..............................................-Jornal do Commercio - Recife, 01 de novembro de 1998

PROBLEMAS RESPIRATÓRIOS
Poluição da vida moderna leva a um aumento dos casos de asma

Utilizar máscara e nebulizador para mandar medicamento direto para os pulmões, através do vapor, é uma prática tão comum quanto fazer lição de casa para a estudante Giovana Martorelli, de 12 anos. Desde os seis meses de idade, ela sofre de asma, uma doença sem cura que atinge de 8% a 10% da população mundial - na maioria absoluta dos casos (cerca de 70%), crianças de até 7 anos de idade. Elas nem sabem que uma das grandes responsáveis pelo problema é esta tal de vida moderna, que encobre as cidades de fumaça, e enclausura as pessoas em casas cheias de poeira.

Resultado: jovens obrigados pela doença a amadurecer antes do tempo, preparando-se para enfrentar (e tentar evitar) as situações adversas provocadas pela asma. Giovanna, por exemplo, não faz uma viagem sem levar junto o kit que a socorre em crises de falta de ar. Nos dias quentes, tem de se controlar e lembrar que não pode exagerar nos sorvetes e nas bebidas (con)geladas - que a maioria adora - para não pegar uma gripe. "As crises são piores quando eu fico resfriada", explica a estudante. Giovanna não passa, porém, o eterno verão pernambucano "a seco". Pratica natação uma vez por semana, esporte recomendado pelos médicos para aumentar a capacidade pulmonar.

Nadar também é a estratégia do estudante Zivaldo Carvalho, de 14 anos, 7 de asma, que também utiliza o nebulizador contra suas crises, que já foram freqüentes (pelo menos duas por semana) e sempre mobilizaram a família inteira. A mãe dele, a bancária Emília Carvalho, explica que muitas vezes o garoto foi obrigado a faltar às aulas da escola e parar no meio do futebol com os amigos. "Ele acabava ficando chateado de cansar-se antes dos outros", afirma Emília.

De acordo com o médico que o assiste, o alergista Antônio Aguiar Filho, a asma do garoto está "controlada", expressão que significa que as crises são cada vez mais raras. "Nunca o paciente pode dizer que está curado. Ele deve permanecer sempre atento. Mesmo que tenha apenas uma crise. Isso significa que demonstrou predisposição para a doença".

MITOS - Tanto Giovanna como Zivaldo não utilizam a "bombinha", forma aerosol de tomar o medicamento. Suas famílias receiam que a utilização do produto provoque alteração de pressão ou taquicardia. Segundo Antônio Aguiar Filho, essa possibilidade hoje já é um mito. "No passado, alguns produtos não foram bem indicados e causaram esses problemas. A bombinha é a forma mais eficaz de tratamento", garante.

Outro erro que sobrevive é a idéia de que a asma é transmissível de uma pessoa para outra. "Isso não existe, é um absurdo. Ninguém vai contrair a doença pelo contato com alguém que tenha predisposição para o problema (o asmático)", enfatiza o médico.

Esse tipo de "mito", segundo o alergista, ainda tem espaço porque a própria medicina não descobriu tudo sobre a doença - que consiste na obstrução temporária para a passagem de ar - e também porque muitas pesquisas são recentes. O certo é que os cientistas estão cada vez mais preocupados com o aumento da incidência da doença. Prova disso é a realização do Congresso Mundial de Asma, em Barcelona (Espanha) no início de dezembro, do qual Antônio Aguiar Filho será um dos brasileiros a participar.

A asma é provocada pelo estreitamento das vias respiratórias e causada por uma condição inflamatória crônica. As crises podem ser iniciadas por fumaça, pêlo de animais ou qualquer outro componente alérgico que atinge pessoas que possuem predisposição para a doença.

Além disso, é certo que a hereditariedade é uma das causas que leva a alguém ser asmático, só que existem muitas outras que ainda não são conhecidas. "Uma das constatações é que o modo de vida das pessoas está interferindo diretamente nos casos de asma. É grande o número de pessoas sedentárias que me procura no consultório", afirma Antônio Aguiar Filho.

Como especialista de todas as doenças respiratórias, ele garante que vem aumentando especificamente o número de casos de asma em relação às outras complicações. "Hoje, 60% das pessoas que eu recebo estão com asma. Há uns três anos, esse índice não passava de 30%. As cidades estão cada vez mais poluídas e o ar, escasso", diz.

CIMENTO - A asma, vilã que tem como alvo preferencial as crianças, atinge também adultos em qualquer idade. O comerciante João Ribeiro, de 62 anos, sofre da doença "há uns 30 anos".

O problema é que sua atividade comercial da vida inteira não é a mais indicada para quem tem asma: trabalha num armazém de material de construção, mexendo diariamente com areia, cal, cimento e afins. "O importante é estar com o kit (de medicamentos) sempre à mão. Um dia espero que meu médico me dê alta", afirma Ribeiro. (L.C.F.)

Serviço

Antônio Aguiar Filho F. 432.6628


     

Índice | Editorial | Política | Brasil | Internacional | Cidades | Ciência/Meio Ambiente | Esportes | Economia |
Caderno C | Informática | Turismo | Charge | Colunas | Regional | Veículos | Família | Especiais

Últimas Notícias | JC Debate | Roteiro | Weekend | Bate-papo | Tábua de Marés
Fale com o JC | Links | Classificados | Rádio Jornal| Edições Anteriores | Assinantes