- - -- - - - - - - -- - - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 02 de novembro de 1998

ENTREVISTA / Egídio Ferreira Lima
"A aliança de Jarbas com Maciel e Magalhães é circunstancial"

O advogado e ex-deputado federal Egídio Ferreira Lima, 69 anos, fundador do PSDB, é o que pode se chamar de um "tucano-jarbista". A dominação não o constrange já que ele sempre foi, entre os tucanos, uma voz "moderada" - capaz de avaliar possibilidades. Um exemplo disso foi quando, ainda no PMDB, na defesa de uma configuração de centro-esquerda para o partido, fez surgir o PSDB. Junto com ele estava a elite (como ele mesmo define) da legenda: Pimenta da Veiga, Teotônio Vilela, José Richa, Mário Covas, o presidente Fernando Henrique Cardoso e outros. A denominação tucano-jarbista não é apenas pelos "confetes" que agora lança para o governador eleito Jarbas Vasconcelos. Essa admiração denota uma sintonia ideológico-política que os une. Egídio, inclusive, aposta que, "cedo ou tarde", Jarbas ingressará no PSDB, ou que o PSDB convergirá com o governador eleito para um mesmo caminho. Nessa entrevista à repórter Ana Lúcia Andrade - que o ex-deputado resistiu a conceder, por se considerar "fora da seara política" - ele faz uma leitura das urnas nas eleições estaduais, comenta o futuro Governo Jarbas/PFL e avalia as conseqüências da derrota de Carlos Wilson para o partido e para o futuro do senador. Só não emitiu opinião sobre a possível postura tucana de oposição a Jarbas.

Jornal do Commercio - Qual a avaliação que o sr. faz do resultado das eleições em Pernambuco?

Egídio Ferreira Lima - Para mim, foi um resultado normal, previsível. Jarbas teve habilidade para administrar vários fatores. Percebeu a situação do País, juntou o seu prestígio e o lastro eleitoral de que é portador para compor essa frente com o PFL, sem precisar deixar o PMDB. Jarbas percebeu também o desgaste de Arraes e se pôs no veio da anuência popular. O governador Miguel Arraes sofreu a conseqüência de não perceber que estava desgastado pela reiteração do poder. O resultado das urnas dá uma legitimidade muito forte a Jarbas porque é concreto como pedra. Isso é muito bom, vai lhe dar vontade de agir com acerto, e com desagrado, se for necessário.

JC - Então, Jarbas venceu porque foi hábil? Não foi uma vitória da rejeição ao governador Miguel Arraes, como defendem os tucanos?

Egídio - Arraes não foi rejeitado. Ele se exauriu. Mas não concordo com algumas críticas que lhes são feitas, como a de que não soube governar o Estado, ou que agiu com desonestidade (Escândalo dos Precatórios). Arraes tem um papel na história. E nessa hora, em que ele volta para o aconchego do seu lar, não se pode esquecer que ele sintetizou, no passado, o pensamento do povo brasileiro pelas reformas. Esse é o capital de Arraes, nessa hora em que ele se retira. Mas Jarbas, embora no aceno da luta seja muito temperamental, tem sopro próprio. Do nada, ele faz nascer ações administrativas que repercutem. Ele tem a capacidade de escolher assessores, de delegar funções, ele dá liberdade. Suas atitudes, até quando radicais, são claras e objetivas.

JC - Ele agiu com clareza e objetividade quando decidiu se aliar com o PFL?

Egídio - No regime democrático, os partidos se coligam à esquerda e à direita. Acabou-se a dicotomia apaixonada. Essa dicotomia se rendeu ao que é fértil. Jarbas fez uma coligação eleitoral e para governar. Sem isso, ele dificilmente chegaria ao poder. E foi isso que Arraes não percebeu. Isso não quer dizer que Jarbas fez concessão. O PFL vai tirar dividendos dessa coalizão, mas não será Jarbas que vai perder a autonomia. Ele é forte e tem muito claro os limites dessa aliança.

JC - O sr. definiria Jarbas como um político moderno?

Egídio - Acho que sim. Jarbas não tem heranças passadas, nem mesmo as dos movimentos pessedistas ou udenistas. Jarbas praticamente nasceu e se criou no alvorecer da liberdade. Ele não sofreu as lesões decorrentes da 2ª Guerra Mundial e ele faz parte da geração pós-guerra. E ainda se beneficiou dos conflitos internos do País: a ditadura e o surto libertário. Seguramente, políticos como José Serra, Pimenta da Veiga, Mário Covas e Fernando Henrique fazem parte dessa geração.

JC - O sr. não vê riscos no Governo de Jarbas com o PFL?

