Vai sobrar para nósAs análises que
acompanharam a apuração dos
votos no segundo turno apontaram
com insistência para o Nordeste.
Não foram apenas opiniões
aleatórias, partidas de
cientistas políticos. Entre a
exultação de uns e o sentimento
de frustração de outros,
percebia-se que mesmo entre
atuais e futuros congressistas
nossa região teve o tratamento
de sempre. De descrédito e de
culpa.
Vejamos dois
casos expostos com muita clareza
pelos debatedores do Centro-Sul
em redes de TV. Um deles falava
sobre o grau de fortalecimento do
futuro Congresso a partir da
eleição de governadores
incapazes de subserviência, com
cacife para exigir discussão com
o poder central em Brasília.
Outro caso dizia respeito à
reforma fiscal, como o governo
quer e como deverá ser.
Para ilustrar o
primeiro exemplo, foi dado o caso
da Paraíba nas votações na
Câmara Federal. O que se disse
é que uma das distrações dos
congressistas é olhar o quadro
de votação para conferir as
decisões paraibanas, sempre
fechadas, em bloco, pelo sim ou
pelo não. A isso se dava o nome
de subserviência, de
acovardamento diante das
determinações do Planalto. Uma
atitude que costumeiramente se
atribui aos estados mais pobres
do Nordeste.
O segundo
exemplo é muito mais grave:
sempre que se tratou da reforma
fiscal a pancada mais forte
sobrou para o Nordeste. Na
interpretação desses
entendidos, ou futuros
congressistas, as mudanças não
se darão mais com o
tranqüilidade que o governo
esperava. Agora vai ter que
negociar, discutir, rever
posições, atingir pontos que
vinham sendo dados como de
difícil abordagem, como é o
caso dos incentivos fiscais
regionais.
Isso mesmo: os
incentivos fiscais regionais
estão na mira dos que imaginam a
discussão das reformas com um
Congresso fortalecido, com os
governos estaduais mais poderosos
do País nas mãos de dirigentes
pouco dóceis para com o poder
central em Brasília. Esse alvo
se torna mais visível na medida
mesmo em que são postas as
cartas na mesa: no lugar de criar
impostos ou aumentar os
existentes, a idéia é corrigir
as distorções, combater a
renúncia fiscal.
Em tese, essa
é uma proposta incontestável.
É politicamente correta,
funda-se em princípios de ética
e decência no trato da coisa
pública e, de quebra, acabaria
com uma das deformações de
nossa Federação, a chamada
guerra fiscal, em que estados
procuram atrair investimentos
escancarando os benefícios
públicos, renunciando a
receitas.
O problema que
se coloca, de imediato, é que o
tratamento diferenciado para o
Nordeste decorre de imposições
históricas inquestionáveis.
Assim como num determinado tempo
o País precisou criar mecanismos
que permitissem a substituição
das importações, assim também
era fundamental se criar os meios
que permitissem combater o maior
bolsão de pobreza do Ocidente.
Como isso não
aconteceu, o Nordeste continua
pobre e profundamente desigual em
relação ao Sudeste, a questão
é retomada noutros termos e pesa
sombriamente sobre nosso futuro.
Não apenas porque - prosperando
a idéia do fim dos incentivos
fiscais - teremos perdido um
mecanismo capaz de diminuir as
desigualdades como, sobretudo,
porque a correção estaria se
processando numa das quadras mais
penosas de nossa História nas
últimas décadas, em um ano
marcado pela recessão.
Daí decorre,
de imediato, o alerta para os
males que poderá representar o
fim, puro e simples, dos
incentivos fiscais. Entendemos
que há acerto nessa proposta,
mas é imperioso que nossos
representantes, nossas
lideranças, juntem forças
imediatamente para encontrar
alternativas. Evidente que não
se trata de separatismos, mas do
reconhecimento elementar de que
na grande família brasileira
temos sido os excluídos.
E porque
fazemos parte da família temos
direitos que precisam ser
alardeados e trazidos à mesa de
debate como um valor concreto.
Não se trata de apelar para
compreensão ou generosidade. O
Nordeste tem dado sua
contribuição. O Nordeste
construiu boa parte do que há de
melhor em nosso País e não pode
ser tratado como um deserdado.
Tudo bem, combata-se a renúncia
fiscal, sempre condenável. Mas
que não seja às custas do
aprofundamento das desigualdades
de nosso povo.