--......................................................-...............-Jornal do Commercio, Recife, 04 de março de 1998
 

NA GRANDE ÁREA
Armando Nogueira

Antes tarde que nunca

Quando todos esperavam que da cartola do mágico saísse um Parreira pro Zagalo, acabou saindo um Zagalo pro Zagalo. O nome que será revelado, hoje, por Ricardo Teixeira, será um coordenador e não um auxiliar-técnico. Na hierarquia da comissão, o novo homem estará acima e não abaixo do treinador.

A essa altura do baile, a CBF parece estar fazendo o melhor pra Seleção. Um homem de campo certamente acabaria batendo de frente com o treinador principal. O coordenador, cujo modelo já é conhecido, ao contrário, só virá aliviar Zagalo das pressões de toda ordem que sofre o técnico da equipe nacional. E Zagalo não vinha se saindo nada bem no papel de porta-voz dele mesmo e da Seleção. Tenho a vaga impressão de que Ricardo Teixeira não "engoliu" com satisfação o destempero de Zagalo, gritando aos quatro ventos aquele célebre "vão ter que me engolir". O desabafo era contra a imprensa, mas Teixeira deve ter ficado assustado com o paroxismo personalista do treinador.

Até aqui, Zagalo vinha sendo ao mesmo tempo, a primeira e a última palavra. Empunhava, sozinho, o condão de onisciência e da onipresença, sem ter que explicar nada a ninguém. Quem ousava questionar seu trabalho, era invariavelmente repelido como um intruso, um palpiteiro. A coisa chegou a tal extremo de auto-suficiência que o treinador saiu da Copa da Concacaf, achando que todo aquele fiasco tinha sido normal. A assustadora reação de Zagalo ainda encontraria eco na declaração de João Havelange, que chegou a dizer que a Seleção estava no caminho certo. Um primor de irrealismo. "Tour va trés bien, madame la Marquise..."

Zagalo é uma criatura humana e, como tal, falível. Investido de poderes supremos, acabou se acreditando Jesus Cristo. O pecado original nessa história toda é da própria CBF que devia ter repetido, na íntegra, o modelo vitorioso de 94. Então, Parreira cuidava da equipe, dentro do campo, e Zagalo, fora de campo. E, como eram ambos de boa formação ética e profissional, Parreira tinha em Zagalo um confidente leal pros desabafos das noites insones e solitárias da TOREconcentração.

Quem não se lembra? Quando o pau começava a cantar na cabeça de Parreira, todo mundo descontente com a Seleção, era Zagalo, quem vinha ao público dar a cara a tapa. Parreira ficava lá, em silêncio, pastoreando seu rebanho.

É o que vai acontecer, daqui por diante. Zagalo não vai precisar mais ficar batendo boca com "os abutres" da imprensa. Expressão, por sinal, bem significativa do grau a que chegou a intolerância de Zagalo. Me lembro até do Saldanha, nas eliminatórias de 70. Quando um jornalista lhe perguntou, um dia, que tal a grama do campo em que ia treinar a Seleção, Saldanha, já com os nervos em frangalhos, cuspindo fogo respondeu que ainda não tinha provado e sugeriu que seu interlocutor comesse um tufo pra melhor sentir a qualidade da grama...

A mexida na comissão técnica é oportuna. Põe um ponto final no delírio de onipotência do técnico. É bom não esquecer que o homem nunca precisou de muito incenso pra se considerar divino. Qualquer um de nós na pele de Zagalo certamente também estaria se julgando acima do bem e do mal. O poder absoluto é o mais alienante dos fatores sociais. Da noite pro dia, o sujeito passa da impaciência à intolerância, da intolerância à prepotência, da arrogância à tirania. Felizmente, no futebol, às vezes, o que salva o homem da alucinação plena é uma boa derrota. Aquele um-a-zero dos Estados Unidos pode ter salvo o nosso Zagalo de uma incurável insolação mental.

Antes tarde do que nunca. A CBF interveio na Seleção, não pra enterrar, mas pra dar a Zagalo condições mais humanas de trabalho. Afinal, futebol não é esporte de equipe só dentro de campo. Fora, de campo, também.

UMA AULA, SIM SENHOR! - 20Agora que a CBF parece mais atenta à sorte da Seleção, que tal convidar a treinadora de basquete Maria Helena Cardoso pra bater um papo com a nova comissão técnica? Há dias, assisti a uma palestra da moça, num café-da-manhã com executivos do BCN. Achei simplesmente exemplar. Maria Helena discorre, com fluência e convicção, sobre todos os segredos do trabalho de equipe no esporte. Confesso que aprendi mais em uma hora e meia de Maria Helena do que em séculos de convivência com os pretensos papas do futebol.

Em tempo: espero que o pessoal do BCN me mande, como prometeu, a íntegra da palestra de Maria Helena.

RÁPIDAS E RASTEIRAS - 20Uma das coisas mais intrigantes do futebol é o ranking da Fifa. Por exemplo: a Espanha ficou invicta não sei quantos jogos, perdeu, outro dia, pra França; no ranking, está em 23º lugar. O Brasil faz um fiasco na Copa Ouro, sai de lá com o rabo entre as pernas. Posição no ranking: 1º lugar, inabalável. Claro que fui investigar e acabei descobrindo a fórmula matemática pela qual a Fifa elege as melhores seleções. Tome nota, leitor: pega-se a raiz quadrada do co-seno das vitórias e divide pela hipotenusa das derrotas; noves fora, os empates. Não tem erro. *** Quem estiver interessado em comprar uma bela casa no estado americano de Connectticut é só procurar o dono, que se chama Mike Tyson. A mansão conta 20 quartos, seis cozinhas, quatro salas de conferência e uma boate. Tem 20 mil metros quadrados e custa 22 milhões de dólares. *** Um leitor me escreve, perguntando quem era melhor: Mário Filho ou Nelson Rodrigues? Leio os dois, a vida inteira. Mário Filho escreveu sobre a realidade do futebol. Nelson, sobre a fantasia do futebol. Ambos são esplendidos.

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