Egídio - Que nada. Olhe para o vice-presidente Marco Maciel e vamos ficar só nele. Qual foi o mal de Maciel? Ele tem seus méritos políticos, que você pode até não julgar corretos. Mas ele tem um papel dentro do processo, e é um papel notável. É um liberal, que já teve sua época. Hoje não tem sentido. Mas ele é autêntico. Pessoalmente, não se encontra em Maciel conduta de perseguição a "A" ou "B". Não se pode dizer que ele concordou com a tortura, com a perseguição. Ele é um bom chefe de família. É um modelo de classe média. Não é injúria para ninguém fazer uma aliança circunstancial com Maciel ou com Roberto Magalhães (prefeito do Recife).

JC - Então o sr. acredita que a aliança PMDB/PFL é circunstancial?

Egídio - Acho. Porque Jarbas vai encontrar outro caminho.

JC - Que caminho?

Egídio - Ele ingressará no PSDB ou em outro partido com essa configuração de centro-esquerda. Até porque o PMDB está sepultado como partido. Mas é pela sua conduta até hoje, mesmo. Reiterada pelo combate ao regime autoritário. Jarbas não tem nada que o compromete. Ele conseguiu sensibilizar os movimentos populares e as instituições sociais. Se legitimou tanto pelo voto popular quanto pelo exercício do poder.

JC - Como o sr. avalia a decisão do senador Carlos Wilson de disputar o Governo do Estado?

Egídio - Foi um equívoco. Ele poderia ter se coligado a Jarbas, independente do PFL. Se ele tivesse tido uma votação expressiva, a gente até entenderia, foi pelo partido. Mas não aconteceu. A polarização é inarredável. Em Pernambuco, é o sim e o não. É um fenômeno que tem se firmado em todos os pleitos: depois do Estado Novo com Cleto Campelo e Barbosa Lima Sobrinho; em 50, Agamenon Magalhães e João Cleofas; em 54, Cordeiro de Farias e João Cleofas...

JC - E Carlos Wilson não percebeu isso ou foi por intransigência?

Egídio - Eu não diria isso. Foi apenas um equívoco.

JC - A justificativa dos tucanos é de que a candidatura foi necessária para que Carlos Wilson não perdesse o comando do PSDB para Jarbas.

Egídio - Isso é uma coisa menor, não quero entrar nisso.

JC - Mas o sr. vê uma certa lógica nessa tese?

Egídio - Não quero entrar nas motivações pessoais. Eu acredito muito mais que Carlos Wilson esperou que Arraes não seria candidato e o apoiaria. Se tivesse acontecido ele teria polarizado com Jarbas. E mesmo perdido, teria feito a jogada certa. Carlos Wilson correu riscos. Só que os riscos precisam ser calculados, senão a gente se esfacela. Carlos Wilson perdeu a densidade eleitoral e política que conquistou na eleição para o Senado.

JC - Que postura de oposição ao Governo Jarbas o sr. recomendaria ao PSDB?

Egídio - Eu não quero entrar nisso. Só sei que todo governo tem de ter oposição. Houve uma certa unanimidade com o ex-presidente Tancredo Neves e ele mesmo estimulou a formação de uma oposição. Mas o PSDB, cedo ou tarde, se comporá com Jarbas. Convergirá para o mesmo destino, o mesmo leito. Até porque os melhores quadros do PSDB, da nacional do partido, torceram por Jarbas.

JC - E foi uma postura correta do partido? O PSDB tinha um candidato próprio.

Egídio - Foi. Jarbas era o candidato que, doutrinariamente, politicamente e substancialmente, pensava como eles. Carlos Wilson ficou numa política doméstica. Ele devia ter ficado com Jarbas, fechado os olhos para o PFL. Não teve o menor sentido a sua candidatura.

JC - O PSDB está determinado a se consolidar como um partido de oposição ao Governo Jarbas, embora não tenha a disposição de fazer uma oposição fechada?

Egídio - Esses alentos pessoais, fruto de desagravos de campanha, são efêmeros. Se perdem no caminho do processo. O processo tem vida própria. Desde quando sensatez foi qualidade de político? Político tem de ser visionário, tem de sonhar...

JC - Mas esse agora é o sonho do PSDB, não?

Egídio - Você acha isso um sonho? É um pesadelo. Eu tenho uma visão de que estamos vivendo uma fase fascinante, promissora. O País acertou com a Constituição de 88. Não fosse ela o desmantelo teria se feito: a retomada do regime militar autoritário. Estamos na busca dolorosa do desenvolvimento econômico e das igualdades sociais. E o caminho está certo. Não se pode acertar mais do que o presidente Fernando Henrique está acertando. Ele perdeu alguns adjetivos. Algumas vezes, até perdeu uns anéis, mas tem salvado os dedos.


     

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