ENTREVISTA / Egídio Ferreira
Lima
"A
aliança de Jarbas com Maciel e
Magalhães é
circunstancial"O advogado e
ex-deputado federal Egídio
Ferreira Lima, 69 anos, fundador
do PSDB, é o que pode se chamar
de um
"tucano-jarbista". A
dominação não o constrange já
que ele sempre foi, entre os
tucanos, uma voz
"moderada" - capaz de
avaliar possibilidades. Um
exemplo disso foi quando, ainda
no PMDB, na defesa de uma
configuração de centro-esquerda
para o partido, fez surgir o
PSDB. Junto com ele estava a
elite (como ele mesmo define) da
legenda: Pimenta da Veiga,
Teotônio Vilela, José Richa,
Mário Covas, o presidente
Fernando Henrique Cardoso e
outros. A denominação
tucano-jarbista não é apenas
pelos "confetes" que
agora lança para o governador
eleito Jarbas Vasconcelos. Essa
admiração denota uma sintonia
ideológico-política que os une.
Egídio, inclusive, aposta que,
"cedo ou tarde", Jarbas
ingressará no PSDB, ou que o
PSDB convergirá com o governador
eleito para um mesmo caminho.
Nessa entrevista à repórter Ana
Lúcia Andrade - que o
ex-deputado resistiu a conceder,
por se considerar "fora da
seara política" - ele faz
uma leitura das urnas nas
eleições estaduais, comenta o
futuro Governo Jarbas/PFL e
avalia as conseqüências da
derrota de Carlos Wilson para o
partido e para o futuro do
senador. Só não emitiu opinião
sobre a possível postura tucana
de oposição a Jarbas.
Jornal do
Commercio - Qual a avaliação
que o sr. faz do resultado das
eleições em Pernambuco?
Egídio
Ferreira Lima - Para mim, foi
um resultado normal, previsível.
Jarbas teve habilidade para
administrar vários fatores.
Percebeu a situação do País,
juntou o seu prestígio e o
lastro eleitoral de que é
portador para compor essa frente
com o PFL, sem precisar deixar o
PMDB. Jarbas percebeu também o
desgaste de Arraes e se pôs no
veio da anuência popular. O
governador Miguel Arraes sofreu a
conseqüência de não perceber
que estava desgastado pela
reiteração do poder. O
resultado das urnas dá uma
legitimidade muito forte a Jarbas
porque é concreto como pedra.
Isso é muito bom, vai lhe dar
vontade de agir com acerto, e com
desagrado, se for necessário.
JC - Então,
Jarbas venceu porque foi hábil?
Não foi uma vitória da
rejeição ao governador Miguel
Arraes, como defendem os tucanos?
Egídio -
Arraes não foi rejeitado. Ele se
exauriu. Mas não concordo com
algumas críticas que lhes são
feitas, como a de que não soube
governar o Estado, ou que agiu
com desonestidade (Escândalo dos
Precatórios). Arraes tem um
papel na história. E nessa hora,
em que ele volta para o aconchego
do seu lar, não se pode esquecer
que ele sintetizou, no passado, o
pensamento do povo brasileiro
pelas reformas. Esse é o capital
de Arraes, nessa hora em que ele
se retira. Mas Jarbas, embora no
aceno da luta seja muito
temperamental, tem sopro
próprio. Do nada, ele faz nascer
ações administrativas que
repercutem. Ele tem a capacidade
de escolher assessores, de
delegar funções, ele dá
liberdade. Suas atitudes, até
quando radicais, são claras e
objetivas.
JC - Ele
agiu com clareza e objetividade
quando decidiu se aliar com o
PFL?
Egídio -
No regime democrático, os
partidos se coligam à esquerda e
à direita. Acabou-se a dicotomia
apaixonada. Essa dicotomia se
rendeu ao que é fértil. Jarbas
fez uma coligação eleitoral e
para governar. Sem isso, ele
dificilmente chegaria ao poder. E
foi isso que Arraes não
percebeu. Isso não quer dizer
que Jarbas fez concessão. O PFL
vai tirar dividendos dessa
coalizão, mas não será Jarbas
que vai perder a autonomia. Ele
é forte e tem muito claro os
limites dessa aliança.
JC - O sr.
definiria Jarbas como um
político moderno?
Egídio -
Acho que sim. Jarbas não tem
heranças passadas, nem mesmo as
dos movimentos pessedistas ou
udenistas. Jarbas praticamente
nasceu e se criou no alvorecer da
liberdade. Ele não sofreu as
lesões decorrentes da 2ª Guerra
Mundial e ele faz parte da
geração pós-guerra. E ainda se
beneficiou dos conflitos internos
do País: a ditadura e o surto
libertário. Seguramente,
políticos como José Serra,
Pimenta da Veiga, Mário Covas e
Fernando Henrique fazem parte
dessa geração.
JC - O sr.
não vê riscos no Governo de
Jarbas com o PFL?
