- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 01 de novembro de 1998

HISTÓRIA II
Asa Branca é a recordista em acidentes no Sertão do Araripe

por CLÁUDIA PARENTE
Correspondente

EXU - Tudo na Rodovia Asa, que começa na divisa com o Ceará e vai até o Trevo de Jutaí, no Sertão do São Francisco, é diferente do que deveria ser, a começar pelas dimensões. A pista tem apenas seis metros de largura - quando o correto seria pelo menos sete. Os acostamentos, que originalmente tinham um metro e meio de cada lado, enquanto as demais rodovias possuem dois e meio, desapareceram engolidos pelo mato e pelas cercas. Por causa da seca, os fazendeiros da região tiveram a infeliz idéia de puxar a cerca de suas propriedades até as margens do asfalto para que o gado pudesse pastar. "Não tínhamos conhecimento dessas cercas junto à pista", confessa o chefe de fiscalização e policiamento da Polícia Rodoviária Federal, Rinaldo Barros, explicando que as cercas são permitidas para evitar que os animais transitem na pista. "Mas existem os limites que devem ser obedecidos".

Outro problema são os buracos. Um deles, localizado há 12 Km da divisa com o Ceará, já adquiriu fama trágica. O buraco assassino, que ocupa quase totalmente as duas vias da BR, provocou três acidentes em um mês, incluindo uma vítima fatal. Morador de uma casinha a cerca de 500 metros do macabro buraco, o agricultor Francisco Ferreira Brás, 31, já testemunhou por duas vezes o que pode acontecer com os motoristas desavisados que passam pelo local. O agricultor voltava da roça num final de tarde, no mês de agosto passado, quando cruzou com um caminhão. "Vi quando o motorista tentou desviar do buraco e acabou saindo da pista. Quando tentou voltar, a carga pendeu para o lado fazendo o veículo tombar", lembra. Francisco conta que ainda correu para socorrer o motorista, que havia caído fora do carro, mas ele já estava morto. "Se não tomarem providências, outras pessoas vão morrer nesse lugar", acredita.

ÍNDICES - Dos 69 acidentes que aconteceram na Rodovia Asa Branca este ano, envolvendo 99 veículos, 18 deles foram causados unicamente por causa de defeitos existentes na via. Entre as 21 capotangens ocorridas, é possível que algumas sejam atribuídas ao mesmo problema. Na avaliação de Rinaldo Barros esse indice é preocupante, embora as condições precárias da rodovia sugiram a possibilidade de números ainda mais alarmantes. "O ideal é que não ocorra acidente nenhum nas rodovias", afirma. Difícil na Asa Branca, onde apesar das curvas fechadas e dos longos trechos em declive, nunca houve guard rail (proteção lateral), nem há qualquer sinalização.

Até a residência mais ilustre que tem como endereço a BR-122, não escapou da devastação. O asfalto na frente do Parque Asa Branca, lar do cantor homenageado, está tão deteriorado, que soa estranho o verso de Luiz Gonzaga, escolhido para dar boas-vindas aos visitantes. Para quem vê a placa enorme onde está escrito "aqui deixei ficar meu coração", a primeira idéia que vem à mente não é de uma declaração de amor à terra natal e, sim, um indício de mais um acidente.

Próximo ao local turístico, talvez no ponto mais fascinante da rodovia - aquele onde um fenômeno de magnetismo ou uma enganosa ilusão de ótica faz com que um carro seja capaz de subir uma serra sozinho -, está um dos pontos mais perigosos da BR-122. Mais ou menos no Km 25, na subida da Serra do Araripe, qualquer deslumbramento com os ipês roxos que enfeitam a paisagem pode ser fatal. Neste lugar foram registrados dois acidentes em um mesmo dia somente este mês. O instalador Antonio Lopes Monteiro, 44, tentava fazer a curva fechada e esburacada da ladaira, quando o seu Chevete começou a descer de marcha-ré, sem conseguir subir. O instalador despencou com o carro no abismo morrendo em seguida.

Cerca de uma hora hora depois foi a vez do bancário Damião Severino de Carvalho sair dali como vítima. "Trafegava normalmente, quando numa curva fechada, perto do local do acidente, o pneu estourou. Perdi o controle do carro e sai da pista. Em seguida, o carro capotou", conta Damião, ainda atônito com a ocorrência.

Segundo Raimundo Siqueira, inspetor adjunto do posto da PRF, em Ouricuri, que tem a jurisdição da Rodovia Asa Branca, nos 95 km entre a divisa com o Ceará até da cidade de Ouricuri, o problema são os buracos, os animais e a falta de acostamento. No trecho restante entre Ouricuri e Jutaí, além dos buracos e da falta de acostamento, acrescentam-se os assaltos. "Para o lado que você for é perigoso", diz. Basta prestar atenção nas cruzes à beira do caminho para confirmar as palavras do inspetor. Ou quem sabe, ouvir as histórias de quem perdeu algum parente.

"Minha mãe voltava para casa a pé em companhia de uma amiga, quando foram colhidas por uma Caravam. Morreram na hora", lembra com tristeza o agricultor Francisco Lacerda da Silva, mostrando a cruz colocada no local da tragédia. "Essa rodovia é absurda. Não tem acostamento nenhum e por isso as pessoas acabam andando pelo asfalto", reclama. Quando não são as pessoas que andam pelo asfalto, são os carros que andam pelo que resta de acostamento para fugir dos buracos. Entre o distrito de Timorante e a cidade de Bodocó, onde a mãe do agricultor morreu, essa é uma prática comum dos motoristas. Para Francisco, que perdeu a mãe e há dois anos testemunhou a morte de dois amigos motoqueiros quase no mesmo local, e para a viúva do instalador Antônio, Maria Gomes de Viveiros, que agora batalha para conseguir uma pensão do marido e assim poder sustentar a filha doente, a rodovia em nada lembra a Asa Branca. A não ser, talvez pelo fato de ter feito com que várias vidas batessem asas do Sertão. Para sempre.


 

 

Índice | Editorial | Política | Brasil | Internacional | Cidades | Ciência/Meio Ambiente | Esportes | Economia |
Caderno C | Informática | Turismo | Charge | Colunas | Regional | Veículos | Família | Especiais

Últimas Notícias | JC Debate | Roteiro | Weekend | Bate-papo | Tábua de Marés
Fale com o JC | Links | Classificados | Rádio Jornal| Edições Anteriores | Assinantes