- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 28 de outubro de 1998

TELECOMUNICAÇÕES II
Futuro da telefonia pode estar na iNet

por BENIRA MAIA
benira@jc.com.br

VoIP. Essas quatro letras representam a "mágica" que pesquisadores, usários, provedores e empresas de telefonia e de tecnologia de redes têm sonhado, centrado foco e investido alguns milhões de dólares. O termo significa literalmente "Voz sobre IP" e traduz a possibilidade de utilizar a Internet para ligações telefônicas. Na prática, aponta para um futuro onde todas as chamadas de um usuário doméstico - mesmo entre Olinda e o Egito, por exemplo - se transformem em ligações locais. Aponta também para um cenário onde empresas interligadas em redes próprias não mais pagarão por seus telefonemas.

O futuro da telecomunicação utilizando o protocolo da IP (Internet Protocol) já está sendo traçado pelas empresas - tanto as desenvolvedoras quanto as pretendentes a usuárias. Pesquisa divulgada pela 3Com, vice-líder mundial do segmento de redes, indica que, em 2001, firmas de equipamentos e soluções para a telefonia IP vão faturar em torno de US$ 4,2 bilhões. Dados da IDC mostram que as empresas somarão, nos próximos três anos, um faturamento de quase US$ 20,5 bilhões. "O mercado é grande e abre novas perspectivas", afirma o diretor de Marketing da 3Com no Brasil, Anderson André.

A utilização do IP para a telefonia está definido pela União Internacional de Telecomunicações (ITU) na norma H323. Na prática, fica permitida a comunicação telefone para computador - esse terá que possuir com kit multimídia; computador para telefone; e computador para computador. A comunicação é estabelecida por uma porta de entrada, o gateway. Com placas decodificadoras, essa CPU transforma o sinal de voz na comunicação digital dos computadores e vice-versa.

Com um gateway em cada escritório fazendo a ponte entre o servidor e a central telefônica, uma empresa que tenha suas filiais interligadas em rede poderá comunicar-se internamente. Nesse caso, estará arcando apenas com sua estrutura de rede de dados - a maioria aluga linha privativa à operadora de telecomunicações. Atualmente, a Telpe cobra R$ 1.933,30 por um link de 64 Kbps saindo do Recife para Caruaru; para Petrolina, a mensalidade fica em R$ 3.068,41. No caso de uma linha de 2 Mbps, os valores sobem - para Caruaru varia de pouco mais de R$ 20 mil para R$ 24,5 mil.

O valor de um link dedicado é caro? Para a empresas que já usam rede de dados, poder trafegar voz por esse mesmo canal soa como um sinal de redução de custos. Porque, com rede privada e a voz em IP, o gasto com os telefonemas internos entre as filiais ficaria zero. A Caixa Econômica Federal prevê em seu novo projeto de informatização que os telefonemas dados entre as suas centrais sejam pela rede de dados, gerando uma economia alta. Somente no prédio do Cais da Guararapes, no Recife, a conta telefônica foi quase R$ 47 mil no mês passado. "O uso do VoIP era para ontem", diz, entusiasmado, o supervisor de Suporte Tecnológico da CEF em Pernambuco, Augusto Maranhão.

Com vinte circuitos Transdata, da Embratel, ligando as filiais à sede, no Rio de Janeiro, a Unisys está empolgada com a possibilidade de telefonar via protocolo da Internet. Hoje a empresa usa multiplexadores que comprimem e decodificam a voz, mas os gateways para IP surgem como alternativa mais barata. "Vamos ter uma economia anual de cem mil reais", estima o gerente de Telecomunicações da empresa, Dirley Freitas.

A Unisys pretende utilizar soluções da norte-americana Micon. Para começar a operar no primeiro trimestre de 99, já iniciou testes entre Rio e Manaus. Segundo Freitas, o efeito de latência (atraso na voz) foi de 200 milesegundos - equivalente a 1/5 de um segundo - e a meta é ficar entre 90 a 100. "Mas, como a rede é minha, posso controlar, reservando mais largura de banda, por exemplo", afirma.

Dona de uma rede própria interligando Ceará, Pernambuco e Bahia - não paga aluguel de linha -, a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) também tem planos de telefonar via IP. "Até o final do ano, estaremos começando os testes", conta o gerente da Divisão de Expansão de Telecomunicações, Herivélton Macedo. Se não há economia de recurso, para que trafegar a voz junto à rede de dados? "Estaremos trabalhando com uma interface única", resume o engenheiro George Spencer.

A VoIP não passa despercebida nos meios acadêmicos. O Departamento de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) busca uma parceria com empresas que desenvolvam soluções nessa área. A idéia está sendo levada a cabo pelo especialista e professor da cadeira de redes Djamel Sadok. O professor quer desenvolver um projeto piloto com VoIP. "Queremos experimentar a segurança e a qualidade dessas ligações, além de desenvolver e testar algumas aplicações", afirma.


 

 

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