.........................................................................-Jornal do Commercio, Recife, 04 de março de 1998
  TENDÊNICIAS
Os micros nada ensinam!

por LUCIANO MEIRA *

Sempre que nos deparamos com novas tecnologias, enfrentamos questões que dizem respeito principalmente à nossa competência em usá-las de forma eficiente e adequada. Podemos nos perguntar, por exemplo, pra que comprar um caríssimo videocassete com 198 funções programáveis quando freqüentemente usamos apenas as teclas PLAY, STOP, FF e REW? Claro, há compensações: os aparelhos com as ed quase inúteis 198 funções são também aqueles que têm a melhor qualidade de som e imagem, e aí somos mais competentes em apreciar o valor adicional gasto.

Pois bem, ao tratar mais particularmente de tecnologias da informação, notadamente do uso da informática na educação, questões semelhantes são freqüentemente levantadas por pais de crianças e adolescentes. Pena que só há espaço para breves comentários. 1. Computadores ensinam mais que outras tecnologias? Computadores nada ensinam! Máquinas em geral são mediadores que, colocados entre as pessoas, podem permitir a criação de novas formas de comunicação e aprendizagem. Portanto, dê menos atenção ao tamanho do HD que ao indivíduo que escolhe o software e coordena atividades com os usuários. Este é um ponto central: que atividades são realizadas com os computadores disponíveis? Se apenas joguinhos burros de guerra ou programas supostamente educacionais que só incentivam a mecanização e memorização de informações, desista... sai muito caro!

2. A partir de que idade é aconselhável iniciar a criança em ambientes computacionais? Você deu revistas e livros a seu filho antes dele saber ler? Se não, você perdeu uma grande chance de vê-lo começando a diferenciar figuras de palavras, e "desenhando" nomes. Se sim, é a mesma coisa com computadores... não tem idade ideal, mas importa o que será realizado com o instrumento.

3. Afinal, que coisas são essas que devemos fazer com computadores? A lista seria tão longa que posso oferecer apenas dicas rápidas sobre programas educacionais. Procure adquirir programas que contenham pelo menos algumas das seguintes características: interatividade e flexibilidade para aceitar múltiplas ações ou respostas do usuário; ênfase nas propriedades fundamentais dos conteúdos e não nos aspectos cosméticos; uma mesma situação é apresentada de forma diversificada; ênfase no significado das situações e não em regras ou procedimentos.

4. É importante a escola oferecer cursos de computação? Não acredito em cursos de computação como algo voltado para o ensino de programação ou técnicas para trabalhar com aplicativos. Isso até pode ser interessante, mas não pode parar por aí. A escola deve incentivar os professores a utilizarem os computadores em suas aulas, como instrumentos de pesquisa e exploração do conhecimento. Assim como o objetivo do ensino no 1º e 2º graus não é formar matemáticos ou geógrafos, também não desejamos "micreiros" tapados a outras formas de construção de conhecimentos.

5. O uso do computador pode prejudicar a criança ou adolescente na interação com colegas ou adultos? Se seu filho ou filha passa muitas horas/dia brincando de "chat" (conversa eletrônica) na Internet ou destruindo os próprios neurônios com joguinhos burros de guerra, você é quem vai pagar a conta (literalmente...). Ocorre que isso pode ser conseqüência (e não causa) da tão falada e reclamada falta de comunicação entre pais e filhos. Além disso, crianças quase sempre jogam ou navegam pela Internet acompanhadas de parceiros reais ou virtuais.

Isto posto, é bom que se diga que computadores são instrumentos de grande plasticidade (bem maior que as 198 funções de qualquer VCR) e que a informática educativa pode permitir formas de ensino raramente presentes nas salas de aula tradicionais. Em outras palavras, estas novas tecnologias da informação associadas a atividades educacionais bem pensadas trazem possibilidades enormes para a construção e exploração de novos conhecimentos. Mas antes de "plugar-se" imagine o que seria do livro sem a literatura (computadores sem software), da literatura sem o leitor (software sem usuários), e do leitor sem o objetivo de imaginar (usuários sem uma atividade).

*Luciano Meira (lmeira npd.ufpe.br) é coordenador da pós graduação em psicologia cognitiva da UFPE.

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