- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 05 de maio de 1998

SECA
FHC diz que sua visita ao Ceará não é em campanha eleitoral

TEJUÇUOCA (CE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso tentou ontem, desvincular sua visita ao sertão do Ceará da campanha eleitoral. FHC negou que a visita, inicialmente prevista para a quinta-feira, tenha sido antecipada em função do roteiro que o pré-candidato do PT à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, também estava fazendo no Estado ontem. Enquanto FHC ficou a oeste, em Tejuçuoca, Lula foi a Quixeramobim e Jaguaruana, na região central do estado.

"Há uma semana eu já tinha marcado isso. Eu não antecipei nada, havia combinado com o governador Tasso Jereissati que eu viria hoje (ontem). Eu apenas não havia comunicado porque não tinha decidido se vinha mesmo", disse o presidente. FHC repetiu que não está em campanha e que teme que a seca, se transforme em objeto de exploração política. "Seca mexe com o povo", afirmou.

Ele disse que ainda esta semana estará no interior da Bahia visitando outra área de seca, como parte da série de visitas que pretende realizar ao sertão nordestino. "Eu sou o presidente da República, tenho um peso enorme de responsabilidades políticas e administrativas pelo Brasil. Eu não posso estar todo o tempo pensando em campanhas, todo o tempo falando em campanha. Eu não estou em campanha", afirmou.

Entre risos discretos, FHC disse que "maldade está em toda a parte" e que acharia bom até mesmo que Lula estivesse em Tejuçuoca com ele. "Não tenho nada contra. Ao contrário, se ele (Lula) quisesse estar junto comigo, aqui, eu estaria também. Diante da seca, nós temos que nos unir e não nos separar", disse.

O presidente afirmou que ambos estavam "no coração da zona pobre do Ceará" e que somente com o trabalho combinado dos prefeitos com o governador, com as autoridades federais e da população é que haveria mudanças. "O Brasil só muda com muito trabalho, sobretudo com muito esforço coletivo".

CRÍTICAS - O presidente Fernando Henrique Cardoso desconsiderou as críticas feitas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Sepúlveda Pertence, de que o agravamento do problema da seca e fome no Nordeste deve-se à falta de gerenciamento por parte do governo. "Eu não opino sobre o ministro Pertence porque ele não devia opinar, como ministro, sobre o que ele não sabe", atacou.

Ao lado do bispo da região, Dom Benedito Francisco Albuquerque, FHC defendeu o diálogo e afirmou que "saques só em extrema necessidade". O presidente apelou não só à Igreja Católica, mas a todas as igrejas", que ajudem à população. Para ele, os saques, que ocorreram ontem nas cidades de Senador Só, Lavras, Tabuleiro, Morrinhos e Tauá, "não se espalharão porque o governo está distribuindo alimentos nas regiões necessitadas".

"Não critico quem está com fome", disse. "Critico quem não está com fome e está usando a fome para incentivar os saques". Em seguida, referindo-se novamente a Pertence, afirmou que quem não conhece a realidade, deveria ser humilde e não opinar sobre o que não sabe: "Só não pode haver uma coisa, quem não entende, não está por dentro, quem não está trabalhando, apenas opinar para querer aparecer nos jornais... Isso é muito feio".




   

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