ENTREVISTA
/ Oscar Toshiaki Matsuura
"Marcgrave
queria ser um grande
astrônomo"O astrônomo Oscar
Toshiaki Matsuura, 59 anos, do
Museu de Astronomia e Ciências
Afins (MAST/CNPq), no Rio de
Janeiro, há seis meses dedica-se
ao estudo dos manuscritos de
Georg Marcgrave, copiados da
biblioteca do Observatório de
Paris, na França. Professor
aposentado da Universidade de
São Paulo, ele ainda orienta
pesquisas de pós-graduação na
instituição, onde por 30 anos
se dedicou ao estudo da
astrofísica do Sistema Solar.
Durante o Simpósio Georg
Marcgrave, semana passada, no
Recife, Matsuura concedeu a
seguinte entrevista ao JC.
Jornal do
Commercio - A observação de
eclipses da Lua facilitava a
definição de coordenadas
geográficas, como a longitude. A
astronomia desenvolvida por Georg
Marcgrave era, então, uma
ciência estratégica para a
Companhia das Índias Ocidentais,
que comandou a ocupação
holandesa em Pernambuco?
Oscar
Toshiaki Matsuura - Acredito
que não. O conhecimento da
astronomia para a náutica já
era suficiente para o que a
marinha precisava na época.
Marcgrave não chegou a
determinar nem a longitude da
Ilha de Antônio Vaz (hoje o
bairro de Santo Antônio, no
Recife), que seria fundamental se
ele tinha a pretensão de
comparar as observações que ele
fazia aqui com as desenvolvidas
nos outros observatórios. Suas
medidas estão afetadas de um
erro de dois graus de longitude.
Até mesmo na segunda metade do
século 17, depois da morte de
Marcgrave, não se conhecia bem a
longitude no Novo Mundo.
JC - Que
contribuição Marcgrave deu à
astronomia do século 17?
Matsuura -
Ele observou todos os eclipses
solares e lunares visíveis no
Recife na época, além uma
conjunção de Júpiter com
Saturno e uma ocultação pela
Lua. Durante os eclipses lunares,
ele tentou determinar a
longitude. Marcgrave só não
observou cometas, supernovas e
trânsitos porque esses eventos
não ocorreram ou não foram
visíveis do Recife na época.
Marcgrave tinha a formação e os
instrumentos necessários para
desenvolver um grande projeto,
mas a morte abreviou os seus
planos. Marcgrave pretendia ser o
Tycho Brahe (famoso astrônomo
europeu que descobriu uma
supernova, em 1572, e ajudou a
dirimir dúvidas que havia sobre
as teorias da época) do
Hemisfério Sul. Em um de seus
manuscritos, há o prefácio de
um livro que possivelmente ele
nunca chegou a escrever.
Certamente seria uma obra que, em
linhas gerais, seguiria o
trabalho de Brahe. Ele também
pretendia incluir na obra um
catálogo de estrelas austrais,
que era o objetivo de muitos
astrônomos europeus da época e
só foi desenvolvido 40 anos mais
tarde, na Ilha de Santa Helena.
JC - Porque
o interesse de Marcgrave em
estudar manchas solares, desde
que iniciou seus estudos de
astronomia, em Leiden, na
Holanda?
Matsuura -
Ele estudava manchas porque era
um descoberta recente na época,
tendo sido vistas por Galileu
Galilei pela primeira vez, por
volta de 1610.
JC - Que
instrumentos Marcgrave utilizava
em suas observações?
Matsuura -
O observatório usado por
Marcgrave estava equiparado com
qualquer outro da Europa. O que
ele fez aqui foi uma réplica do
observatório de Leiden, na
Holanda, onde ele estudava
astronomia antes de vir para o
Brasil. Tinha vários
telescópios, quadrantes,
sextantes, pêndulos para medir o
tempo, clepsidras, fios de prumo
(como o utilizao pelos
pedreiros), mapas celestes,
globos celestes e terrestres
modernos, além de livros de
astronomia usados na época.