REFORMA AGRÁRIA
III
Sem-terra
vivem em casas de palhaÀ primeira vista, o
acampamento do MST na Fazenda
Catalunha lembra o miserável
arraial baiano de Canudos,
cenário da histórica guerra nos
tempos do Império. Centenas de
casebres miseráveis de
pau-a-pique cobertos de palha se
agrupam apertados à beira do rio
São Francisco, a 45 km de Santa
Maria da Boa Vista. A cena
contrasta com o belo e amplo
casarão de alvenaria, madeira
nobre e vidro, a menos de 50
metros, que, antes, servia de
casa de fim de semana para os
proprietários, além dos
modernos equipamentos de
irrigação.
É no arraial
que vive gente como Raimundo
Gonçalves Rodrigues, 42 anos e 2
filhos, e Maria Francisca de
Lima, 53 anos e 8 filhos, que
nunca tiveram um palmo de terra
para plantar e esperam por
saneamento, telefone, transporte
regular e posto médico, vindos
com a implantação do
assentamento. A única escola, um
barracão grosseiro de teto de
palha, paredes nuas e um surrado
quadro de giz, foi construída
pelos próprios acampados e
atende a 450 estudantes que
freqüentam aulas sentados no
chão. Quinze turmas de jovens e
adultos se revezam durante o dia
sob a coordenação do MST, que
mantém 15 monitores para dar
apoio aos sete professores.
A saúde das
mais de 3,7 mil pessoas vindas
das mais diferentes partes do
Sertão está nas mãos da equipe
coordenada por Ordália Braga,
46, uma acampada que luta junto
aos órgãos públicos em busca
de medicamentos e atendimento
médico. "Faltam dados
oficiais, mas é grande a
incidência de doenças entre as
crianças, como desidratação,
verminoses, desnutrição e as
respiratórias", explica.
Sem a cesta
básica de 15 kg, antes
distribuída pelo Incra, e
suspensa pelo Governo no início
do ano, as famílias dependem das
colheitas de subsistência de
cebola, melancia, melão e tomate
plantadas às margens do São
Francisco, ou mesmo, das
pescarias. Ainda assim, segundo o
coordenador estadual do MST,
Jaime Amorim, os acampados de
Catalunha chegaram a realizar
três saques este ano na BR 428.
"Quem dita o momento é a
fome", garante uma jovem
mãe que preferiu não se
identificar. Quando há trabalho
em fazendas vizinhas, há quem
ganhe R$ 6,00 ao dia.