TENDÊNICIAS
Os
micros nada ensinam!por
LUCIANO MEIRA *
Sempre que nos deparamos com
novas tecnologias, enfrentamos
questões que dizem respeito
principalmente à nossa
competência em usá-las de forma
eficiente e adequada. Podemos nos
perguntar, por exemplo, pra que
comprar um caríssimo
videocassete com 198 funções
programáveis quando
freqüentemente usamos apenas as
teclas PLAY, STOP, FF e REW?
Claro, há compensações: os
aparelhos com as ed quase
inúteis 198 funções são
também aqueles que têm a melhor
qualidade de som e imagem, e aí
somos mais competentes em
apreciar o valor adicional gasto.
Pois bem, ao tratar mais
particularmente de tecnologias da
informação, notadamente do uso
da informática na educação,
questões semelhantes são
freqüentemente levantadas por
pais de crianças e adolescentes.
Pena que só há espaço para
breves comentários. 1.
Computadores ensinam mais que
outras tecnologias? Computadores
nada ensinam! Máquinas em geral
são mediadores que, colocados
entre as pessoas, podem permitir
a criação de novas formas de
comunicação e aprendizagem.
Portanto, dê menos atenção ao
tamanho do HD que ao indivíduo
que escolhe o software e coordena
atividades com os usuários. Este
é um ponto central: que
atividades são realizadas com os
computadores disponíveis? Se
apenas joguinhos burros de guerra
ou programas supostamente
educacionais que só incentivam a
mecanização e memorização de
informações, desista... sai
muito caro!
2. A partir de que idade é
aconselhável iniciar a criança
em ambientes computacionais?
Você deu revistas e livros a seu
filho antes dele saber ler? Se
não, você perdeu uma grande
chance de vê-lo começando a
diferenciar figuras de palavras,
e "desenhando" nomes.
Se sim, é a mesma coisa com
computadores... não tem idade
ideal, mas importa o que será
realizado com o instrumento.
3. Afinal, que coisas são
essas que devemos fazer com
computadores? A lista seria tão
longa que posso oferecer apenas
dicas rápidas sobre programas
educacionais. Procure adquirir
programas que contenham pelo
menos algumas das seguintes
características: interatividade
e flexibilidade para aceitar
múltiplas ações ou respostas
do usuário; ênfase nas
propriedades fundamentais dos
conteúdos e não nos aspectos
cosméticos; uma mesma situação
é apresentada de forma
diversificada; ênfase no
significado das situações e
não em regras ou procedimentos.
4. É importante a escola
oferecer cursos de computação?
Não acredito em cursos de
computação como algo voltado
para o ensino de programação ou
técnicas para trabalhar com
aplicativos. Isso até pode ser
interessante, mas não pode parar
por aí. A escola deve incentivar
os professores a utilizarem os
computadores em suas aulas, como
instrumentos de pesquisa e
exploração do conhecimento.
Assim como o objetivo do ensino
no 1º e 2º graus não é formar
matemáticos ou geógrafos,
também não desejamos
"micreiros" tapados a
outras formas de construção de
conhecimentos.
5. O uso do computador pode
prejudicar a criança ou
adolescente na interação com
colegas ou adultos? Se seu filho
ou filha passa muitas horas/dia
brincando de "chat"
(conversa eletrônica) na
Internet ou destruindo os
próprios neurônios com
joguinhos burros de guerra, você
é quem vai pagar a conta
(literalmente...). Ocorre que
isso pode ser conseqüência (e
não causa) da tão falada e
reclamada falta de comunicação
entre pais e filhos. Além disso,
crianças quase sempre jogam ou
navegam pela Internet
acompanhadas de parceiros reais
ou virtuais.
Isto posto, é bom que se diga
que computadores são
instrumentos de grande
plasticidade (bem maior que as
198 funções de qualquer VCR) e
que a informática educativa pode
permitir formas de ensino
raramente presentes nas salas de
aula tradicionais. Em outras
palavras, estas novas tecnologias
da informação associadas a
atividades educacionais bem
pensadas trazem possibilidades
enormes para a construção e
exploração de novos
conhecimentos. Mas antes de
"plugar-se" imagine o
que seria do livro sem a
literatura (computadores sem
software), da literatura sem o
leitor (software sem usuários),
e do leitor sem o objetivo de
imaginar (usuários sem uma
atividade).
*Luciano Meira (lmeira
npd.ufpe.br) é coordenador da
pós graduação em psicologia
cognitiva da UFPE.
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