............................................................. ..........-Jornal do Commercio, Recife, 04 de março de 1998
  ARTIGO
Os signos do capital estrangeiro

por PAULO ROBERTO CANNIZZARRO*

Números mais recentes dão conta que é a hora e a vez do capital estrangeiro. Talvez cerca de US$ 12,5 bilhões, somente em 1997, segundo publicações de revistas especializadas, foram empregados de dinheiro externo, para aquisições ou fusões com empresas brasileiras. Companhias internacionais estão desembarcando aqui para assumir o controle ou se associar a mais de duas centenas de empresas brasileiras e este capital está se aproveitando deste momento exatamente pelas fragilidades de empresas e da conjuntura econômica nacional tão pouco favorável a elas.

Aportaram aqui porque sabem também que falta capital interno necessário para acompanhar os investimentos que as empresas e a Nação reclamam, e não é por outro motivo que estamos assistindo empresas brasileiras tradicionais rolando ladeira a baixo. Sinal de novos tempos globalizados? Pouco importa responder isto. Certo ou errado, capital estrangeiro temporário ou mais permanente, circunstâncias ou tendência contemporâneas, o que é evidente é que isto está impactando de maneira importante as bases do capitalismo brasileiro.

E toda vez que pretendemos estudar as grandes influências deste capital de "gringos", é preciso considerar alguns aspectos significativos que enlaçam suas tendências. Merecem assim considerações: 1) O estímulo do crescimento econômico. É fato que o ingresso de capital externo em um País é instrumento capaz de gerar um crescimento econômico efetivo e exemplo em outras nações é que não faltam para provar que eles mudam o cenário econômico e social de um povo. 2) O capital estrangeiro pode ser indutor na qualificação de nossa distribuição de renda, e neste aspecto o Brasil é um país produtivamente injusto. 3) Deveremos afinal questionarmos até que ponto o capital estrangeiro promove ou não internamente ao País uma convivência econômica saudável.

Analisando cada um destes impactos, é de se reconhecer que ele produz de fato crescimento econômico, na medida em que usa melhor nossas potencialidades e vocações econômicas, e crescimento é sinal também de melhor manejo de recursos produtivos, de organização econômica, estabilidade, ocupação, emprego, e isto é muito mais fácil quando se tem a mão um "capital" muito mais profissional. Assim, nossa taxa de crescimento do PIB "per capita" pode aumentar de maneira importante e rápida, caso a economia receba uma irrigação de capital estrangeiro.

Hoje a participação do capital estrangeiro no Brasil deve situar-se em cerca de 6,0% ou 8,0% (?). Um aumento relevante nas próximas décadas será capaz de assegurar de fato uma vida muito melhor para nossos filhos. É verdadeiro também que o capital estrangeiro trás benefícios reais para essa redistribuição da renda nacional. É uma máxima que os salários crescem na mesma proporção em que existe mais abundância de capital e escassez de mão-de-obra e no nosso caso estamos exatamente na contramão: faltam investimentos em vários setores e sobra um contingente de mão-de-obra "de despreparados" e "desqualificados", produto nacional que temos para dar e vender.

Em última análise, é inegável que o capital estrangeiro surpreende as empresas brasileiras. É evidente que a entrada de multinacionais causa prejuízos às empresas domésticas já instaladas no País, e elas chegam como uma "praga de gafanhotos". Ganhando espaço, tomando oportunidades e de repente comem as nossas empresas, na maioria das vezes totalmente despreparadas. Muitos defendem que este capital estrangeiro engole nossa soberania nacional porque passa por cima de nossas práticas comerciais, nossas empresas e os interesses da Nação. A maioria, no entanto, sabe que este atentado do capital estrangeiro só impacta a soberania do produtor já instalado na economia, mas na prática, reconhecem saudável transformação que ele produz no mercado e nos seus consumidores. Absolvido ou culpado, o que parece claro é que o capital estrangeiro já está transformando o capitalismo brasileiro e o processo desta mudança parece que a partir de agora será muito mais avassalador e rápido.

* Paulo Roberto Cannizzaro é consultor de gestão empresarial e titular da empresa Cannizzaro & Associados S/C Ltda

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