CENÁRIO POLÍTICO
Partidos
aparam as arestas e definem
postura diante do ajustepor VALENTINA
PINHEIRO
Da Sucursal de Brasília
Vencida a
batalha pelos votos do
eleitorado, os partidos
políticos se preparam para
contabilizar as baixas e festejar
as conquistas. Na próxima
semana, as principais legendas
reúnem suas executivas,
governadores atuais e os
recém-eleitos governantes para
analisar o resultado das urnas e
traçar as linhas mestras de
atuação dos partidos frente às
medidas do Programa de
Estabilidade Fiscal do Governo
Federal. Além dos objetivos
explícitos, as reuniões vão
servir para aparar as arestas
criadas durante o processo
eleitoral e estabelecer
estratégias de ampliação dos
espaços de poder.
A simples
leitura dos números que emergem
da eleição não revela a
verdadeira correlação de
forças do poder no cenário
nacional. Há variáveis no
horizonte das forças políticas
que irão influir no quinhão de
poder que a elas caberá no
futuro próximo. A sucessão
presidencial de 2002, ainda que
pareça distante, joga um papel
decisivo na rearrumação dos
blocos parlamentares no tabuleiro
da política nacional. A
distribuição de cargos nos 1º
e 2º escalões do segundo
Governo FHC é outra variável
importante para entender a nova
articulação dos partidos no
Congresso Nacional.
BLOCO
PARLAMENTAR - O PFL e PPB,
comandados por Antônio Carlos
Magalhães e Paulo Maluf, já
discutem a criação de um bloco
parlamentar que envolveria,
ainda, o PTB e o PL. Segundo
eles, a iniciativa não
compromete o alinhamento com o
Poder Executivo. Ao contrário,
fortalece a estabilidade da
maioria governista. Respaldados
na força do bloco - 209
deputados e quase um terço do
Senado Federal, incluindo PTB e
PL -, eles estariam dispostos,
porém, a exigir uma maior
participação no Governo e no
Congresso. Isoladamente, o PPB
terá, na nova legislatura, 60
deputados federais, cinco
senadores e dois governadores.
Enquanto que o PFL contará com
106 deputados federais, 19
senadores e seis governadores.
A possível
reaglutinação dos partidos de
centro-direita tem um objetivo de
longo prazo: forjar uma
alternativa de poder para as
eleições presidenciais de 2002.
Dentro do PPB há resistências
à formação do bloco
parlamentar. Elas vêm,
sobretudo, da bancada no
Congresso Nacional que ainda não
vê vantagem na união. Se
vingar, o bloco poderá vir a ser
um embrião de um novo partido a
ser criado após as eleições
municipais.
O indiscutível
sucesso do PSDB nas urnas - 99
deputados federais, 16 senadores
e sete governadores - aguçou o
desejo dos tucanos de voar para
outros galhos. A busca de uma
postura mais independente frente
aos partidos da aliança que
elegeu FHC significará, no curto
prazo, briga por uma maior fatia
do poder, de cargos na
composição das mesas no
Congresso e vagas no ministério
do 2º Governo FHC. A longo
prazo, o que está no tabuleiro
é, mais uma vez, a sucessão de
FHC.
A guinada à
esquerda dos tucanos tem um
elemento chave: o governador
reeleito de São Paulo, Mário
Covas (PSDB). Ele nunca engoliu
satisfeito os aliados do PSDB no
poder. Eleito, graças à adesão
da oposição a sua candidatura,
Covas já manifestou o desejo de
contar com secretários dos
partidos de esquerda e
implementar no seu governo
propostas do programa dos
petistas. Um bom governo dará a
Covas o passaporte para pleitar a
Presidência. Os tucanos sabem
que precisam de um nome forte
para enfrentar ACM em 2002. Como
o espaço de centro-direita será
o de ACM, a alternativa será
reafirmar o discurso de
centro-esquerda.
DERROTA -
O PMDB foi o grande derrotado das
eleições. Perdeu governos
estaduais - tinha oito e caiu
para seis - e encolheu a bancada
de deputados federais e
estaduais, tendo passado, na
Câmara Federal, de 88 para 82
cadeiras. No Senado, a única boa
nova: ampliou sua representação
de 22 para 27. Os derrotados da
legenda atribuem a performance,
que eles consideram razoável, à
ausência de candidatura própria
à Presidência. Itamar Franco,
ex-presidente da República e
governador eleito de Minas
Gerais, afina o coro dos
descontentes e chega a defender o
afastamento do Governo. Outra
ala, mais governista, enxerga na
aproximação com os tucanos a
saída para se contrapor à
força do bloco parlamentar
PFL/PPB.
Os
oposicionistas não perderam
tempo. De um lado, os seis
governadores eleitos pelos
partidos de esquerda - três do
PT, dois do PSB e um do PDT -
reuniram-se, em Brasília, e
fecharam uma postura crítica ao
ajuste fiscal. Por outro lado, o
presidente nacional do PDT,
Leonel Brizola, defende a
permanência da coligação de
forças que apoiou Lula. A idéia
é congregar os partidos numa
espécie de federação sob a
égide do PT - quem mais cresceu
na eleição: 58 deputados
federais, oito a mais do que
tinha; sete senadores, dois a
mais, e três governadores.