Egídio -
Que nada. Olhe para o
vice-presidente Marco Maciel e
vamos ficar só nele. Qual foi o
mal de Maciel? Ele tem seus
méritos políticos, que você
pode até não julgar corretos.
Mas ele tem um papel dentro do
processo, e é um papel notável.
É um liberal, que já teve sua
época. Hoje não tem sentido.
Mas ele é autêntico.
Pessoalmente, não se encontra em
Maciel conduta de perseguição a
"A" ou "B".
Não se pode dizer que ele
concordou com a tortura, com a
perseguição. Ele é um bom
chefe de família. É um modelo
de classe média. Não é
injúria para ninguém fazer uma
aliança circunstancial com
Maciel ou com Roberto Magalhães
(prefeito do Recife).
JC - Então
o sr. acredita que a aliança
PMDB/PFL é circunstancial?
Egídio -
Acho. Porque Jarbas vai encontrar
outro caminho.
JC - Que
caminho?
Egídio -
Ele ingressará no PSDB ou em
outro partido com essa
configuração de
centro-esquerda. Até porque o
PMDB está sepultado como
partido. Mas é pela sua conduta
até hoje, mesmo. Reiterada pelo
combate ao regime autoritário.
Jarbas não tem nada que o
compromete. Ele conseguiu
sensibilizar os movimentos
populares e as instituições
sociais. Se legitimou tanto pelo
voto popular quanto pelo
exercício do poder.
JC - Como o
sr. avalia a decisão do senador
Carlos Wilson de disputar o
Governo do Estado?
Egídio -
Foi um equívoco. Ele poderia ter
se coligado a Jarbas,
independente do PFL. Se ele
tivesse tido uma votação
expressiva, a gente até
entenderia, foi pelo partido. Mas
não aconteceu. A polarização
é inarredável. Em Pernambuco,
é o sim e o não. É um
fenômeno que tem se firmado em
todos os pleitos: depois do
Estado Novo com Cleto Campelo e
Barbosa Lima Sobrinho; em 50,
Agamenon Magalhães e João
Cleofas; em 54, Cordeiro de
Farias e João Cleofas...
JC - E
Carlos Wilson não percebeu isso
ou foi por intransigência?
Egídio -
Eu não diria isso. Foi apenas um
equívoco.
JC - A
justificativa dos tucanos é de
que a candidatura foi necessária
para que Carlos Wilson não
perdesse o comando do PSDB para
Jarbas.
Egídio -
Isso é uma coisa menor, não
quero entrar nisso.
JC - Mas o
sr. vê uma certa lógica nessa
tese?
Egídio -
Não quero entrar nas
motivações pessoais. Eu
acredito muito mais que Carlos
Wilson esperou que Arraes não
seria candidato e o apoiaria. Se
tivesse acontecido ele teria
polarizado com Jarbas. E mesmo
perdido, teria feito a jogada
certa. Carlos Wilson correu
riscos. Só que os riscos
precisam ser calculados, senão a
gente se esfacela. Carlos Wilson
perdeu a densidade eleitoral e
política que conquistou na
eleição para o Senado.
JC - Que
postura de oposição ao Governo
Jarbas o sr. recomendaria ao
PSDB?
Egídio -
Eu não quero entrar nisso. Só
sei que todo governo tem de ter
oposição. Houve uma certa
unanimidade com o ex-presidente
Tancredo Neves e ele mesmo
estimulou a formação de uma
oposição. Mas o PSDB, cedo ou
tarde, se comporá com Jarbas.
Convergirá para o mesmo destino,
o mesmo leito. Até porque os
melhores quadros do PSDB, da
nacional do partido, torceram por
Jarbas.
JC - E foi
uma postura correta do partido? O
PSDB tinha um candidato próprio.
Egídio -
Foi. Jarbas era o candidato que,
doutrinariamente, politicamente e
substancialmente, pensava como
eles. Carlos Wilson ficou numa
política doméstica. Ele devia
ter ficado com Jarbas, fechado os
olhos para o PFL. Não teve o
menor sentido a sua candidatura.
JC - O PSDB
está determinado a se consolidar
como um partido de oposição ao
Governo Jarbas, embora não tenha
a disposição de fazer uma
oposição fechada?
Egídio -
Esses alentos pessoais, fruto de
desagravos de campanha, são
efêmeros. Se perdem no caminho
do processo. O processo tem vida
própria. Desde quando sensatez
foi qualidade de político?
Político tem de ser visionário,
tem de sonhar...
JC - Mas
esse agora é o sonho do PSDB,
não?
Egídio -
Você acha isso um sonho? É um
pesadelo. Eu tenho uma visão de
que estamos vivendo uma fase
fascinante, promissora. O País
acertou com a Constituição de
88. Não fosse ela o desmantelo
teria se feito: a retomada do
regime militar autoritário.
Estamos na busca dolorosa do
desenvolvimento econômico e das
igualdades sociais. E o caminho
está certo. Não se pode acertar
mais do que o presidente Fernando
Henrique está acertando. Ele
perdeu alguns adjetivos. Algumas
vezes, até perdeu uns anéis,
mas tem salvado os dedos.