- -- .........................................................................Jornal do Commercio, Recife, 04 de março de 1998
 

ARTIGO

A Voz do Povo

por JOÃO CARLOS PAES MENDONÇA*

É inegável que o Brasil tem passado por mudanças profundas nos últimos anos, de forma ainda lenta para algumas pessoas, mas com muita rapidez segundo outras. Até a Constituição, finalmente, começa a ser mudada... e isso, há não muito tempo, parecia quase impossível. Mas nem todos gostam da forma ou da direção dessas mudanças. E há quem prefira mudança nenhuma.

Tem gente que não gosta do Plano Real, que acha que ele está todo errado, que gostaria que o Brasil continuasse sem privatização, com enormes barreiras alfandegárias para proteger a totalidade da produção nacional, inflação de 30% ou 40% ao mês, pacotes econômicos a toda hora, desorganização, ou seja, do jeito que era até alguns poucos anos atrás, quando uma boa quantidade de jovens brasileiros só pensava em maneiras de emigrar para o primeiro mundo, nem que fosse clandestinamente.

Esses aí devem ter tomado um susto grande com a recente pesquisa realizada pelo instituto Vox Populi, sob encomenda da Revista Veja, para avaliar a imagem do Presidente Fernando Henrique Cardoso perante os eleitores, ou seja, os cidadãos do Brasil que já o elegeram uma vez e que terão ainda este ano a possibilidade de lhe outorgar um novo mandato presidencial.

É mesmo para assustar que o governo FHC tenha obtido um índice de aprovação de 63%, especialmente considerando que está no final do mandato. Não devem ter sido muitos os governos brasileiros ou de outros países que poderiam ostentar notas tão altas no seu último ano, especialmente quando se trata de administrações que tenham sido geradoras de mudanças e, portanto, tenham tido que administrar toda a procissão de conflitos, ansiedades, tensões que são inerentes aos processos de transformação social.

Embora assustados, os apóstolos do antigo "status quo" talvez imaginem ainda que a maioria da população está enganada e que a razão está com eles. Algo como aquela anedota do soldado que fica todo orgulhoso de estar marchando como acha certo, enquanto todo o batalhão marcha do jeito que ele acha errado. Aí levam novo susto, quando descobrem que 68% dos entrevistados na pesquisa acreditam que o Plano Real veio para ficar, 74% consideram o Plano Real melhor que o plano cruzado (assim mesmo, com letra minúscula) e 76% declaram que a sua vida e a da sua família estão iguais ou melhores do antes do Real. Além disso, outras fontes nos dizem que o Brasil voltou a ser um País respeitado econômica, política e culturalmente.

É verdade, não há unanimidade. Há pessoas cuja vida tornou-se pior. OS problemas não foram todos resolvidos, os salários ainda são baixos, o setor de saúde continua doente, apesar da CPMF, o desemprego agravou-se e é hoje a maior sombra no horizonte dos trabalhadores. Mas também é verdade que o tempo não foi suficiente para tão grande tarefa. Os números da pesquisa deixam transparecer um bom nível de compreensão dos eleitores não só quanto às questões mais relevantes para uma decisão eleitoral, mas também com relação ao papel exercido pelo Presidente da República, que não é um enviado de Deus para fazer milagres, que sozinho faria muito pouco, mas que, humanamente, tem realizado um trabalho sério e honesto, com resultados bastante favoráveis. E os desafios que ainda existem, o desemprego entre eles, certamente pesarão muito no momento em que esse eleitor tiver que escolher o homem que deverá liderar a Nação nos próximos quatros anos de novas e difíceis lutas.

* João Carlos Paes Mendonça é Presidente do Grupo Bompreço e do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação

     
     

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