.......................................................................... Jornal do Commercio, Recife, 01 de março de 1998
  TÉCNICAS
No Brasil, a psicanálise do corpo é história real

por MARCIA CEZIMBRA
Agência Globo

Técnica psicanalítica, que tem por base a interpretação verbal, pode se tornar mais eficaz se for complementada por técnicas corporais. Isto porque muitos problemas têm origem na infância precoce, desde o nascimento e, principalmente, no primeiro ano de vida. Estão ligados às primeiras experiências vividas pelo bebê durante os cuidados maternos e são registrados no corpo, como uma memória corporal.

Esta é a afirmação do psicanalista Giovanni Gamgemi, que há 15 anos trabalha no Rio com técnicas corporais que complementam a técnica convencional da psicanálise. Ele fundou há cerca de dois anos o Centro de Estudos de Psicanálise e Técnicas Reichianas, cujo curso integra concepções psicanalíticas com técnicas reichianas, criadas por Wilhelm Reich.

INTERPRETAÇÃO "Há mais de 20 anos, me dei conta de que a interpretação verbal ficava restrita a problemas cuja origem remontava, segundo as concepções freudianas, ao início do período edipiano, por volta do terceiro ano de vida aproximadamente. Senti que precisava abordar a problemática de maneira mais próxima à sua origem, ou seja, desde o primeiro ano de vida", conta o psicanalista.

Ele constatou, também, que esta aproximação só seria possível através de abordagens corporais. Ele comenta que o próprio Freud, no texto O eu e o id, de 1923, afirmou: "O eu é, basicamente, corporal". Apesar de a psicanalista Melanie Klein ter demonstrado, anos mais tarde, que a origem da problemática era pré-edipiana, definindo sua formação durante o primeiro ano de vida, a psicanálise, segundo Giovanni, não atentou para a necessidade de novas técnicas para trabalhar esta condição precoce.

As experiências que o bebê vive durante as fases mais primitivas do período pré-edipiano, principalmente a fase oral, ficam registradas nos sistemas viscerais, no muscular e no ósseo. "Os exercícios corporais podem permitir ao paciente reviver, sem regredir, o processo de estruturação do eu que ocorreu a partir de seu nascimento (ou até durante a gestação). É neste período que começam a se estruturar especialmente as sensações de plenitude e/ou de vazio, e de segurança e/ou de angústia, as quais poderão evoluir, em casos extremos, para quadros, respectivamente, de depressão melancólica e de esquizofrenia", informa Giovanni.

Por outro lado diz que "ao mesmo tempo em que o paciente revive aquelas experiências dolorosas, oriundas de um estresse durante os cuidados maternos, ele vive, no presente com o terapeuta, uma experiência retificadora, o que resulta em melhora. Não se trata de uma psicanálise convencional, pois a introdução de técnicas corporais altera de modo significativo a sessão. Na mesma sessão terapêutica, após algum tempo dedicado ao material verbal, o paciente viverá a experiência corporal e, no final, poderá relatar as sensações corporais, emoções e pensamentos que reviveu e viveu durante o exercício".

Os exercícios são inúmeros, mas Giovanni considera fundamentais o exercício da concha (o terapeuta coloca as mãos sob a forma de concha sobre os ouvidos do paciente) e os com lanterna (o paciente olha a luz fixa ou móvel de uma lanterna). Ele explica que, a partir da consciência do contraste, entre a revivência do passado e a vivência no presente com o terapeuta, surge a elaboração, o alvo do processo psicanalítico.

Estes exercícios com os ouvidos, os olhos e a boca trabalham os níveis mais arcaicos da vida, quando surgem os elementos precursores da afetividade. "Os olhos, os ouvidos e a pele, receptivos por natureza, são os primeiros a constituir o vínculo afetivo e estão ligados às sensações de plenitude e de completude, cuja perturbação pode levar para a depressão melancólica", esclarece ainda.

Os exercícios com a lanterna fixa reeditam e consolidam a formação do vínculo entre o bebê e a figura materna, o qual está na raiz do ser, elemento representante do feminino. Já a lanterna em movimentos laterais trabalha a insegurança que dá origem à angústia. A boca, o sugar e o morder correspondem ao fazer, elemento representante do masculino. Estão ligados a vivências de insegurança e de angústia. O ser e o fazer, concebidos pelo psicanalista inglês Donald Winnicott, são elementos primitivos fundamentais que precisam ser resgatados desde a origem. Isto se consegue muito precariamente com a interpretação verbal.Já com as técnicas corporais é menos difícil. O próprio Winnicott utilizava técnicas corporais com certos pacientes, às quais chamava de manejos.

A introdução sistemática e metodológica destas técnicas corporais, feita por Wilhelm Reich, possibiliou ao terapeuta comum, habituado à técnica tradicional, realizar o que antes, segundo Giovanni, só um gênio como Winnicott teve o privilégio individual de fazer.

"É necessário que o terapeuta tenha conhecimentos amplos e profundos, tanto da teoria e da técnica psicanalíticas como das técnicas reichianas, para realizar esta integração. É um trabalho extremamente árduo, mas não vejo outra saída. Quero evidenciar que o uso de quaisquer técnicas, especialmente as reichianas, é sumamente delicado: o terapeuta deve saber o que faz. O corpo é uma condensação de sutilezas. Os instrumentos técnicos que o terapeuta utiliza tanto podem ter efeitos benéficos como maléficos. São realmente instrumentos e, como tais, devem ser escolhidos e utilizados com muito cuidado e conhecimento. E os resultados terapêuticos obtidos com esta complementação técnica não são nada milagrosos. São apenas melhores", ressalta.

Giovanni adverte que as indicações para tais técnicas são mais restritas e limitadas do que as da psicanálise tradicional, porque pacientes com certos mecanismos rígidos de defesas não suportam intervenções intensas. Afirma que "estamos longe de uma técnica completa. Apenas passamos do engatinhar e necessitamos aumentar o arsenal de instrumentos de que dispomos. Temos mais recursos para trabalhar os mecanismos de defesa do problema do que sua estrutura originária. Esta, por ser mais arcaica, requer métodos mais amplos e numerosos do que os que dispomos".

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