- - - - - - -- - - - - - - -- - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 01 de novembro de 1998

ENTREVISTA / Oscar Toshiaki Matsuura
"Marcgrave queria ser um grande astrônomo"

O astrônomo Oscar Toshiaki Matsuura, 59 anos, do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST/CNPq), no Rio de Janeiro, há seis meses dedica-se ao estudo dos manuscritos de Georg Marcgrave, copiados da biblioteca do Observatório de Paris, na França. Professor aposentado da Universidade de São Paulo, ele ainda orienta pesquisas de pós-graduação na instituição, onde por 30 anos se dedicou ao estudo da astrofísica do Sistema Solar. Durante o Simpósio Georg Marcgrave, semana passada, no Recife, Matsuura concedeu a seguinte entrevista ao JC.

Jornal do Commercio - A observação de eclipses da Lua facilitava a definição de coordenadas geográficas, como a longitude. A astronomia desenvolvida por Georg Marcgrave era, então, uma ciência estratégica para a Companhia das Índias Ocidentais, que comandou a ocupação holandesa em Pernambuco?

Oscar Toshiaki Matsuura - Acredito que não. O conhecimento da astronomia para a náutica já era suficiente para o que a marinha precisava na época. Marcgrave não chegou a determinar nem a longitude da Ilha de Antônio Vaz (hoje o bairro de Santo Antônio, no Recife), que seria fundamental se ele tinha a pretensão de comparar as observações que ele fazia aqui com as desenvolvidas nos outros observatórios. Suas medidas estão afetadas de um erro de dois graus de longitude. Até mesmo na segunda metade do século 17, depois da morte de Marcgrave, não se conhecia bem a longitude no Novo Mundo.

JC - Que contribuição Marcgrave deu à astronomia do século 17?

Matsuura - Ele observou todos os eclipses solares e lunares visíveis no Recife na época, além uma conjunção de Júpiter com Saturno e uma ocultação pela Lua. Durante os eclipses lunares, ele tentou determinar a longitude. Marcgrave só não observou cometas, supernovas e trânsitos porque esses eventos não ocorreram ou não foram visíveis do Recife na época. Marcgrave tinha a formação e os instrumentos necessários para desenvolver um grande projeto, mas a morte abreviou os seus planos. Marcgrave pretendia ser o Tycho Brahe (famoso astrônomo europeu que descobriu uma supernova, em 1572, e ajudou a dirimir dúvidas que havia sobre as teorias da época) do Hemisfério Sul. Em um de seus manuscritos, há o prefácio de um livro que possivelmente ele nunca chegou a escrever. Certamente seria uma obra que, em linhas gerais, seguiria o trabalho de Brahe. Ele também pretendia incluir na obra um catálogo de estrelas austrais, que era o objetivo de muitos astrônomos europeus da época e só foi desenvolvido 40 anos mais tarde, na Ilha de Santa Helena.

JC - Porque o interesse de Marcgrave em estudar manchas solares, desde que iniciou seus estudos de astronomia, em Leiden, na Holanda?

Matsuura - Ele estudava manchas porque era um descoberta recente na época, tendo sido vistas por Galileu Galilei pela primeira vez, por volta de 1610.

JC - Que instrumentos Marcgrave utilizava em suas observações?

Matsuura - O observatório usado por Marcgrave estava equiparado com qualquer outro da Europa. O que ele fez aqui foi uma réplica do observatório de Leiden, na Holanda, onde ele estudava astronomia antes de vir para o Brasil. Tinha vários telescópios, quadrantes, sextantes, pêndulos para medir o tempo, clepsidras, fios de prumo (como o utilizao pelos pedreiros), mapas celestes, globos celestes e terrestres modernos, além de livros de astronomia usados na época.


     

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