.........................................................................-Jornal do Commercio, Recife, 04 de março de 1998
  GENTE
A supermulher que deixa calados os gigantes do Vale do Silício

por SANDRA CARVALHO
Especial para o JC

LONDRES - Não tem como fugir à regra. Sempre que uma nova cabeça aparece para dar palpites sobre o futuro da indústria digital, o resultado é receber um rótulo na testa. Foi assim com Bill Gates (intitulado de "Mago dos Computadores" e "Empresário Prodígio" por uma legião de informatas e criticado ferozmente por outra). E tem sido assim com muitos. Mas no caso de Esther Dyson, 46, a coisa é bem pior. Ela é a única mulher a dar as cartas (pelo menos a mais famosa delas) na tão masculinizada comunidade informata americana. Ou melhor, do mundo. Tem que ficar na berlinda.

Pode parecer exagero, mas Madame Dyson é apontada como visionária por companhias e revistas especializadas de diversas partes do planeta. Foi nomeada como uma das 50 mais influentes personalidades do mundo pela revista Vanity Fair e, recentemente, ganhou uma medalha do governo húngaro por ser uma das 23 mais importantes figuras a ter influência no desenvolvimento da indústria dos computadores no Leste Europeu. Ela é, ainda, presidente de diversas entidades ligadas à area, como por exemplo, a Associação Russa de Software e da Eletronic Frontier Foundation, organização não-governamental que trata de promover a liberdade de expressão e assegurar direitos e responsabilidades na Internet.

Os jornais The New York Times e Washington Post, bem como as revistas Forbes e a eletrônica Wired já dedicaram páginas inteiras ao que eles chamam de "supercybermulher". Há, ainda, as publicações que preferem explorar os hábitos estranhos de Dyson, como o de nadar todos os dias (não importando onde ela esteja), o de andar descalça, não ter telefone em casa e não saber dirigir o carro. Coisas tidas como inimagináveis para uma mulher tão familiarizada com tecnologia, principal consultora de empresas gigantes do ramo, como a Intel e a Silicom Graphics!

No Vale do Silício (California, EUA) - região onde estão concentradas as maiores empresas de informática do planeta - não é preciso dizer o seu sobrenome. Todo mundo a conhece como simplesmente Esther. Mas na Internet, ela já recebeu títulos de "Rainha do Cyberespaco", "Mãe da Comunidade Virtual"... e por aí vai...

Esther reconhece que ser mulher nesta selva informata não é fácil. Ela tem que aturar fofocas sobre sua vida pessoal, inclusive sobre suas preferências sexuais. Mas ironiza: "eu tenho mais o que fazer. Se tivesse que ser mais popular, seria um Bill Gates". E tem mesmo. Workaholic assumida, Esther fala fluentemente russo, francês, inglês e alemão. Ela pode estar numa reunião com empresários na Rússia, pela manhã, e ter um compromisso com o presidente da Intel, à tarde, no Vale do Silício.

Sua empresa, a EDventure Holdings, pesquisa informações emergentes na WWW e novas tendências para o mercado digital. Sua primeira publicação high-tech foi em parceria com o presidente da Compaq, Ben Rosen, e chamou-se Release 1.0. Agora, a obra que está causando polêmica é o livro Release 2.0 - A Design for Living in The Digital Age. Com 307 páginas, o livro expõe as teorias de Esther Dyson sobre a melhor forma de preparar a civilização de hoje para a era digital. Alguns críticos alfinetam, afirmando que o fenômeno Dyson é muito mais uma utopista do que realmente uma teórica de base científica.

A principal teoria de Dyson é que vamos passar de uma comunidade centralizada para uma mais independente e individualista. "No lugar da mass media, teremos informações distribuídas e personalizadas. Os pequenos terão mais força na Internet", afirma. "A rede é uma ferramenta que ajudará comerciantes locais ou associações de moradores a terem mais influência em seus meios. Eles terão o mesmo espaço que empresas e grandes instituições para divulgar seus problemas. Um espaço que não existe na grande imprensa", teoriza. É pagar pra ver.

A rápida ascenção de Esther Dyson talvez se deva à sua familia tradicionalmente intelectual e estudiosa de novas tecnologias. Nascida em Zurique, Suíça, ela é filha do fisico Freeman Dyson (renomado na área) e de uma matemática. Mudou para Princeton (Estados Unidos) ainda criança e cresceu no meio de ganhadores de prêmios Nobel, como o arquiteto da Bomba-H, Edward Teller, amigo da família Dyson. Aos 16 anos foi estudar economia em Harvard. Depois de concluído o curso, trabalhou como repórter, durante três anos, na revista Forbes. Seu contato com computadores vem desde a infância. Mas Dyson só começou efetivamente a trabalhar com a informática como analista de segurança de dados, após deixar a Forbes. Ela também promove fóruns mundiais sobre tecnologia. O próximo acontecerá em outubro, em Compenhaguem, na Dinamarca.

Para obter maiores informações sobre a "supercyberwoman", vale procurar nos servidores de busca, digitando o seu nome, ou no site da empresa: http://www.edventure.com

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