..............................................-Jornal do Commercio - Recife, 01 de novembro de 1998

SAÚDE
Até onde vai o poder da medicina alternativa

por LUIZ CLAUDIO FERREIRA

A decisão do Conselho Federal de Medicina (CFM) de proibir os médicos de usarem e prescreverem pelo menos cem terapias alternativas não está modificando os hábitos dos principais interessados: os pacientes. O que acontece agora é que as pessoas recorrem somente aos terapeutas ou se auto-medicam. Quem estava obtendo resultados satisfatórios com alguma prática alternativa dificilmente vai deixar de usá-la. Pelo contrário, esses tratamentos não-convencionais ganham novos adeptos todos os dias, que em grande parte das vezes se arrependem apenas de não terem começado antes.

Como no caso de Felipe de Souza, de 4 anos. O garoto sofria de problemas respiratórios crônicos, inclusive com crises de broncopneumonia, tratados durante mais de dois anos com antibióticos. A mãe dele, a produtora de eventos Valéria de Souza, diz que esse tratamento alopático surtia efeitos apenas temporários. Há seis meses o garoto passou a tomar os florais - a prática alternativa mais utilizada no Brasil.

"Depois de uma semana, Felipe já estava muito melhor, forte e sofrendo bem menos. Até ficar totalmente curado, ele não vai deixar de tomar os florais", garante Valéria. Para continuar o tratamento, ela mesmo vai "medicar" o menino, ou, em caso de crises, procurar um terapeuta no Recife. "É lamentável que haja essa proibição. O médico dele controlava e conhecia muito bem o quadro".

Além do efeito rápido, outra vantagem que Valéria aponta para os florais é o preço. "Num mês não gasto mais do que R$ 40,00". A conta é pequena se comparada às despesas com os antibióticos. "Era um drama ir até à farmácia. Mensalmente nunca pagava menos de R$ 150,00".

O médico de Felipe é o clínico-geral Marco Menelau. Há quatro anos utilizando os florais, ele garante que vem colecionando somente resultados positivos. Considera que os casos medicados por ele que tiveram as melhores evoluções, inclusive com cura, foram os de gastrite, dores musculares, insônia e depressão. Se bem que o médico afirma que toda doença pode ser tratada com florais, mesmo as mais graves, como câncer e Aids.

"O objetivo dos florais, que é o mesmo de todas as terapias alternativas, é tratar do doente e não da doença. Para um mesmo problema, podem haver várias alternativas diferentes de tratamento", explica o médico. Ele diz que já prescreveu florais para pelo menos 300 pessoas, inclusive em cidades do interior de Pernambuco. "Tive 100% de sucesso. Porém, agora, como médico, vou obedecer à resolução do CFM", informa.

Não é para menos. O médico que não obedecer e continuar tratando pacientes com as técnicas alternativas responderá a um processo administrativo e pode ter, inclusive, o diploma cassado. Marco Menelau não só medicava com florais como estava criando o próprio sistema de pesquisa. "Estava trabalhando apenas com flores tipicamente nordestinas", diz.

ENERGIA - Não foi exatamente uma doença que fez a advogada Ana Guedes, de 42, também procurar os florais. "Estava desanimada e sem estímulo com o dia-a-dia". Depois de recorrer à terapia, afirma que ficou com energia redobrada. "É uma mudança interna muito forte. Mas acho até que comecei do jeito errado".

Ela conta que uma taróloga foi a primeira pessoa a lhe prescrever os florais. "Quando passei por um médico, que adotava a técnica, vi que não há nada de místico nessa história. O problema é que a medicina convencional ainda não conseguiu explicar por que os resultados são tão bons", argumenta.

A advogada também não pretende deixar de tomar os florais. Vai recorrer aos seus próprios conhecimentos pelo tempo que se medica por essa técnica. Isso porque não pode mais receber a receita do seu médico, o homeopata Marcos Cavalcanti. Ele, por sua vez, enxerga uma luz no fim do túnel com essa proibição.

"Toda essa polêmica pode levar a questão a um tratamento mais profundo. São milhões de pessoas interessadas". Cavalcanti pondera que o médico profissional teria mais condições e conhecimentos para trabalhar com as terapias alternativas. "Afinal, o médico estuda tanto tempo para conhecer as reações do corpo humano. Se uma técnica, qualquer que seja, está apresentando resultados satisfatórios, por que não pesquisam mais antes de proibir?".

POR QUE? - O presidente do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe), Jurandir Dantas, explica que a decisão do CFM é um alerta aos médicos. "Não se pode prescrever um tratamento que não está cientificamente comprovado. Vai contra a ética profissional. Caso alguém o faça, responderá a um processo para que seja avaliada a gravidade de sua conduta", adverte. Ele diz que essa decisão incide apenas sobre o comportamento do médico. "Não cabe ao CFM impor a idéia sobre outros orgãos".

Serviço

Marco Menelau
F.969.2514
Marcos Cavalcanti
F.462.2838
Cremepe
F. 241.5744


     

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