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NA
GRANDE ÁREA
Armando Nogueira
Antes
tarde que nunca
Quando todos esperavam que da
cartola do mágico saísse um
Parreira pro Zagalo, acabou
saindo um Zagalo pro Zagalo. O
nome que será revelado, hoje,
por Ricardo Teixeira, será um
coordenador e não um
auxiliar-técnico. Na hierarquia
da comissão, o novo homem
estará acima e não abaixo do
treinador.
A essa altura do baile, a CBF
parece estar fazendo o melhor pra
Seleção. Um homem de campo
certamente acabaria batendo de
frente com o treinador principal.
O coordenador, cujo modelo já é
conhecido, ao contrário, só
virá aliviar Zagalo das
pressões de toda ordem que sofre
o técnico da equipe nacional. E
Zagalo não vinha se saindo nada
bem no papel de porta-voz dele
mesmo e da Seleção. Tenho a
vaga impressão de que Ricardo
Teixeira não "engoliu"
com satisfação o destempero de
Zagalo, gritando aos quatro
ventos aquele célebre "vão
ter que me engolir". O
desabafo era contra a imprensa,
mas Teixeira deve ter ficado
assustado com o paroxismo
personalista do treinador.
Até aqui, Zagalo vinha sendo
ao mesmo tempo, a primeira e a
última palavra. Empunhava,
sozinho, o condão de
onisciência e da onipresença,
sem ter que explicar nada a
ninguém. Quem ousava questionar
seu trabalho, era invariavelmente
repelido como um intruso, um
palpiteiro. A coisa chegou a tal
extremo de auto-suficiência que
o treinador saiu da Copa da
Concacaf, achando que todo aquele
fiasco tinha sido normal. A
assustadora reação de Zagalo
ainda encontraria eco na
declaração de João Havelange,
que chegou a dizer que a
Seleção estava no caminho
certo. Um primor de irrealismo.
"Tour va trés bien, madame
la Marquise..."
Zagalo é uma criatura humana
e, como tal, falível. Investido
de poderes supremos, acabou se
acreditando Jesus Cristo. O
pecado original nessa história
toda é da própria CBF que devia
ter repetido, na íntegra, o
modelo vitorioso de 94. Então,
Parreira cuidava da equipe,
dentro do campo, e Zagalo, fora
de campo. E, como eram ambos de
boa formação ética e
profissional, Parreira tinha em
Zagalo um confidente leal pros
desabafos das noites insones e
solitárias da
TOREconcentração.
Quem não se lembra? Quando o
pau começava a cantar na cabeça
de Parreira, todo mundo
descontente com a Seleção, era
Zagalo, quem vinha ao público
dar a cara a tapa. Parreira
ficava lá, em silêncio,
pastoreando seu rebanho.
É o que vai acontecer, daqui
por diante. Zagalo não vai
precisar mais ficar batendo boca
com "os abutres" da
imprensa. Expressão, por sinal,
bem significativa do grau a que
chegou a intolerância de Zagalo.
Me lembro até do Saldanha, nas
eliminatórias de 70. Quando um
jornalista lhe perguntou, um dia,
que tal a grama do campo em que
ia treinar a Seleção, Saldanha,
já com os nervos em frangalhos,
cuspindo fogo respondeu que ainda
não tinha provado e sugeriu que
seu interlocutor comesse um tufo
pra melhor sentir a qualidade da
grama...
A mexida na comissão técnica
é oportuna. Põe um ponto final
no delírio de onipotência do
técnico. É bom não esquecer
que o homem nunca precisou de
muito incenso pra se considerar
divino. Qualquer um de nós na
pele de Zagalo certamente também
estaria se julgando acima do bem
e do mal. O poder absoluto é o
mais alienante dos fatores
sociais. Da noite pro dia, o
sujeito passa da impaciência à
intolerância, da intolerância
à prepotência, da arrogância
à tirania. Felizmente, no
futebol, às vezes, o que salva o
homem da alucinação plena é
uma boa derrota. Aquele um-a-zero
dos Estados Unidos pode ter salvo
o nosso Zagalo de uma incurável
insolação mental.
Antes tarde do que nunca. A
CBF interveio na Seleção, não
pra enterrar, mas pra dar a
Zagalo condições mais humanas
de trabalho. Afinal, futebol não
é esporte de equipe só dentro
de campo. Fora, de campo,
também.
UMA AULA, SIM SENHOR! - 20Agora
que a CBF parece mais atenta à
sorte da Seleção, que tal
convidar a treinadora de basquete
Maria Helena Cardoso pra bater um
papo com a nova comissão
técnica? Há dias, assisti a uma
palestra da moça, num
café-da-manhã com executivos do
BCN. Achei simplesmente exemplar.
Maria Helena discorre, com
fluência e convicção, sobre
todos os segredos do trabalho de
equipe no esporte. Confesso que
aprendi mais em uma hora e meia
de Maria Helena do que em
séculos de convivência com os
pretensos papas do futebol.
Em tempo: espero que o pessoal
do BCN me mande, como prometeu, a
íntegra da palestra de Maria
Helena.
RÁPIDAS E RASTEIRAS - 20Uma
das coisas mais intrigantes do
futebol é o ranking da Fifa. Por
exemplo: a Espanha ficou invicta
não sei quantos jogos, perdeu,
outro dia, pra França; no
ranking, está em 23º lugar. O
Brasil faz um fiasco na Copa
Ouro, sai de lá com o rabo entre
as pernas. Posição no ranking:
1º lugar, inabalável. Claro que
fui investigar e acabei
descobrindo a fórmula
matemática pela qual a Fifa
elege as melhores seleções.
Tome nota, leitor: pega-se a raiz
quadrada do co-seno das vitórias
e divide pela hipotenusa das
derrotas; noves fora, os empates.
Não tem erro. *** Quem estiver
interessado em comprar uma bela
casa no estado americano de
Connectticut é só procurar o
dono, que se chama Mike Tyson. A
mansão conta 20 quartos, seis
cozinhas, quatro salas de
conferência e uma boate. Tem 20
mil metros quadrados e custa 22
milhões de dólares. *** Um
leitor me escreve, perguntando
quem era melhor: Mário Filho ou
Nelson Rodrigues? Leio os dois, a
vida inteira. Mário Filho
escreveu sobre a realidade do
futebol. Nelson, sobre a fantasia
do futebol. Ambos são
esplendidos.
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