final do século,
apareçam, no mesmo ano, duas
abordagens corajosas, originais e
humanas sobre o Holocausto, uma
das maiores tragédias impostas
pela humanidade a si própria. O
Trem da Vida (Train de Vie,
França/Bélgica/Holanda, 1998),
de Radu Mihaileanu, e A Vida é
Bela (La Vita è Bella, Itália,
1997), de Roberto Benigni, são
duas obras semelhantes que
emocionam, provocam gargalhadas,
mas que conseguem manter, entre
si, a distância necessária para
que sejam vistas separadamente.
O filme de
Mihaileanu tem o clima de fábula
estampado em cada um dos seus
fotogramas, embora a impressão
seja dissipada ao longo da sua
narrativa alegre e ensandecida
sobre uma pequena vila de judeus,
em 1941, numa área não
identificada da Europa Central,
que vê-se ameaçada pela chegada
iminente de tropas nazistas. A
idéia mais sensata de salvação
vem do Louco da vila, que sugere
algo simples: ao invés de serem
evacuados pelos nazistas num trem
da morte, eles próprios
forjariam uma auto-deportação,
disfarçados de nazistas à bordo
de "um trem da vida",
rumo à Terra Prometida do povo
judeu.
Mihaileanu,
como diretor e roteirista, faz
jus ao absurdo da idéia com um
volume impressionante de graça,
humor (judaico) e poesia,
lançando mão de um elenco
extenso e afinado, locações e o
próprio trem, um dos personagens
principais do filme. Como um
mágico habilidoso, Mihaileanu
parece estar sempre escondendo
alguma coisa muito importante dos
olhos e sentimentos do
espectador. Depois de mais de 90
minutos de gargalhadas e lirismo,
O Trem da Vida pára, e emudece a
platéia com o poder da sua
imaginação. O filme foi
aplaudido de pé, durante
minutos, na sua noite de estréia
na Mostra de SP e será
distribuído no Brasil (ainda sem
data de estréia).
Em A Vida é
Bela, há menos um esforço
coletivo e mais um impressionante
trabalho individual do italiano
Roberto Benigni (alguém lembra
do seu "I scream for ice
cream...", em Down by Law?),
que dirige, co-roteiriza e atua
com energia poucas vezes
testemunhada num filme. Ele é
Guido, um judeu que apaixona-se
por Dora (Nicoleta Braschi,
esposa de Benigni), sua
"princesa", com quem
casa e tem um filho, Giosué
(Giorgio Cantarini), uma criança
verdadeiramente encantadora.
Chegam os
fascistas e os três são
mandados para um campo de
concentração, onde Guido, com o
seu incrível poder de
imaginação, irá defender a
inocência do mundo infantil de
Giosué, seriamente ameaçado
pela violência e o horror que os
cerca. O trabalho de Guido com o
filho é belo e dá uma
desagradável vontade de chorar.
Se esta é uma
boa idéia, imaginem que ela foi
desenvolvida com enorme emoção
por Benigni, que revitaliza o
estilo Chaplin de humor, ou seja,
equilibra o talento para talhar
um drama popularesco com
sentimentos sofisticados de
profunda tristeza e poesia, como
no final, que vai dar vexame em
muita gente quando as luzes do
cinema forem acesas. A provável
estréia do filme no Brasil será
em fevereiro, semanas antes do
Oscar.
E como o filme
se compara com Central do Brasil?
Ambos são extremamente bem
feitos, deixam os espectadores
com os olhos honestamente
inchados, mas é provável que a
energia contagiante de Benigni
conquiste os eleitores judeus da
Academia. Apenas um palpite.