----............................................................-..........-Jornal do Commercio, Recife, 04 de marçro de 1998
 

JOELMIR BETING

Em pizza, não

No parlamentarismo italiano, os 55 governos de coalizão costurados no pós-guerra duraram, em média, 11 meses. O de Romano Prodi, com sua fachada de centro-esquerda, já dura 38 meses. Um recorde que lhe dá respeitabilidade interna e credibilidade externa. E nunca, como agora, o governo italiano precisou tanto disso.

Na entrevista à revista Veja desta semana, o primeiro-ministro italiano, um "schollar" no exato figurino do presidente Fernando Henrique Cardoso, diz que não é Maquiavel nem ingênuo: "O que é ser ingênuo em política? Se for agir com austeridade e honestidade, então sou ingênuo mesmo. Posso até ser ingênuo, mas as coisas deram certo e estou durando bem mais que os outros."

Uma façanha política. A Itália que não se governa e não se deixa governar, segundo Benito Mussolini, está na crista de mudanças radicais por dentro e para fora. Mudanças conduzidas pela coligação de Romano Prodi, que dá carona a ex-comunistas do antigo "maior PC do Ocidente". A um só tempo, os italianos são fustigados pela globalização, pela modernização, pela competição, pela integração européia e pela reorganização do Estado.

Um vespeiro na cola do outro. Com direito a mudanças no sistema político, na organização trabalhista e na regulamentação econômica. O governo central vai entregar o bastão a um sistema federativo semelhante ao alemão. Serão criados governos estaduais ou provinciais autônomos em assuntos orçamentários e fiscais. Haverá diminuição de um terço das cadeiras do Parlamento. E tanto o presidente como o primeiro-ministro passarão a ser eleitos diretamente pelo povo. Uma revolução.

Romano Prodi já acumula vitórias retumbantes. As grandes estatais da energia, do petróleo e das telecomunicações ganharam autonomia sob a forma de contratos de gestão e escaparam (com a ajuda da Operação Mãos Limpas) do assalto dos políticos e dos empresários. Passaram a dar lucro, no limiar da abertura dos monopólios, vestibular da privatização.

A desregulamentação da ordem econômica, do contrato trabalhista e da seguridade social, tanto quanto o ajuste fiscal exigido pela adesão à moeda única européia, desperta entre os italianos uma emoção maior que a dos gols de Bierhof, Battistuta, Del Piero ou Ronaldinho. Presidente da Enel, gigante estatal da eletricidade e ex-executivo da Olivetti e do Fininvest, Franco Tató comenta: "Como de hábito, a resistência às reformas é mais ruidosa na Itália do que em qualquer outra parte. Mas, por cima do barulho, as mudanças acabam saindo mais rápidas e mais profundas do que em outros países." Só faltou dizer: "Aqui na Itália, nada acaba em pizza."

Colisão

A redução da carga semanal de trabalho para 35 horas, iniciativa do governo Prodi (para o ano 2001), tem o apoio maciço dos sindicatos e a rejeição solene dos empresários. A livre negociação da matéria não ata e não desata.

Tiro no pé

Estudo da Confindustria mostra que a redução da carga de trabalho não vai aumentar a oferta de emprego. Ao contrário, estimulará a robotização do parque industrial italiano. Na linha germânica do "labour-saving".

Cartório

O governo Prodi arruma outra briga de gladiador romano com leão faminto: extinção do cartório do comércio lojista. Fim do regime de licença, da reserva de mercado e do horário fixo.

Abertura

A licença tipo carta patente vira pó. Deixa de ser patrimônio hereditário do microempresário. Qualquer loja poderá instalar-se em qualquer lugar e vender qualquer coisa. E o horário livre acaba com a prática anacrônica do fechamento das lojas das 13 às 16 horas.

     

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