TEXTO CONTEPORÂNEO
No
Brasil de hoje só rolam os
desacontecimentosUma vez escrevi sobre os
"desacontecimentos".
Volto hoje. Se alguma coisa marca
o país, hoje, são os
"desacontecimentos".
Isto ficou mais claro depois que
passei dois meses diretos em NY.
No mundo lá fora, as coisas
acontecem; aqui giram no mesmo
lugar. Lá explodem as bombas da
Índia, descobrem-se planetas e
galáxias, aqui não conseguem
nem cassar o Pedrinho Abraão.
Lá, as coisas vingam; aqui,
murcham logo depois de uma bruta
florescência.
Já passei por
muita coisa. Já vivi épocas com
cores mais vivas. O pré-64 eu
diria que era vermelho, não só
pelas bandeiras do socialismo,
mas pelo sangue vivo que nos
animava a construir um país,
romanticamente. Era ilusão? Era.
Mas tinha o gosto de vida. Já
passei por períodos como a
ditadura de 64, aquele
verde-oliva que nos cercou como
uma epidemia de vil patriotismo,
aquele fascismozinho caboclo,
tecido pela mais idiota classe
média e pelos ideais cívicos
mais vagabundos. Era terrível?
Sim. Mas, nos dava o
"frisson" de sermos
"vítimas", enobrecidos
pelas porradas da história nas
costas. Já vi momentos negros
durante a repressão dos anos 70,
com os mortos se empilhando,
passei pelo céu cor-de-laranja
com marmelada de contra-cultura,
pelos depressivos anos cinzentos
de Sarney, passei pelos rostos
amarelos e verdes do
"impeachment", pelo
azul da esperança do Plano Real.
E hoje? Qual é
a cor de nosso tempo?
Cor-de-burro-quando-foge. É a
cor morta dos
"desacontecimentos". A
pos-modernidade (arrghh!) no
Brasil não tem o gosto cínico
de um tempo cru; apenas, virou
uma grande sopa fria. Uma sopa
sem sal, dois pregos se anulando
pela ponta, uma cobra mordendo o
próprio rabo, um círculo
vicioso, um beco sem saída, um
bode preto, uma galinha morta, um
nada depressivo... (Sim, leitor,
deixai toda esperança fora,
porque este é um artigo
deprimido, confuso e torto).
Nas notícias
de jornal, vejo um mesmo tema; as
coisas que "não"
acontecem: "não"
termina a greve, "não"
puniram os responsáveis,
"não" conseguiram
isso, nem aquilo. Nossas
notícias são narrativas de
fracassos. O disurso do
presidente, tentando corrigir a
queda de prestígio, foi feito na
base do "não posso fazer
tudo", "não deu
pé". É espantoso como um
governo querendo mexer em nossa
secular estrutura ibérica,
ignora o povo e não o informa
desta difícil tarefa, com a pior
comunicação social da
história, deixando o projeto à
mercê dos manipuladores da
ignorância...Como isto pode
acontecer? O presidente no meio
do capim, com aquele
pulpitozinhho abandonado, feito
um náufraggo no Alvorada? Não
dá para acreditar. O próprio
lema do Governo, a "utopia
possível", deita suas
influências sobre a sociedade
toda.
Perdemos as
ridiculosas ilusões onipotentes
e, no lugar, só ficaram
realismos escangalhados como
ferro velho inútil e baldio. As
reformas ficaram no meio, detidas
pela mais suja resistências dos
velhos donos poder. O populismo
burocrático e corporativo, a
burrice dos velhos
"albanezes", o
egoísmo, a corrupção, o
clientelismo, o patrimonialismo
das elites recusam-se a morrer,
de mão dadas. A propostas do FHC
de enfrentar a complexidade do
mundo atual, aceitando-a e
tentando combatê-la por dentro,
é uma luta inglória, pois seus
inimigos são: o simplismo, o
charme luminoso das promessas
utópicas, o maniqueísmo de
facíl compreensão.
É muito mais
fácil usar o "não" do
que o "sim". E no
esforço de complexas alianças,
os objetivos vão se extinguindo.
O PDT virou o PFL do PT e não
sei se o Jader Barbalho
comandando a campanha dos tucanos
é mais ridículo do que a
Benedita beijando a mão de
Garotinho, sob o olhar velho do
Brizola ao lado de sua futura
vítima, o "sapo
barbudo", que ele vai
devorar de inveja. Voltaram os
indícios de que a história
poderá se repetir, com o
pêndulo entre populismo
irracional e uma possível volta
do fascismo caboclo. Os sinais
estão no ar. FHC se recusando
"modernamente" a ser
populista e ficando apenas frio e
ausente, sentado na
"teleologia das
reformas" que não vieram.
E o suspense
internacional dos especuladores,
nos olhando como lobos, para
desvalorizar a moeda? E o
desequílibrio fiscal
invencível? E os saques
programados para a TV? E, em
volta do marasmo político, o
triunfo do "brega"
fervilhando na cultura? O
"brega", que tinha um
sabor remoto de folclore urbano,
de doce burrice tolerável, toma
agora conta de tudo, do rabo de
Carla Perez ao filho da Xuxa, ao
Radinho à vitória massíficada
do "quando pior
melhor", dos evangélicos
eletrônicos.
E a ausência
da arte nova? Não há nada no
ar. Houve filmes novos? Sim. Mas,
e a distribuição na mão dos
gringos que riem do nosso
"renascimento"? Já
repararam que não temos moda?
Não há mais moda. Não falo só
de roupas, como aqueles
esquizofrênicas mocréias que
desfilaram no Phytoervas, falo da
Moda geral, vivendo no peito,
"zest", ânimo de
viver, cor no rosto, bravata
narcísica, tesão, ilusão,
adrenalina na alma. Nem comunas,
nem hippies, nem punk, nada.
Somos uma sopa. E o sexo? Uma
grande Camisa-de-Venus
encapotando nossos pintinhos,
entre a Aids e o Viagra,
revelando a massa imensa de
brochas secretos!
E as eternas
colunas sociais, com os eternos
sorrisos e as eternas pernas nuas
e as velhas madames e as novas
peruas se reprodduzindo em
série? E os crimes, as balas
perdidas, as revoltas nas
prisões? E o
"Titanic"? E o FMI? E o
Zagalo? E o pau do Cliton? E a
bomba de Krishna na India? E a
Indonésia? E o Suharto numa boa,
se aposentando? E os intelectuais
sem discurso? E os precatórios
impunes? E os banqueiros nos
invandindo com "fusões e
aquisições"? E o Bibi, o
rei dos judeus? E a Madeleine
Albright - a mocréia do
apocalipse de azul-turquesa
sorrindo para o Bibi? E a
tristeza do Arafat? E os juros do
Ieltsin? E a dengue? E a peste? E
a gripe espanhola?
Como dizia
Nelson: "Se o mundo acabar
não se perde abolutamente
nada..." Olha, se eu fosse
você, leitor irmão, eu não lia
este meu artigo de hoje...