- - - - - - -- - - - - - - -- - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 01 de novembro de 1998

PESQUISA
Manuscritos revelam astronomia do século 17

por VERÔNICA FALCÃO

Uma equipe do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST/CNPq), no Rio de Janeiro, está estudando 119 manuscritos do alemão Georg Marcgrave, que integrou o grupo de artistas e cientistas trazidos para Pernambuco pelo Conde Maurício de Nassau, no século 17. Os manuscritos foram copiados da biblioteca do Observatório de Paris e relatam eventos astronômicos observados no Nordeste por Marcgrave, entre 1638 e 1643.

Os pesquisadores do MAST/CNPq querem fazer a mais completa compilação da obra astronômica de Marcgrave, com informações ainda inéditas. Analisando os manuscritos, eles querem saber os locais de observação usados pelo naturalista e qual a precisão astronômica com que ele determinava a posição dos astros no céu. "Há dúvidas ainda em relação à denominação das constelações, que era diferente da atual, e ao sistema de horas utilizado", diz um dos cientistas envolvidos no projeto, Oscar Toshiaki Matsuura.

O astrônomo acredita que Marcgrave tenha usado o Sistema Solar verdadeiro para medir as horas. "Naquela época era completamente diferente. Não havia uma hora universal e nem um meridiano de referência, como é Greenwich", afirma. A hora solar verdadeira, explica o Matsuura, é dada pela sombra do Sol em uma haste ao longo do dia. A diferença entre o sistema e um relógio convencional pode chegar a 45 minutos para mais ou para menos.

Outro desafio da equipe é saber qual o calendário usado por Marcgrave. "Por serem de religião protestante, os holandeses adotaram com atraso o calendário gregoriano, instituído pela Igreja Católica, que está em vigência até hoje", afirma.

O trabalho dos pesquisadores do MAST/CNPq deverá resultar em um livro. "Por enquanto, pretendemos apenas digitalizar as informações obtidas e transformá-las em um banco de dados", adianta Matsuura.

ORIGINAIS - Os manuscritos originais de Marcgrave estão nos arquivos da Prefeitura de Leiden, na Holanda. Eles foram copiados em meados do século 17 pelo padre e astrônomo Ismael Boulliau, que na época era secretário do embaixador da França na Holanda, e levou o documento para seu país.


     

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