..............................................-Jornal do Commercio - Recife, 01 de novembro de 1998

PSICANÁLISE II
Quando a solidão estimula a criatividade

Para Françoise Dolto, a solidão só se torna criativa quando o solitário consegue expressar seus sentimentos - por qualquer que seja o meio (escrevendo, pintando, cantando ou simplesmente conversando com amigos e até com estranhos). É o caso dos escritores, que elegem a solidão como uma musa inspiradora. Como Rachel de Queiroz, que acaba de lançar com a irmã, Maria Luíza de Queiroz, o livro Tantos anos (Editora Siciliano), que trata de recordações e lembranças da infância. Para ela, a solidão procurada é extremamente benéfica para o ser humano. "No caso dos escritores, diria que ela é fecunda", diz.

Já Marco Lucchesi, também escritor, diz nunca ter se desesperado diante da solidão, para ele, uma profissão de fé. E a trata como uma amante, com a qual, porém, rompe relações de vez em quando, "por ela ser tirânica". "Mas a solidão é uma necessidade vital para mim. O cotidiano exige a solidão", diz.

Em seu livro, Françoise Dolto diz, também, que a solidão só se desvincula do abandono quando o solitário faz movimentos em busca de comunicação com os outros. A atriz Odete Lara, por exemplo, confessa que seu passado de festas e grandes badalações era muito solitário, apesar de estar sempre rodeada de muitas pessoas. E que a partir do momento em que refez sua vida, descobriu que a solidão era uma necessidade. A partir daí, se tornou mais próxima das pessoas, e o que antes era um monólogo entre muitos se tornou uma troca, uma doação aos amigos. Abaixo, estão oito definições de solidão dadas por quem mora só:

SÔNIA COUTINHO - 59 anos, escritora: "Moro sozinha há quase 20 anos e não me imagino vivendo de outra maneira. É um estilo de vida. Não tenho mais que dividir espaço. Em alguns momentos posso me sentir sozinha, mas solidão a dois é mais traumática. Em meu novo livro, Os seios de Pandora (Editora Rocco), as duas personagens centrais são sozinhas e vivem bem. Acho que a partir dos anos 70 surgiu a mulher que se sustenta, que compete com o homem no mercado de trabalho, e no Rio de Janeiro há espaço para essa mulher. Uso a solidão para trabalhar, produzir mais."

MARCO LUCCHESI - 34 anos, escritor: "Sou, naturalmente, um solitário. É quase uma profissão de fé, o que não significa que não ame as pessoas, que seja um ermitão. Às vezes, alguns não estão disponíveis para compreender essa necessidade. Mas proximidade não significa amor. Sinto necessidade da solidão, que para mim surge como uma figura doce, amena, de sonho. Com ela me abasteço, tiro água do meu poço. A solidão é uma amante, às vezes um pouco tirânica, mas que se trouxe algum dia um tipo de sofrimento para mim foi pela necessidade de ficar só. Em alguns momentos, porém, gosto da banda, dos fogos de artifício, do barulho. Gosto da solidão, brigo com ela e me deixo encantar."

THIAGO MONTEIRO - 41 anos, produtor de moda: "Há nove meses resolvi morar sozinho. Antes, vivia com a minha família, mas, em alguns momentos, sentia-me sozinho. Às vezes, sinto a solidão perto de mim, mas não é complicado. Começo a ler, a pesquisar, a escrever, e tudo volta ao normal. Não chega a ser prejudicial. Saio muito sozinho, vou a restaurantes, onde reparo famílias em algumas mesas com cada um dos membros olhando para um dos lados, ou seja, ninguém conversa com ninguém. Gosto de viver sozinho. Acho, inclusive, que durante esse tempo amadureci bastante e uso meu espaço para produzir mais, com certeza."

RACHEL DE QUEIROZ - 88 anos, escritora: "A solidão procurada é bastante fecunda, como a dos escritores. Mas, em 82, perdi um marido que adorava e, apesar de ter continuado a vida de sempre, dormindo no mesmo quarto, fazendo as mesmas coisas, sofria. É a solidão de sofrimento. Hoje, posso dizer que vou levando a vida. Não a considero uma coisa muito boa. É um desafio, uma luta constante."

ODETE LARA - 69 anos, atriz: "Sentia solidão quando vivia no meio de todo mundo, em festas, porque não gostava, não me entendia. Sentia-me muito solitária, mas a sociedade convencionou que viver só é uma coisa triste, um sofrimento, o que não é verdade. À medida que mudei de vida, me aproximei da natureza (a atriz vive em Nova Friburgo) e amadureci, sinto a solidão como necessária. Preciso de momentos meus para entrar em contato com o mundo. Estou mais ligada às pessoas agora, me doando mais, pois antes havia um monólogo, e agora há uma troca. Para mim, a solidão é muito produtiva. Apesar de sair pouco, se tiver que ser sozinha, tudo bem. Já até viajei sozinha e confesso: é uma loucura! Em meu livro Meus passos em busca de paz (Editora Record), conto minha aventura pelo Oriente. É uma grande lição de vida. Você é posto num mundo diferente e tem que botar tudo para funcionar. Põe partes do cérebro em ação, o que, no seu espaço, você não usa, pois conhece tudo. É uma descoberta que só é possível se vivenciada sozinha."

PAULINHO LIMA - 55 anos, produtor cultural: "Nada inviabiliza minha vida por viver sozinho. É uma opção que fiz há 15 anos. Ao longo dos anos, fui reparando que todas as vezes em que dividia espaço com outras pessoas não dava certo e o que o problema era meu. Preciso de minha privacidade para viver, para trabalhar. Não consigo mais ter a disponibilidade, a generosidade de dividir. Fui criando hábitos solitários que atualmente estão incorporados à minha pessoa. Minha casa é uma espécie de refúgio e não pretendo mudar. A solidão é uma aliada."


     

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