- - - - -- - - - - - - -- - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 02 de novembro de 1998

CINEMA
Duas visões corajosas sobre a morte Holocausto

por KLEBER MENDONÇA FILHO

É estranho que, só no final do século, apareçam, no mesmo ano, duas abordagens corajosas, originais e humanas sobre o Holocausto, uma das maiores tragédias impostas pela humanidade a si própria. O Trem da Vida (Train de Vie, França/Bélgica/Holanda, 1998), de Radu Mihaileanu, e A Vida é Bela (La Vita è Bella, Itália, 1997), de Roberto Benigni, são duas obras semelhantes que emocionam, provocam gargalhadas, mas que conseguem manter, entre si, a distância necessária para que sejam vistas separadamente.

O filme de Mihaileanu tem o clima de fábula estampado em cada um dos seus fotogramas, embora a impressão seja dissipada ao longo da sua narrativa alegre e ensandecida sobre uma pequena vila de judeus, em 1941, numa área não identificada da Europa Central, que vê-se ameaçada pela chegada iminente de tropas nazistas. A idéia mais sensata de salvação vem do Louco da vila, que sugere algo simples: ao invés de serem evacuados pelos nazistas num trem da morte, eles próprios forjariam uma auto-deportação, disfarçados de nazistas à bordo de "um trem da vida", rumo à Terra Prometida do povo judeu.

Mihaileanu, como diretor e roteirista, faz jus ao absurdo da idéia com um volume impressionante de graça, humor (judaico) e poesia, lançando mão de um elenco extenso e afinado, locações e o próprio trem, um dos personagens principais do filme. Como um mágico habilidoso, Mihaileanu parece estar sempre escondendo alguma coisa muito importante dos olhos e sentimentos do espectador. Depois de mais de 90 minutos de gargalhadas e lirismo, O Trem da Vida pára, e emudece a platéia com o poder da sua imaginação. O filme foi aplaudido de pé, durante minutos, na sua noite de estréia na Mostra de SP e será distribuído no Brasil (ainda sem data de estréia).

Em A Vida é Bela, há menos um esforço coletivo e mais um impressionante trabalho individual do italiano Roberto Benigni (alguém lembra do seu "I scream for ice cream...", em Down by Law?), que dirige, co-roteiriza e atua com energia poucas vezes testemunhada num filme. Ele é Guido, um judeu que apaixona-se por Dora (Nicoleta Braschi, esposa de Benigni), sua "princesa", com quem casa e tem um filho, Giosué (Giorgio Cantarini), uma criança verdadeiramente encantadora.

Chegam os fascistas e os três são mandados para um campo de concentração, onde Guido, com o seu incrível poder de imaginação, irá defender a inocência do mundo infantil de Giosué, seriamente ameaçado pela violência e o horror que os cerca. O trabalho de Guido com o filho é belo e dá uma desagradável vontade de chorar.

Se esta é uma boa idéia, imaginem que ela foi desenvolvida com enorme emoção por Benigni, que revitaliza o estilo Chaplin de humor, ou seja, equilibra o talento para talhar um drama popularesco com sentimentos sofisticados de profunda tristeza e poesia, como no final, que vai dar vexame em muita gente quando as luzes do cinema forem acesas. A provável estréia do filme no Brasil será em fevereiro, semanas antes do Oscar.

E como o filme se compara com Central do Brasil? Ambos são extremamente bem feitos, deixam os espectadores com os olhos honestamente inchados, mas é provável que a energia contagiante de Benigni conquiste os eleitores judeus da Academia. Apenas um palpite.

 
     

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