PSICANÁLISE
II
Quando
a solidão estimula a
criatividadePara Françoise Dolto, a
solidão só se torna criativa
quando o solitário consegue
expressar seus sentimentos - por
qualquer que seja o meio
(escrevendo, pintando, cantando
ou simplesmente conversando com
amigos e até com estranhos). É
o caso dos escritores, que elegem
a solidão como uma musa
inspiradora. Como Rachel de
Queiroz, que acaba de lançar com
a irmã, Maria Luíza de Queiroz,
o livro Tantos anos (Editora
Siciliano), que trata de
recordações e lembranças da
infância. Para ela, a solidão
procurada é extremamente
benéfica para o ser humano.
"No caso dos escritores,
diria que ela é fecunda",
diz.
Já Marco
Lucchesi, também escritor, diz
nunca ter se desesperado diante
da solidão, para ele, uma
profissão de fé. E a trata como
uma amante, com a qual, porém,
rompe relações de vez em
quando, "por ela ser
tirânica". "Mas a
solidão é uma necessidade vital
para mim. O cotidiano exige a
solidão", diz.
Em seu livro,
Françoise Dolto diz, também,
que a solidão só se desvincula
do abandono quando o solitário
faz movimentos em busca de
comunicação com os outros. A
atriz Odete Lara, por exemplo,
confessa que seu passado de
festas e grandes badalações era
muito solitário, apesar de estar
sempre rodeada de muitas pessoas.
E que a partir do momento em que
refez sua vida, descobriu que a
solidão era uma necessidade. A
partir daí, se tornou mais
próxima das pessoas, e o que
antes era um monólogo entre
muitos se tornou uma troca, uma
doação aos amigos. Abaixo,
estão oito definições de
solidão dadas por quem mora só:
SÔNIA
COUTINHO - 59 anos,
escritora: "Moro sozinha há
quase 20 anos e não me imagino
vivendo de outra maneira. É um
estilo de vida. Não tenho mais
que dividir espaço. Em alguns
momentos posso me sentir sozinha,
mas solidão a dois é mais
traumática. Em meu novo livro,
Os seios de Pandora (Editora
Rocco), as duas personagens
centrais são sozinhas e vivem
bem. Acho que a partir dos anos
70 surgiu a mulher que se
sustenta, que compete com o homem
no mercado de trabalho, e no Rio
de Janeiro há espaço para essa
mulher. Uso a solidão para
trabalhar, produzir mais."
MARCO
LUCCHESI - 34 anos, escritor:
"Sou, naturalmente, um
solitário. É quase uma
profissão de fé, o que não
significa que não ame as
pessoas, que seja um ermitão.
Às vezes, alguns não estão
disponíveis para compreender
essa necessidade. Mas proximidade
não significa amor. Sinto
necessidade da solidão, que para
mim surge como uma figura doce,
amena, de sonho. Com ela me
abasteço, tiro água do meu
poço. A solidão é uma amante,
às vezes um pouco tirânica, mas
que se trouxe algum dia um tipo
de sofrimento para mim foi pela
necessidade de ficar só. Em
alguns momentos, porém, gosto da
banda, dos fogos de artifício,
do barulho. Gosto da solidão,
brigo com ela e me deixo
encantar."
THIAGO
MONTEIRO - 41 anos, produtor
de moda: "Há nove meses
resolvi morar sozinho. Antes,
vivia com a minha família, mas,
em alguns momentos, sentia-me
sozinho. Às vezes, sinto a
solidão perto de mim, mas não
é complicado. Começo a ler, a
pesquisar, a escrever, e tudo
volta ao normal. Não chega a ser
prejudicial. Saio muito sozinho,
vou a restaurantes, onde reparo
famílias em algumas mesas com
cada um dos membros olhando para
um dos lados, ou seja, ninguém
conversa com ninguém. Gosto de
viver sozinho. Acho, inclusive,
que durante esse tempo amadureci
bastante e uso meu espaço para
produzir mais, com certeza."
RACHEL DE
QUEIROZ - 88 anos, escritora:
"A solidão procurada é
bastante fecunda, como a dos
escritores. Mas, em 82, perdi um
marido que adorava e, apesar de
ter continuado a vida de sempre,
dormindo no mesmo quarto, fazendo
as mesmas coisas, sofria. É a
solidão de sofrimento. Hoje,
posso dizer que vou levando a
vida. Não a considero uma coisa
muito boa. É um desafio, uma
luta constante."
ODETE LARA -
69 anos, atriz: "Sentia
solidão quando vivia no meio de
todo mundo, em festas, porque
não gostava, não me entendia.
Sentia-me muito solitária, mas a
sociedade convencionou que viver
só é uma coisa triste, um
sofrimento, o que não é
verdade. À medida que mudei de
vida, me aproximei da natureza (a
atriz vive em Nova Friburgo) e
amadureci, sinto a solidão como
necessária. Preciso de momentos
meus para entrar em contato com o
mundo. Estou mais ligada às
pessoas agora, me doando mais,
pois antes havia um monólogo, e
agora há uma troca. Para mim, a
solidão é muito produtiva.
Apesar de sair pouco, se tiver
que ser sozinha, tudo bem. Já
até viajei sozinha e confesso:
é uma loucura! Em meu livro Meus
passos em busca de paz (Editora
Record), conto minha aventura
pelo Oriente. É uma grande
lição de vida. Você é posto
num mundo diferente e tem que
botar tudo para funcionar. Põe
partes do cérebro em ação, o
que, no seu espaço, você não
usa, pois conhece tudo. É uma
descoberta que só é possível
se vivenciada sozinha."
PAULINHO
LIMA - 55 anos, produtor
cultural: "Nada inviabiliza
minha vida por viver sozinho. É
uma opção que fiz há 15 anos.
Ao longo dos anos, fui reparando
que todas as vezes em que dividia
espaço com outras pessoas não
dava certo e o que o problema era
meu. Preciso de minha privacidade
para viver, para trabalhar. Não
consigo mais ter a
disponibilidade, a generosidade
de dividir. Fui criando hábitos
solitários que atualmente estão
incorporados à minha pessoa.
Minha casa é uma espécie de
refúgio e não pretendo mudar. A
solidão é uma aliada."