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TÉCNICAS
No
Brasil, a psicanálise do corpo
é história realpor MARCIA CEZIMBRA
Agência Globo
Técnica psicanalítica, que
tem por base a interpretação
verbal, pode se tornar mais
eficaz se for complementada por
técnicas corporais. Isto porque
muitos problemas têm origem na
infância precoce, desde o
nascimento e, principalmente, no
primeiro ano de vida. Estão
ligados às primeiras
experiências vividas pelo bebê
durante os cuidados maternos e
são registrados no corpo, como
uma memória corporal.
Esta é a afirmação do
psicanalista Giovanni Gamgemi,
que há 15 anos trabalha no Rio
com técnicas corporais que
complementam a técnica
convencional da psicanálise. Ele
fundou há cerca de dois anos o
Centro de Estudos de Psicanálise
e Técnicas Reichianas, cujo
curso integra concepções
psicanalíticas com técnicas
reichianas, criadas por Wilhelm
Reich.
INTERPRETAÇÃO "Há
mais de 20 anos, me dei conta de
que a interpretação verbal
ficava restrita a problemas cuja
origem remontava, segundo as
concepções freudianas, ao
início do período edipiano, por
volta do terceiro ano de vida
aproximadamente. Senti que
precisava abordar a problemática
de maneira mais próxima à sua
origem, ou seja, desde o primeiro
ano de vida", conta o
psicanalista.
Ele constatou, também, que
esta aproximação só seria
possível através de abordagens
corporais. Ele comenta que o
próprio Freud, no texto O eu e o
id, de 1923, afirmou: "O eu
é, basicamente, corporal".
Apesar de a psicanalista Melanie
Klein ter demonstrado, anos mais
tarde, que a origem da
problemática era pré-edipiana,
definindo sua formação durante
o primeiro ano de vida, a
psicanálise, segundo Giovanni,
não atentou para a necessidade
de novas técnicas para trabalhar
esta condição precoce.
As experiências que o bebê
vive durante as fases mais
primitivas do período
pré-edipiano, principalmente a
fase oral, ficam registradas nos
sistemas viscerais, no muscular e
no ósseo. "Os exercícios
corporais podem permitir ao
paciente reviver, sem regredir, o
processo de estruturação do eu
que ocorreu a partir de seu
nascimento (ou até durante a
gestação). É neste período
que começam a se estruturar
especialmente as sensações de
plenitude e/ou de vazio, e de
segurança e/ou de angústia, as
quais poderão evoluir, em casos
extremos, para quadros,
respectivamente, de depressão
melancólica e de
esquizofrenia", informa
Giovanni.
Por outro lado diz que
"ao mesmo tempo em que o
paciente revive aquelas
experiências dolorosas, oriundas
de um estresse durante os
cuidados maternos, ele vive, no
presente com o terapeuta, uma
experiência retificadora, o que
resulta em melhora. Não se trata
de uma psicanálise convencional,
pois a introdução de técnicas
corporais altera de modo
significativo a sessão. Na mesma
sessão terapêutica, após algum
tempo dedicado ao material
verbal, o paciente viverá a
experiência corporal e, no
final, poderá relatar as
sensações corporais, emoções
e pensamentos que reviveu e viveu
durante o exercício".
Os exercícios são inúmeros,
mas Giovanni considera
fundamentais o exercício da
concha (o terapeuta coloca as
mãos sob a forma de concha sobre
os ouvidos do paciente) e os com
lanterna (o paciente olha a luz
fixa ou móvel de uma lanterna).
Ele explica que, a partir da
consciência do contraste, entre
a revivência do passado e a
vivência no presente com o
terapeuta, surge a elaboração,
o alvo do processo
psicanalítico.
Estes exercícios com os
ouvidos, os olhos e a boca
trabalham os níveis mais
arcaicos da vida, quando surgem
os elementos precursores da
afetividade. "Os olhos, os
ouvidos e a pele, receptivos por
natureza, são os primeiros a
constituir o vínculo afetivo e
estão ligados às sensações de
plenitude e de completude, cuja
perturbação pode levar para a
depressão melancólica",
esclarece ainda.
Os exercícios com a lanterna
fixa reeditam e consolidam a
formação do vínculo entre o
bebê e a figura materna, o qual
está na raiz do ser, elemento
representante do feminino. Já a
lanterna em movimentos laterais
trabalha a insegurança que dá
origem à angústia. A boca, o
sugar e o morder correspondem ao
fazer, elemento representante do
masculino. Estão ligados a
vivências de insegurança e de
angústia. O ser e o fazer,
concebidos pelo psicanalista
inglês Donald Winnicott, são
elementos primitivos fundamentais
que precisam ser resgatados desde
a origem. Isto se consegue muito
precariamente com a
interpretação verbal.Já com as
técnicas corporais é menos
difícil. O próprio Winnicott
utilizava técnicas corporais com
certos pacientes, às quais
chamava de manejos.
A introdução sistemática e
metodológica destas técnicas
corporais, feita por Wilhelm
Reich, possibiliou ao terapeuta
comum, habituado à técnica
tradicional, realizar o que
antes, segundo Giovanni, só um
gênio como Winnicott teve o
privilégio individual de fazer.
"É necessário que o
terapeuta tenha conhecimentos
amplos e profundos, tanto da
teoria e da técnica
psicanalíticas como das
técnicas reichianas, para
realizar esta integração. É um
trabalho extremamente árduo, mas
não vejo outra saída. Quero
evidenciar que o uso de quaisquer
técnicas, especialmente as
reichianas, é sumamente
delicado: o terapeuta deve saber
o que faz. O corpo é uma
condensação de sutilezas. Os
instrumentos técnicos que o
terapeuta utiliza tanto podem ter
efeitos benéficos como
maléficos. São realmente
instrumentos e, como tais, devem
ser escolhidos e utilizados com
muito cuidado e conhecimento. E
os resultados terapêuticos
obtidos com esta complementação
técnica não são nada
milagrosos. São apenas
melhores", ressalta.
Giovanni adverte que as
indicações para tais técnicas
são mais restritas e limitadas
do que as da psicanálise
tradicional, porque pacientes com
certos mecanismos rígidos de
defesas não suportam
intervenções intensas. Afirma
que "estamos longe de uma
técnica completa. Apenas
passamos do engatinhar e
necessitamos aumentar o arsenal
de instrumentos de que dispomos.
Temos mais recursos para
trabalhar os mecanismos de defesa
do problema do que sua estrutura
originária. Esta, por ser mais
arcaica, requer métodos mais
amplos e numerosos do que os que
dispomos".
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