- - -- - - - - - - -- - - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 02 de novembro de 1998

CENÁRIO POLÍTICO
Partidos aparam as arestas e definem postura diante do ajuste

por VALENTINA PINHEIRO
Da Sucursal de Brasília

Vencida a batalha pelos votos do eleitorado, os partidos políticos se preparam para contabilizar as baixas e festejar as conquistas. Na próxima semana, as principais legendas reúnem suas executivas, governadores atuais e os recém-eleitos governantes para analisar o resultado das urnas e traçar as linhas mestras de atuação dos partidos frente às medidas do Programa de Estabilidade Fiscal do Governo Federal. Além dos objetivos explícitos, as reuniões vão servir para aparar as arestas criadas durante o processo eleitoral e estabelecer estratégias de ampliação dos espaços de poder.

A simples leitura dos números que emergem da eleição não revela a verdadeira correlação de forças do poder no cenário nacional. Há variáveis no horizonte das forças políticas que irão influir no quinhão de poder que a elas caberá no futuro próximo. A sucessão presidencial de 2002, ainda que pareça distante, joga um papel decisivo na rearrumação dos blocos parlamentares no tabuleiro da política nacional. A distribuição de cargos nos 1º e 2º escalões do segundo Governo FHC é outra variável importante para entender a nova articulação dos partidos no Congresso Nacional.

BLOCO PARLAMENTAR - O PFL e PPB, comandados por Antônio Carlos Magalhães e Paulo Maluf, já discutem a criação de um bloco parlamentar que envolveria, ainda, o PTB e o PL. Segundo eles, a iniciativa não compromete o alinhamento com o Poder Executivo. Ao contrário, fortalece a estabilidade da maioria governista. Respaldados na força do bloco - 209 deputados e quase um terço do Senado Federal, incluindo PTB e PL -, eles estariam dispostos, porém, a exigir uma maior participação no Governo e no Congresso. Isoladamente, o PPB terá, na nova legislatura, 60 deputados federais, cinco senadores e dois governadores. Enquanto que o PFL contará com 106 deputados federais, 19 senadores e seis governadores.

A possível reaglutinação dos partidos de centro-direita tem um objetivo de longo prazo: forjar uma alternativa de poder para as eleições presidenciais de 2002. Dentro do PPB há resistências à formação do bloco parlamentar. Elas vêm, sobretudo, da bancada no Congresso Nacional que ainda não vê vantagem na união. Se vingar, o bloco poderá vir a ser um embrião de um novo partido a ser criado após as eleições municipais.

O indiscutível sucesso do PSDB nas urnas - 99 deputados federais, 16 senadores e sete governadores - aguçou o desejo dos tucanos de voar para outros galhos. A busca de uma postura mais independente frente aos partidos da aliança que elegeu FHC significará, no curto prazo, briga por uma maior fatia do poder, de cargos na composição das mesas no Congresso e vagas no ministério do 2º Governo FHC. A longo prazo, o que está no tabuleiro é, mais uma vez, a sucessão de FHC.

A guinada à esquerda dos tucanos tem um elemento chave: o governador reeleito de São Paulo, Mário Covas (PSDB). Ele nunca engoliu satisfeito os aliados do PSDB no poder. Eleito, graças à adesão da oposição a sua candidatura, Covas já manifestou o desejo de contar com secretários dos partidos de esquerda e implementar no seu governo propostas do programa dos petistas. Um bom governo dará a Covas o passaporte para pleitar a Presidência. Os tucanos sabem que precisam de um nome forte para enfrentar ACM em 2002. Como o espaço de centro-direita será o de ACM, a alternativa será reafirmar o discurso de centro-esquerda.

DERROTA - O PMDB foi o grande derrotado das eleições. Perdeu governos estaduais - tinha oito e caiu para seis - e encolheu a bancada de deputados federais e estaduais, tendo passado, na Câmara Federal, de 88 para 82 cadeiras. No Senado, a única boa nova: ampliou sua representação de 22 para 27. Os derrotados da legenda atribuem a performance, que eles consideram razoável, à ausência de candidatura própria à Presidência. Itamar Franco, ex-presidente da República e governador eleito de Minas Gerais, afina o coro dos descontentes e chega a defender o afastamento do Governo. Outra ala, mais governista, enxerga na aproximação com os tucanos a saída para se contrapor à força do bloco parlamentar PFL/PPB.

Os oposicionistas não perderam tempo. De um lado, os seis governadores eleitos pelos partidos de esquerda - três do PT, dois do PSB e um do PDT - reuniram-se, em Brasília, e fecharam uma postura crítica ao ajuste fiscal. Por outro lado, o presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, defende a permanência da coligação de forças que apoiou Lula. A idéia é congregar os partidos numa espécie de federação sob a égide do PT - quem mais cresceu na eleição: 58 deputados federais, oito a mais do que tinha; sete senadores, dois a mais, e três governadores.


     

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