............................................................. ..........-Jornal do Commercio, Recife, 04 de março de 1998
  CONSUMO
Queda dos juros chegará com atraso ao varejo

Mesmo com a perspectiva de que hoje, em sua reunião, o Conselho de Política Monetária (Copom) aplique uma redução na Taxa Básica do Banco Central (TBC), dos atuais 34,5%, ao ano, para o intervalo entre 30% e 31% ao ano, boa parte da população, que compra através do crediário ou toma dinheiro emprestado junto às financeiras, não sentirá a mudança. Com os índices de inadimplência se mantendo elevados, essas empresas preferem trabalhar com juros altos, se prevenindo contra os riscos desse tipo de operação.

Apesar do presidente Fernando Henrique Cardoso ter afirmado ontem que as taxas de juros devem cair o suficiente para que cheguem ao final de 98 com o patamar equivalente à taxa média de 1997, o que significaria baixar bastante agora, o diretor comercial da José Mário de Andrade, Alberto Freitas, afirma que para se chegar a juros mais realistas será preciso reduzir essa inadimplência através de uma política mais concreta de renegociação das dívidas. Enquanto no Brasil, as financeiras vêm cobrando juros de 6% a 8% ao mês, tanto em países europeus como nos Estados Unidos, a taxa média é de 6% ao ano. Segundo Freitas, antes do Banco Central aplicar a elevação na taxa básica, em outubro do ano passado, o mercado vinha praticando juros médios de 3,5% a 4,5%. Depois do aumento, esses percentuais chegaram a uma média de 8%.

O comerciante Fortunato Russo Sobrinho, que vende alguns produtos no crediário através de financeiras, explica que a cobrança de juros também serve para que essas empresas possam cobrir os débitos dos inadimplentes. Esse fato atinge diretamente a população de menor renda que não tem acesso a cartão ou a talões de cheque que funcionam como opções de crédito. Esse é o público que costuma fazer uso do crediário e de empréstimos junto as financeiras. No entanto, para as lojas que bancam seu próprio crediário, a redução das taxas pode ser uma realidade, pois elas incidirão nos custos de captação de dinheiro nos bancos, e poderão ser repassadas ao consumidor final. A reportagem do JC tentou falar com as principais financeiras do país que atuam no setor do comércio, mas não foi atendida.

Para o economista da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), Osnil Galindo Filho, o maior culpado dessa inadimplência alta é o próprio comércio que incentiva o consumo na população de menor renda, mesmo sabendo que a maioria não pode continuar arcando com esses compromissos a longo prazo. Por outro lado, a perda do poder aquisitivo não conseguiu diminuir o desejo de compra desse público. "O brasileiro é um povo consumistas. Em países mais desenvolvidos, onde o poder aquisitivo da população é muito maior, não existe essa ansiedade constante de comprar", acredita.

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