REFORMA AGRÁRIA
Um
assentamento de R$ 16 milhõespor JOSÉLIA MENEZES
e
LEILA NÚBIA CUNHA
SANTA MARIA
DA BOA VISTA - O Instituto
Nacional de Colonização e
Reforma Agrária (Incra) deve
realizar, ainda este mês, sua
maior desapropriação no
Nordeste, desembolsando cerca de
R$ 16 milhões para compra de um
só imóvel neste município
pernambucano. Trata-se da Fazenda
Catalunha, uma área de 7.286
hectares situada no Vale do São
Francisco, valorizada por uma
infra-estrutura em fruticultura
com uma área irrigavél de 334
hectares e potencial de
ampliação para 2,9 mil
hectares. Aos olhos do MST, que
coordena, há dois anos, um
acampamento com 720 famílias no
local, Catalunha será o maior
assentamento em termos de
viabilidade econômica e número
de beneficiados: a meta do Incra
é assentar mil famílias com
perspectiva de chegarem a
perfazer quatro salários
mínimos por mês.
Apresentado
como projeto modelo de reforma
agrária no Nordeste, o imóvel
pertence à Agropecuária Fazenda
Catalunha, empresa ligada ao
Grupo OAS, com sede em Salvador,
e é vizinho da Fazenda Milano,
que produz uvas e vinhos. O valor
de R$ 16 milhões tomou como base
a cobrança do Imposto
Territorial Rural (ITR). "O
que menos conta para esse
montante é o valor da terra nua.
Só as benfeitorias e
investimentos em irrigação
somam cerca de R$ 13,64
milhões", explica o
procurador geral do Incra-PE,
Marcos Valois.
Entre as
benfeitorias, destacam-se os 80
hectares de uva e os 50 hectares
de manga plantados, os 24 pivôs
centrais de irrigação
(estrutura aérea à base de
energia elétrica), oito casas de
bombas com capacidade para
irrigar sete mil hectares,
adutora principal com 10 km, 15
adutoras secundárias, além de
casas, depósitos de safras e
sistema de irrigação por
microaspersão e gotejamento.
Cerca de quatro mil hectares são
compostos por área de sequeiro.
Pelo estatuto
do Incra, o Valor da Terra Nua
(VTN) é repassado em dinheiro
vivo aos proprietários, mas um
acordo entre as partes garantiu
que apenas R$ 9 milhões fossem
pagos assim. O resto vai sair em
Títulos da Dívida Agrária
(TDA). Segundo Valois, a
previsão é assentar 650
famílias de imediato, que vão
utilizar as benfeitorias já
existentes. "A partir de
novos investimentos, numa segunda
etapa, assentaremos mais 100, com
a perspectiva de chegar às mil
famílias", adianta.
RELAÇÃO
AMISTOSA - A Fazenda
Catalunha é a mais antiga do
Vale do São Francisco, tendo
sido ocupada pelo MST em 7 de
setembro de 96, numa de suas
primeiras investidas na região.
Ao contrário de outros imóveis
ocupados por sem-terra no
Sertão, nunca sofreu um só
despejo judicial pois a relação
com os proprietários é
amistosa. Desde março de 97 o
Incra promete desapropriá-la,
mas somente em agosto último o
processo foi iniciado. Parte do
atraso deveu-se a uma tentativa
frustrada de confisco das terras
por parte da União, já que a
Polícia Federal apreendeu
plantações de maconha no local
(veja abaixo).
Outra razão
para os atrasos, segundo o
coordenador do MST na região,
Milton Levy, foram as quatro
avaliações realizadas pelo
Incra, nos últimos dois anos,
para confirmar se a área era
improdutiva. Na primeira, os
técnicos constataram a
improdutividade, mas também a
inviabilidade econômica do
projeto de assentamento devido
aos altos custos que o uso de
toda a estrutura de irrigação
representaria aos cofres
públicos.
Pressionado
pelo MST, continua Levy, o
instituto acabou reunindo
técnicos do FAO (Fundo para
Agricultura e Organização,
ligado às Nações Unidas),
Embrapa (Empresa Brasileira de
Pesquisas Agropecuárias) e
Codevasf (Companhia de
Desenvolvimento do Vale do São
Francisco) para realizar um
estudo inédito de viabilidade
econômica na região devido à
reunião de tantos órgãos.
O resultado foi
positivo, embora o Incra ainda
não tenha um plano de
desenvolvimento fechado para a
área, a ser montado após a
imissão de posse. O
superintendente do Incra em
Pernambuco, Roosevelt Gonçalves,
garantiu que a ação de
desapropriação de Catalunha
será ajuizada na próxima
terça-feira (3). "De oito a
10 dias depois, deverá sair a
imissão", avisa.
DETERIORAÇÃO
- Parte dos equipamentos de
irrigação da Catalunha estão
sem uso há mais de cinco anos e
a deterioração preocupa o
escritório regional do MST no
São Francisco. "Nenhum dos
24 pivôs centrais está
completo", reclama Milton
Levy, acrescentando que faltam
painés de controle, pneus, cabos
e motores, entre outras peças
simples. Alguns pivôs sequer
chegaram a ser usados desde a
implantação há 10 anos.
"Muitos deles estão
espalhados por aí", conta o
sem-terra Pedro Nascimento,
natural de Cedro, quatro filhos.
A última colheita realizada
pelos antigos proprietários foi
há dois anos, com a utilização
de apenas cinco pivôs centrais,
segundo os acampados.
Antes do
repasse do patrimônio à União,
os sem-terra planejam fazer uma
revisão geral dos equipamentos.
O acordo entre Incra e OAS prevê
que a empresa se compromete a
recompor todos os equipamentos
antes de receber o pagamento.
"Entre o ajuizamento da
ação e o repasse da verba, há
um prazo de mais ou menos de
trinta dias em que fazemos a
checagem dos equipamentos",
garantiu o superintendente
adjunto do Incra-PE, Abdias
Vilar.