| |
Entulho
tributário e déficit Faltou
bem pouquinho para chegar a R$ 6
bilhões o déficit, de 0,67% do
PIB, das contas públicas
brasileiras no ano passado, a
pior marca desde 1991 (apenas
déficit primário, que exclui
juros). Mesmo após sucessivos
fracassos em suas previsões de
superávit, o governo continua
prometendo que, este ano, o
fenômeno ocorrerá, apesar do
sorvedouro eleitoral. A
responsabilidade pelo déficit,
segundo o porta-voz da
Presidência da República,
Sérgio Amaral, é dos Estados e
empresas públicas estaduais, o
que é bastante contestável;
além do fato de que o governo
federal abre facilmente seus
cofres para governos estaduais
amigos.
Sabemos que, quanto mais o
governo se endivida, mais gasta
com o pagamento dos juros da
dívida, realimentando o processo
do déficit. A poupança que,
normalmente, deveria financiar a
produção, criar empregos e
riquezas, resvala para o
financiamento do governo,
tornando o país mais dependente
do capital externo. Sabemos
também que um maior equilíbrio
das contas públicas (déficits
podem até ser tolerados como
exceção, nunca como rotina)
depende substancialmente de uma
das mais prometidas e postergadas
reformas, a tributária e fiscal:
racionalização e modernização
do sistema tributário; cobrança
e fiscalização independentes de
injunções e humores
político-partidários.
Após constantes hesitações,
o governo diz que vai encaminhar
ao Congresso Nacional, até o
mês de maio, mais uma proposta
de reforma tributária, sem
pretender que sua apreciação e
votação ocorram este ano. Nem
precisaria, o governo, explicitar
a modéstia de sua pretensão no
caso. Num ano de eleições
presidenciais e para governadores
e parlamentares; sem uma profunda
reforma política, que nem sequer
foi cogitada seriamente; os
congressistas deixarão Brasília
às moscas, com as bênçãos de
seus presidentes e líderes.
Aliás, não podem nem se
esforçar por produtividade, pois
se arriscariam a perder o
reforço financeiro das
convocações extraordinárias.
Desde 1995, tramita no
Congresso uma primeira proposta
governamental de reforma
tributária. Há quase seis
meses, o secretário executivo do
Ministério da Fazenda, Pedro
Parente, expôs no Congresso um
novo modelo tributário,
incluído na mais nova proposta.
Parente garante que o governo
não deteve a reforma, "mas
não vamos apresentar nada
apressado e descuidado".
Ora, três anos de tramitação,
com o rolo compressor de
pressões de que o governo
dispõe, e utiliza quando lhe
interessa (casos da reeleição e
outros), implicariam pressa e
descuido? O que acontece, na
realidade, é que o governo faz
jogo de cena, mas continua
preferindo, em lugar da reforma,
criar novas tributações e
alíquotas, que lhe permitem
empurrar a questão com a
barriga, conforme a expressão do
deputado e ex-ministro Delfim
Neto.
A nova proposta acaba com os
principais tributos atualmente
cobrados sobre a produção, que
são o ICMS, IPI, Cofins, CSLL e
PIS-Pasep. Propõe a criação do
Imposto sobre Valor Agregado
(IVA), que incidiria sobre o
consumo e seria cobrado pela
União. Os Estados cobrariam um
imposto sobre venda no varejo e
outro sobre o consumo de bebidas,
fumo e serviços de
telecomunicações e energia
elétrica. Com o entulho
tributário atual é que não é
possível continuar. União,
Estados e municípios brigam pela
distribuição do que é
arrecadado; tributações se
sobrepõem e engarrafam, gerando
o fenômeno cascata. Segundo diz
o empresário Joseph Couri,
presidente do sindicato que
congrega as pequenas e
microindústrias de São Paulo, o
produtor, no Brasil, sofre
punições; o empresário ainda
é réu, até prova em
contrário. E também o
contribuinte em geral, o
cidadão, podemos acrescentar.
Esse industrial soma 35
diferentes tributos no país,
alguns funcionando em cascata, o
que eleva esse número para 60.
Observa que os juros estão na
casa de 34% ao ano, para uma
inflação de 3%, e a carga
tributária passou de 13,8% do
PIB em 1947 para 28,9% em 1996. O
produtor nacional não tem,
assim, condições de
competitividade com os de países
que protegem firmemente seus
interesses; não tem incentivos;
não lhe sobra capital para
investir em pesquisa e
tecnologia. A Secretaria da
Receita Federal calcula em 50% o
índice de sonegação. A
modernização e eficiência da
cobrança e da fiscalização, em
um sistema tributário
racionalmente reformado, dariam
uma contribuição inestimável
para o equilíbrio das contas
públicas.

|

 |