- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 01 de novembro de 1998

REFORMA AGRÁRIA III
Sem-terra vivem em casas de palha

À primeira vista, o acampamento do MST na Fazenda Catalunha lembra o miserável arraial baiano de Canudos, cenário da histórica guerra nos tempos do Império. Centenas de casebres miseráveis de pau-a-pique cobertos de palha se agrupam apertados à beira do rio São Francisco, a 45 km de Santa Maria da Boa Vista. A cena contrasta com o belo e amplo casarão de alvenaria, madeira nobre e vidro, a menos de 50 metros, que, antes, servia de casa de fim de semana para os proprietários, além dos modernos equipamentos de irrigação.

É no arraial que vive gente como Raimundo Gonçalves Rodrigues, 42 anos e 2 filhos, e Maria Francisca de Lima, 53 anos e 8 filhos, que nunca tiveram um palmo de terra para plantar e esperam por saneamento, telefone, transporte regular e posto médico, vindos com a implantação do assentamento. A única escola, um barracão grosseiro de teto de palha, paredes nuas e um surrado quadro de giz, foi construída pelos próprios acampados e atende a 450 estudantes que freqüentam aulas sentados no chão. Quinze turmas de jovens e adultos se revezam durante o dia sob a coordenação do MST, que mantém 15 monitores para dar apoio aos sete professores.

A saúde das mais de 3,7 mil pessoas vindas das mais diferentes partes do Sertão está nas mãos da equipe coordenada por Ordália Braga, 46, uma acampada que luta junto aos órgãos públicos em busca de medicamentos e atendimento médico. "Faltam dados oficiais, mas é grande a incidência de doenças entre as crianças, como desidratação, verminoses, desnutrição e as respiratórias", explica.

Sem a cesta básica de 15 kg, antes distribuída pelo Incra, e suspensa pelo Governo no início do ano, as famílias dependem das colheitas de subsistência de cebola, melancia, melão e tomate plantadas às margens do São Francisco, ou mesmo, das pescarias. Ainda assim, segundo o coordenador estadual do MST, Jaime Amorim, os acampados de Catalunha chegaram a realizar três saques este ano na BR 428. "Quem dita o momento é a fome", garante uma jovem mãe que preferiu não se identificar. Quando há trabalho em fazendas vizinhas, há quem ganhe R$ 6,00 ao dia.


 

 

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