HISTÓRIA II
Asa
Branca é a recordista em
acidentes no Sertão do Araripepor CLÁUDIA PARENTE
Correspondente
EXU -
Tudo na Rodovia Asa, que começa
na divisa com o Ceará e vai até
o Trevo de Jutaí, no Sertão do
São Francisco, é diferente do
que deveria ser, a começar pelas
dimensões. A pista tem apenas
seis metros de largura - quando o
correto seria pelo menos sete. Os
acostamentos, que originalmente
tinham um metro e meio de cada
lado, enquanto as demais rodovias
possuem dois e meio,
desapareceram engolidos pelo mato
e pelas cercas. Por causa da
seca, os fazendeiros da região
tiveram a infeliz idéia de puxar
a cerca de suas propriedades até
as margens do asfalto para que o
gado pudesse pastar. "Não
tínhamos conhecimento dessas
cercas junto à pista",
confessa o chefe de
fiscalização e policiamento da
Polícia Rodoviária Federal,
Rinaldo Barros, explicando que as
cercas são permitidas para
evitar que os animais transitem
na pista. "Mas existem os
limites que devem ser
obedecidos".
Outro problema
são os buracos. Um deles,
localizado há 12 Km da divisa
com o Ceará, já adquiriu fama
trágica. O buraco assassino, que
ocupa quase totalmente as duas
vias da BR, provocou três
acidentes em um mês, incluindo
uma vítima fatal. Morador de uma
casinha a cerca de 500 metros do
macabro buraco, o agricultor
Francisco Ferreira Brás, 31, já
testemunhou por duas vezes o que
pode acontecer com os motoristas
desavisados que passam pelo
local. O agricultor voltava da
roça num final de tarde, no mês
de agosto passado, quando cruzou
com um caminhão. "Vi quando
o motorista tentou desviar do
buraco e acabou saindo da pista.
Quando tentou voltar, a carga
pendeu para o lado fazendo o
veículo tombar", lembra.
Francisco conta que ainda correu
para socorrer o motorista, que
havia caído fora do carro, mas
ele já estava morto. "Se
não tomarem providências,
outras pessoas vão morrer nesse
lugar", acredita.
ÍNDICES -
Dos 69 acidentes que aconteceram
na Rodovia Asa Branca este ano,
envolvendo 99 veículos, 18 deles
foram causados unicamente por
causa de defeitos existentes na
via. Entre as 21 capotangens
ocorridas, é possível que
algumas sejam atribuídas ao
mesmo problema. Na avaliação de
Rinaldo Barros esse indice é
preocupante, embora as
condições precárias da rodovia
sugiram a possibilidade de
números ainda mais alarmantes.
"O ideal é que não ocorra
acidente nenhum nas
rodovias", afirma. Difícil
na Asa Branca, onde apesar das
curvas fechadas e dos longos
trechos em declive, nunca houve
guard rail (proteção lateral),
nem há qualquer sinalização.
Até a
residência mais ilustre que tem
como endereço a BR-122, não
escapou da devastação. O
asfalto na frente do Parque Asa
Branca, lar do cantor
homenageado, está tão
deteriorado, que soa estranho o
verso de Luiz Gonzaga, escolhido
para dar boas-vindas aos
visitantes. Para quem vê a placa
enorme onde está escrito
"aqui deixei ficar meu
coração", a primeira
idéia que vem à mente não é
de uma declaração de amor à
terra natal e, sim, um indício
de mais um acidente.
Próximo ao
local turístico, talvez no ponto
mais fascinante da rodovia -
aquele onde um fenômeno de
magnetismo ou uma enganosa
ilusão de ótica faz com que um
carro seja capaz de subir uma
serra sozinho -, está um dos
pontos mais perigosos da BR-122.
Mais ou menos no Km 25, na subida
da Serra do Araripe, qualquer
deslumbramento com os ipês roxos
que enfeitam a paisagem pode ser
fatal. Neste lugar foram
registrados dois acidentes em um
mesmo dia somente este mês. O
instalador Antonio Lopes
Monteiro, 44, tentava fazer a
curva fechada e esburacada da
ladaira, quando o seu Chevete
começou a descer de marcha-ré,
sem conseguir subir. O instalador
despencou com o carro no abismo
morrendo em seguida.
Cerca de uma
hora hora depois foi a vez do
bancário Damião Severino de
Carvalho sair dali como vítima.
"Trafegava normalmente,
quando numa curva fechada, perto
do local do acidente, o pneu
estourou. Perdi o controle do
carro e sai da pista. Em seguida,
o carro capotou", conta
Damião, ainda atônito com a
ocorrência.
Segundo
Raimundo Siqueira, inspetor
adjunto do posto da PRF, em
Ouricuri, que tem a jurisdição
da Rodovia Asa Branca, nos 95 km
entre a divisa com o Ceará até
da cidade de Ouricuri, o problema
são os buracos, os animais e a
falta de acostamento. No trecho
restante entre Ouricuri e Jutaí,
além dos buracos e da falta de
acostamento, acrescentam-se os
assaltos. "Para o lado que
você for é perigoso", diz.
Basta prestar atenção nas
cruzes à beira do caminho para
confirmar as palavras do
inspetor. Ou quem sabe, ouvir as
histórias de quem perdeu algum
parente.
"Minha
mãe voltava para casa a pé em
companhia de uma amiga, quando
foram colhidas por uma Caravam.
Morreram na hora", lembra
com tristeza o agricultor
Francisco Lacerda da Silva,
mostrando a cruz colocada no
local da tragédia. "Essa
rodovia é absurda. Não tem
acostamento nenhum e por isso as
pessoas acabam andando pelo
asfalto", reclama. Quando
não são as pessoas que andam
pelo asfalto, são os carros que
andam pelo que resta de
acostamento para fugir dos
buracos. Entre o distrito de
Timorante e a cidade de Bodocó,
onde a mãe do agricultor morreu,
essa é uma prática comum dos
motoristas. Para Francisco, que
perdeu a mãe e há dois anos
testemunhou a morte de dois
amigos motoqueiros quase no mesmo
local, e para a viúva do
instalador Antônio, Maria Gomes
de Viveiros, que agora batalha
para conseguir uma pensão do
marido e assim poder sustentar a
filha doente, a rodovia em nada
lembra a Asa Branca. A não ser,
talvez pelo fato de ter feito com
que várias vidas batessem asas
do Sertão. Para sempre.